Prólogo #2

by F. Pergher

Reclinou-se confortavelmente, tanto quanto possível, em sua cadeira de escritório. Sorvia os últimos goles de refrigerante da latinha enquanto ligava seu computador e conectava o telefone à central. Como sempre. Apesar da rotina esmagadora, e do horário incomum de sua jornada de trabalho, tinha um sincero sorriso no rosto. Com convicção, pensava que seu trabalho era nobre, mesmo carecendo reconhecimento.

Linhas de auxílio a suicidas estavam totalmente fora de moda, porém pessoas ainda precisavam dela. E ele precisava daquelas pessoas. Porque por mais que ninguém nunca pudesse agradecê-lo pessoalmente por salvar sua vida, esse ato fazia com que ele sentisse-se bem consigo mesmo. Pois ele era tão frágil quanto os que dele precisavam, e se não pudesse sentir-se ajudando alguém nesse mundo, ele podia muito bem ser o próximo a precisar daquelas linhas.

E por esse motivo, trabalhar das duas às dez da manhã recebendo pouco mais do que um salário mínimo parecia para ele o melhor emprego do mundo. E ele não conseguia esconder, trabalhava com uma alegria contagiante – e não sabia disso, mas talvez fosse o melhor dos funcionários daquela agência.

                “Boa noite, meu nome é Luís, em que posso ajudá-lo?”

Todas as conversas começavam do mesmo jeito. Já havia atendido pessoas que responderam-lhe berrando, algumas chorando inconsolavelmente, outras pareciam estar sob efeito de drogas. Havia também as quietas, que falavam pouco e falavam baixo. Eram as mais difíceis de lidar. Talvez a introspecção estivesse profundamente relacionada com a inconformidade. Nada, porém, deixava-o mais apreensivo do que ter apenas o silêncio como resposta. A pessoa do outro lado demorou no mínimo trinta segundos para começar a falar.

 

 

Em oposição ao texto recentemente postado aqui, esse é o escrito mais recente que gostei a ponto de querer mostrar. Foi escrito durante minha solitária – não tanto por opção quanto por circunstância – véspera do natal de 2013, como parte de uma meta de escrever algo todos os dias, que não consegui cumprir. Ainda assim, essa é uma história da qual já imagino o fim, então provavelmente será a primeira a ser concluída por aqui.

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