Escrito I – Parte 2

by F. Pergher

Parte 1 .

Me lembro bem de como tudo começou. Meu dia não tinha sido muito bom, eu estava voltando para casa. Logo cedo, a máquina de café não funcionou, tive que fazer meu café do jeito antigo. Ficou uma verdadeira porcaria porque eu não tenho a mínima noção sobre como fazer um café, e nem faria muito sentido, já que eu não suporto essa bebida. O único motivo para eu ter uma máquina de fazer café é que eu preciso, infelizmente, manter-me acordado durante o dia. Como não pude contar com o maldito licor do inferno para isso, resolvi apostar em um banho para desempenhar tal função. Ao entrar no chuveiro, constatei que minha cafeteira provavelmente estaria funcionando, e isso teria me deixado um pouco melhor, não fosse pela ducha de água fria como mármore me desejando um bom dia. A energia havia caído, provavelmente no condomínio inteiro. E já era a segunda vez na semana. Eu não poderia esperar nada melhor do que isso, morando sozinho e pagando menos de um salário de aluguel, ainda mais naquele inferninho que insistem chamar de cidade.

Cheguei no local de trabalho medíocre tendo calafrios provenientes da ducha gelada e da temperatura nada agradável de junho. Não lembro exatamente qual era meu emprego, poderia ser muito bem um escritório, ou uma agência de marketing qualquer, dessas que tem um time de drogados como “equipe criativa” e um gerente com fortes tendências homossexuais que costuma dar em cima de alguns dos seus funcionários. A verdade é que passei por tantos empregos diferentes nesse ponto da minha vida que, não fossem alguns documentos trabalhistas e o diabo a quatro atuando como provas concretas, a maioria deles pode muito bem ter ou não acontecido. Eu costumo ser intolerante com pessoas em geral, mas colegas de trabalho levianos tornam-se praticamente um zunido nos meus ouvidos, e por isso eu sempre terminava um dia de trabalho com nervos à flor da pele. Tenho pretensão genética à gastrite, de modo que ao chegar em casa eu mal conseguia comer, e minha fome convertia-se em insônia. O gosto horrível do café, amargo pois eu não tinha um centavo para gastar em açúcar, tornava-se o mais suportável dos problemas.

Ainda não tenho título pra maioria das coisas que escrevo. Pergunto-me inclusive até que ponto os títulos são tão necessários, apesar de ser o principal motivo pra ausência dele, minha falta de inspiração e/ou sagacidade para criar um. Por enquanto, vou continuar categorizando os escritos por número, e organizando nas tags. O que provavelmente não é uma boa ideia.

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