Prólogo #1

by F. Pergher

Eu vim à metrópole. Dias como hoje me deixam extremamente inquieto. Fazem-me pensar sobre os motivos pelos quais eu deixei minha cidade natal, pra me enfiar em um buraco de asfalto, concreto, fumaça, inversões térmicas particularmente irritantes e cheiro de sarjeta por todo o lugar. Inclusive longe das sarjetas. Eu não percebi na época, mas eu poderia ter vivido perfeitamente bem, sem maiores perturbações, naquele minúsculo despenhadeiro subdesenvolvido que os habitantes insistiam em estufar o peito pra chamar de cidade. Sua cidade. Minha cidade.

Talvez tivesse sido melhor, é o tipo de epifania que me vem à tona. Geralmente nesse momento, eu penso que não devo ser niilista. Afinal, sou de maior serventia aqui do que um dia pude imaginar que seria estando por lá. Não posso, porém, deixar que meu orgulho domine a razão. Não tenho nenhuma serventia concreta. Pra falar a verdade, tudo que eu tenho são alguns dons. Cinco deles, eu destacaria, até onde puder fazê-lo sem passar a imagem de vanglória. Quatro são perfeitamente normais: tenho pulso firme, e isso quer dizer que posso fazer uma linha reta em qualquer superfície, utilizando qualquer material capaz de riscar; o segundo deles é que consigo fazer isso de modo relativamente ágil. Minha terceira habilidade (se é que posso me permitir chamá-la assim) é que eu consigo enfiar meu pé atrás da cabeça. Ou pelo menos era assim que eu via com sete anos de idade. Meu quarto mérito normal é uma graduação em desenho industrial por uma instituição medíocre e sem renome. Meu quinto, último e, diga-se de passagem, incomum dote é que eu sou Deus.

Qual o conceito de Deus, afinal? Qualquer crença o define, isso é quase unânime, como o “único capaz de criar”. Caso eu não seja Deus, escusado dizer que posso oferecer-lhe certa concorrência. Minha mente está completamente sã, até o ponto que a cidade me deixa estar são. Não sei explicar, mas eu sou capaz de criar. Materializar. Não, eu nunca usei disso para ficar rico. Na verdade, seria uma tentativa ignóbil. O que eu crio tem uma vida útil muito curta. Duvido conseguir leiloar, mesmo que seja por um preço absurdamente baixo, em tempo hábil. Por tempo hábil, leia-se tempo suficiente para fotografar, enviar a uma casa de leilões, bater o martelo e desaparecer da vida do comprador antes que ele saiba o que comprou. Se souber, com certeza terei que reembolsar.

A arte é efêmera, dizem eles. Sei disso mais do que qualquer um. A efemeridade de minha arte, porém, não é medida em períodos socioculturais, muito menos pela influência da vanguarda à qual pertenço. A efemeridade de minha arte é medida em disparos. Disparo, para concordar em número. Golpe. Explosão. Fratura craniana.

 

 

Esse é o primeiro escrito que tenho levado a sério, tanto cronologicamente, quanto em matéria de dedicação. Achei relevante começar por ele, porque de todos os “prólogos” e monólogos desconexos que escrevi, é o que mais tenho convicção de que será terminado.

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