O Antro da Pretensiosidade

ou: mais um desses pseudo-escritores medíocres.

Pequeno semanário irregular (2)

Olá, saudosos leitores. A má notícia é que andei largando isso aqui às favas. A boa notícia é que estou de volta à ativa. A ideia desse post é ser apenas uma pequena atualização (como sempre) com uma promessa (vazia) de que haverá mais conteúdo. Embora eu tenha que prometer isso mais a mim do que a quem me lê.

Acontece que tenho produzido bastante e não tenho achado muito tempo para selecionar e revisar essas produções. Aí continuo nesse ciclo, com umas oitenta páginas (e aumentando) de texto pronto e nada ainda passível de ser postado. Por hora, acho que vou continuar finalizando alguns textos antigos, e conforme for subindo a produção e revisão dos textos, ir trazendo coisas novas.

Apenas para que não fique um vácuo de “estou fazendo mas não digo o que”: atualmente estou trabalhando numa tradução de Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Já que a única tradução ao português que encontrei foi feita por um autor que prefiro não comentar sobre, resolvi fazer minha própria, a partir do italiano, com meus esparsos conhecimentos da língua. Até agora tem sido um maravilhoso exercício, tanto de releitura quanto de aprendizado do idioma, quanto de escrita. Paralelamente, estou escrevendo o que vai vir a tornar-se meu trabalho de conclusão de curso da faculdade ano que vem. Do qual pretendo postar alguns trechos aqui, quando for relevante.

Enfim, acho que é isso. Acabei de publicar um texto novo lá na Obvious (pra compensar o quanto demorei pra isso), é inclusive uma versão prévia do que estou preparando para postar por aqui. No mais, aguardem novidades, e até semana que vem (sem falta agora)!

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Sobre organização.

Olá, leitores ou não. Andei ocupado, e andarei por mais algumas semanas. Já começando o texto de hoje, primeiro em um tempo menos que razoável, com uma má notícia/desculpa esfarrapada pela falta de posts. A questão é que minha vida tem andado positivamente turbulenta na maioria dos aspectos.

E uma dessas turbulências se trata de uma viagem. Um empecilho para postagens, olhando por uma ótica negativa. Mas trarei novidades na volta. Acabei percebendo uma coisa interessante: o processo de viajar. Ele começa muito antes da viagem. Ao mesmo tempo, cada preparativo já é um pedaço dessa viagem. Não faço ideia sobre como concluir esse parágrafo, mas acho que é impossível não sentir uma certa antecipação, um clima de início de feriado com qualquer viagem/mudança.

No meio desse processo de preparação, acabei tendo que, obviamente, preparar uma mala. Aproveitei a ocasião pra arrumar meu quarto inteiro, mas isso é outro assunto. Minha preparação da mala funcionou mais ou menos assim: eu fiz uma espécie de inventário mental, “o que eu tenho”. Esse inventário foi dividido em duas categorias: “coisas que posso levar”, e “coisas que não posso levar”. Depois, as coisas que posso levar são divididas entre “coisas relevantes” e “coisas inúteis”. É agoniante escrever “coisa” tantas vezes entre aspas no mesmo parágrafo.

No fim, a conta sempre termina em “coisas que preciso”. E aí, dessa vez, quando a minha mochila imaginária (cujos conteúdos obviamente encherão uma mochila real) de 65 litros já estava entulhada com os meus poucos bens, tive uma pequena catarse: como se precisa de pouco. Porque na mala mínima para minha grande jornada de pouco mais de uma semana, eu tenho o suficiente (em termos de roupas e materiais de trabalho/lazer) para viver por mais ou menos… dois anos? cinco?

Não sei no que acredito mais. Se sou um mestre ancião da versatilidade cotidiana e indumentária, opção da qual duvido muito; ou se mesmo a maioria das roupas, aparelhos, papeis e materiais que fazemos questão de guardar são irrelevantes. Mas por via das dúvidas, só por via das dúvidas, tirei alguns minutos e aumentei o espaço vazio de minhas gavetas para mais ou menos o dobro do que era antes. O que tenho para dizer acaba aqui, o resto é por conta de quem vier a ler.

Em um tópico não relacionado, dois textos meus, um inédito e uma versão modificada do que tenho postado nas últimas semanas, estão concorrendo em concursos que preveem publicações com os vencedores. Se é o sonho de algum dos meus (imaginários) leitores me ver publicado, cruzem os dedos. Até a volta, e dessa vez podem ter certeza que trarei novidades.

Projeto sem título (5)

Debaixo da sombra da pequena árvore, continua contemplando o céu. As estranhas formações nebulosas agora agrupam-se de forma mais densa do que antes vira. Vívidos no ambiente que deixara para trás, embora não em sua memória, ainda estão o cheiro da poeira quando torna-se lama e o frescor do campo quando torna-se um charco. A luz solar projeta-se angularmente, tanto que consegue observar o céu sem que seus raios importunem.

O sono toma conta de si, e já nem mais lembra onde se encontra quando a água começa a tocar suavemente sua face. Percebendo o falso abrigo onde encontra-se, ele corre de volta à floresta, inadvertidamente para o lado oposto do qual ele viera. A vegetação à sua frente agora mostra-se cerrada a ponto de lembrar uma caverna escura antes de um bosque.

Tão pouca é a luz que penetra seus confins que, sob a baixa luminosidade que encontra-se, é impossível adentrá-los. Espera até que o sol volte a brilhar, embora em sua memória agora não existe algo como um sol. Tudo parece ser inundado pelos fluxos torrenciais que envolvem-no, junto à floresta, à clareira, à planta sob a qual repousara. O único chão que sequer uma gota alcança é aquele abaixo de seus pés, protegido pela imensa cobertura vegetal.

Abisma-se com a quantidade de água. Se tivesse dormido por poucos segundos a mais, estaria em meio a uma grande poça de lama aguada. Agora, as gotas de chuva cortavam sua visão como uma espécie de cegueira parcial, ofuscando-lhe a floresta de onde saíra e tornando vibrante a pequena árvore que deixara para trás. De dentro do pequeno matagal, um infindável breu parecia irradiar para fora, tal como fariam raios de luz.

Antes que pudesse deixar seus pensamentos de lado, um pouco mais era visível dentro da espessa floresta. Seu caminho era bloqueado por galhos e folhagens estoicamente rastejantes a seus pés. Perceberia mais tarde as dificuldades do caminho, por hora concentrava-se apenas na variável vibração dos ramos da pequena árvore.

Projeto sem título (4)

Tão logo passara a tormenta, da qual nem procurou refugiar-se, retomou sua marcha solitária. Uma marcha que compassava exatamente com a perda das memórias anteriores, numa jornada de constante olvido. Sem saber, limpava constantemente sua própria mente, como um lavrador que ara os restos ressecados da terra após a colheita para naquele mesmo lugar deixar brotar o frescor da nova cultura.

E verdes como a nova colheita pareciam nascer, em um lapso temporal superacelerado, os resquícios de um bosque à sua frente. Assim que os troncos cinza sobre um chão irrelevante davam lugar a uma fina cobertura de relva, assim que os galhos secos agora eram pequenos arbustos de um verde vivaz, sentiu-se compelido a andar ainda mais, e ao mesmo tempo pensou em parar. Apreciar.

Em dúvida, continuava caminhando. Antes de dar-se por conta, já fora engolido pela floresta que vira aflorar. Engolido, submergindo totalmente nas entranhas daquele emaranhado de teias, folhas e pequenos frutos. Explorando seus brônquios até que mais nenhum canto restasse. Sem que suas grandes coníferas recobertas por delicadas vinhas; sem que suas delicadas gramíneas não menos dignas de atenção; sem que os sons do vento, não de um vento meramente atmosférico, mas de um vento vivo por sua própria conta; não tivessem sido contempladas por seu olhar atento.

Finalmente parou, diante de uma clareira. Não sentia-se capaz de sintetizar os raios do sol, já no limiar entre escaldante e confortante. Contentava-se com a brisa que vinha das árvores, com o aroma das cortiças renovando-se, com a explosão de tons esverdeados, tons do alegre renascimento e da vívida juventude que irradiavam daquela floresta.

Depois de finalmente aquietar-se, permitiu-se pisar na clareira. No meio dela, uma única árvore, de folhas perfumadíssimas. Oferecia-lhe um lugar à sombra. Deitou-se, sobre o orvalho que congelava-lhe os poros. Sentindo a floresta sob sua pele, ouvindo seus sons, provando de seus aromas e sabores e deliciando-se com suas cores, adormeceu.

Projeto sem título (3)

Sob um resquício de bruma, descera a montanha sem lembrar-se. Talvez nem mesmo a tivesse descido. O fato é que agora encontrava-se abaixo dela, deixara as últimas lufadas da noite atrás de si e já não a via atrás das montanhas. Sentia a umidade pesar-lhe nos ombros, como um suave cansaço. Desses confortável de sentir.

A alvorada, mesmo sem sol, reservou-lhe um belo espetáculo. Andara mais um pouco por um terreno de relevo mais ou menos regular, com algumas poucas árvores já ressecadas pelo início do inverno. De onde estava, pela primeira vez desde que lembrava-se, podia contemplar o céu diurno em sua quase integridade.

Sua memória pouco lhe valia. Ao ver as nuvens que esbranquiçavam a grande epiderme azul do céu, parou surpreso. Os escuros galhos ressecados tornavam as grandes formações de névoa ainda mais brancas, e o silêncio parecia pleno. Além da fina bruma que se projetava sobre ele e do cheiro da terra sendo umedecida que lentamente atiçava seu olfato, nada parecia despertar-lhe o menor interesse.

Seu êxtase solitário tomara completamente o espaço da planície, da montanha. Agora, observava tranquilamente o volume das nuvens acima do horizonte. As montanhas pareciam-lhe pouco além de pequenas saliências. Seus ângulos rudes e precisos não lhe traziam o mesmo conforto das lânguidas curvas e esferas imperfeitas que via acima de si.

E abaixo das nuvens, ainda no horizonte, parecia ter algo que o instigava ainda mais. O pouco azul que restava do céu em meio ao branco das nuvens parecia condensar-se em profundos tons esverdeados, que de certo ângulo completavam os troncos e galhos secos com a vida que lhes faltava. Mas tudo isso podia esperar, que aguardassem pacientemente pelo menos até seu suave torpor dissipar-se como uma nuvem após tempestade.

Projeto sem título (2)

No alto da cadeia de montanhas, pouco se percebe do anoitecer. Testemunha o sol, ainda deixando resquícios de vermelho no véu celestial, completando sua descida e dando espaço para a tintura negra da noite, pontilhada por botões e miçangas astronômicas. Não inspira-lhe uma cor como as planícies antes inspiravam, o frescor da grande altitude. Ao invés disso, pensa apenas em seu repouso.

Tão pouco quanto lembrava do que procedera à planície lembra-se do que vinha antes da cadeia montanhosa. Em sua mente, havia passado a vida toda sobre as ásperas rochas, contemplando o céu cada vez mais pontilhado; apreciando os constantes sons de aves de rapina, pequenas pedras rolando, e principalmente de sua delicada respiração ressoante em seu crânio. Respirava contra as correntes de ar que cantavam suas agudas sinfonias enquanto presas em meio aos picos rochosos.

E dessa forma, em seu estado quase meditativo, ele mal percebe quando as estrelas ganham mais destaque ao céu montanhês, sem nenhum tipo de poluição visual. Não percebe a grande faixa galáctica que corta o céu, as milhões de estrelas, de onde é possível que esteja sendo também ele contemplado. Ao percebê-las, esquece do canto dos picos e das aves de rapina, e concentra-se apenas na magnitude do céu cintilante.

Sua mente novamente vaga. Nem se tentasse muito agora conseguiria lembrar o que se passara antes de chegar até ali. É inverno, o dia demora a clarear, e quando finalmente raia, já quase adormeceu. E em estado de sono mal enxerga o topo das montanhas iluminando-se, as aves de rapina recolhendo-se, o vento cantante que agora cessa, e a luz que ofusca-lhe as estrelas.

Projeto sem título (1)

Mesmo após uma longa queda livre, parece ser impossível atingir a paisagem abaixo. Entre alcançá-la ou não, porém, existe uma ínfima diferença. Porque a grande planície, já avermelhada pela luz crepuscular, parece fundir-se ao decadente céu diurno. Parte pelo solo de terra rubra e parte pela luz que o vela, tudo abaixo amalgama-se em um grande poço de chamas.

Aos olhos mais atentos, surgem algumas árvores em pleno outono com suas folhas cor de ouro. Não saltam aos olhos em primeiro lugar. Antes ficam lá, humildemente postas, esperando ser descobertas pelos observadores que tomam seu tempo para contemplá-las. Também pouco visíveis são os pequenos charcos, ainda aguados demonstrando que há pouco tempo houve uma chuvarada. Refletem em si toda a vermelhidão do céu, e assim compõem esconderijos perfeitos para todo o tipo de vida aquática que consiga viver sem mover a água.

Ele não se lembra de como chegou até ela. Não se lembra das dunas, da sede, da intransponível imensidão monocrômica. De repente o aconchegante carmenesim da vasta e úmida planície inunda seus sentidos. Como um viajante que acabava de descer de seu camelo – embora o último de seus camelos o tenha abandonado há mais tempo do que conseguiria recordar-se – ele pôs-se a correr.

Correria ao horizonte, se soubesse da existência de um. Tal como alguém que observa de longe aproximava-se, perdendo detalhes periféricos. Concentrava-se apenas no vento que tocava sua face, na cor de fogo que inundava sua visão como o breu inunda olhos que repousam fechados. O frescor da meia estação, após uma estoica e infindável onda de calor, finalmente trazia a si uma experiência sensorial agradável. Pela primeira vez, julgava que sentia.

Sentia o mundo ao seu redor, afinal. Sentia o horizonte fazendo a si mesmo à distância, sentia o céu se juntando à terra sem sequer um horizonte. Se pudesse descrever o vento, descreveria como vermelho, assim como era o gosto da água empoçada da qual ele finalmente provava. Vermelho como o cheiro da essência das folhas secas que incensava naturalmente todo o ambiente, vermelho assim como o som morno das folhas quebrando-se a cada um de seus passos. Vermelho como toda aquela paisagem, e dentro de uma grande ânfora rubra, uma linha de fuga começava a formar-se.