Atmosfera, estilo, pormenores.

by F. Pergher

                Emergia do chão uma esparsa névoa a cada batida da sola de sua bota. Havia deixado não fazia muito a estrada pavimentada, naquela noite cuja regência do signo de Libra indicava ser de outono, mas que ao frio seco e penetrante far-se-ia mais jus chamando hibernal.

                No mais, havia tempos não saía da cidade. A vegetação rasteira que já quase alcançava o meio do deserto caminho por vezes dava lugar a um ou dois pinheiros de médio porte, dos quais distinguia ele apenas as sombras. Por muito tempo não saíra da cidade, e seus sentidos ainda não apreciavam de bom grado a pálida claridade da lua, as pedras que, irregulares na estrada por vezes atrapalhavam seu percurso, as folhas de capim que eventualmente roçavam-lhe, sem ser sentidas, as grossas luvas de lã que cobriam suas mãos.

                Tampouco podia ele desdenhar o aroma agridoce, por vezes em demasiado forte, que penetrava-lhe as narinas. Em meio à urbanização, todos os seus sentidos pareciam entorpecidos, e ao voltar por aquela velha picada, praticamente inalcançável aos que não tinham conhecimento de causa, aquela mesma picada à qual jurara nunca mais voltar, todos eles aguçavam-se ao máximo. E no suave claro-escuro formado pela luz da lua, precisava de todos os sentidos quanto fossem possíveis para não pisar, desavisado, no local que almejava.

                As sombras das árvores foram aumentando de forma tão gradual que seus olhos foram praticamente insensíveis a tal aumento, e não fosse o odor ranço e ocre, mal saberia ele que havia chegado a seu destino. Parou sua caminhada lenta (embora ritmada) ao tropeçar numa ripa de madeira, já praticamente apodrecida. Provavelmente resto de alguma cruz de mausoléu de um humilde camponês.

                Sentou-se ao chão, sem cerimônia. Seus olhos já se adaptavam à escuridão, e, repousando no chão a grande algibeira de couro e o capote negro, os quais pesavam-lhe sobre os ombros, tornou a olhar o céu. Além da imponente balança, ele, iniciado secundariamente na astronomia, distinguia várias outras constelações, apesar das nuvens densas que se formavam por pequenas frações do céu autunal. Encontrara a Cruz do Sul, e moveu seus olhos lentamente àquela terra muitas vezes incendiada, mas da qual ainda emergia vida (modesta, é verdade, tanto quanto as gramíneas que se permitiam brotar), na direção apontada por Alfa Crucis, atingindo com o olhar o lugar onde encontrar-se-ia, anos antes, o portão.

                Havia ele mesmo selado o portão na última vez que saíra, mas tivera que olhar duas vezes, esfregando, na derradeira, seus olhos para certificar-se não estar sendo por sua visão traído. Não havia portão, apenas alguns resquícios do que antes fora uma baixa e mal estruturada mureta. A julgar por sua orientação através do celeste, adentrara o antigo cemitério sem perceber, o que significava que depois dele, havia alguém passado por lá. Procurou acalmar seus ânimos, que já se exaltavam na ausência das condições às quais deixara o local entregue anos antes. Certificou-se que estava no lugar certo quando olhou a seu redor.

                Via os dois grandes mausoléus de mármore, que ostentavam sozinhos a única grandeza daquele cemitério, um na forma de um anjo renascentista, outro -este já desfigurado – representava uma divindade pagã, metade homem, metade bode. Via também as dezenas de cruzes esculpidas em basalto, granito, ou mesmo pedras baratas de qualidade duvidosa, e algumas de madeira, entre essas quase todas estavam tortas. Seu assento tornava-se desconfortável, obrigando-o a levantar. O cheiro inconfundível de carniça agora fora substituído por um cheiro -em outras situações poderia ser dito até mesmo agradável – mais forte de lenha de acácia queimada. Ao caminhar na direção em que os dois mausoléus, diametralmente opostos, olhavam, sentia um inesperado calor erguendo-se de sob seus pés, e via, no centro do cemitério, algumas fulguras de brasa.

                Sim, inquestionavelmente haviam estado aí, e havia pouco tempo. Tornou a olhar para o céu, a lua quase atingia seu zênite, alinhando-se com o centro do cemitério, que, podia observar-se de certa distância e em um terreno um pouco mais elevado, dispunha de suas lápides em forma circular. Em pouco tempo, a carruagem de Ártemis alinhar-se-ia com aquele centro, portanto, não podia ele perder um só minuto. Quem quer que tivesse adentrado seus domínios, haveria de esperar.

                Sem mais delongas, apressara-se em começar aquilo que viera fazer, em primeiro lugar. Achara o lugar indicado ser o exato centro daquele terreno soturno por sua intuição, afastara algumas cinzas e brasas – podia jurá-las ainda mornas – e abria sua grande bolsa de couro. Tirou dela dois candelabros, algumas velas brancas de tamanhos sortidos,  fósforos, uma gema reluzente, um decrépito livro que já ameaçava formar fungos em sua lombada, e mais cinco ou seis pequenos amuletos, pouco diferentes entre si, e sem nenhuma característica marcante.

                O gélido vento da estepe soprou por dentre as parvas cruzes e escassas estátuas, dificultando a ignição do pavio das velas de cera, meio grosseiras devido à sua produção artesanal. Desistira de acendê-las durante a rajada, e dispôs os outros artefatos à sua frente: marcara, removendo a cinza, um círculo concêntrico ao raio do próprio cemitério, e mais ou menos a seu centro dispôs a lombada do livro, que folheou cuidadosamente até uma página próxima à metade. Como que à sua guarda, haviam os dois candelabros, um à sua mão esquerda e um à direita, e dispôs os amuletos em semi círculo, seguindo o contorno mais próximo a si da elipse antes traçada. Por último, colocou a alva e irregular gema à frente do livro, também seguindo o contorno do círculo.

                Dera o vento uma trégua, por ele bem aproveitada para acender as seis velas. Apoiou com facilidade três delas em cada candelabro, e estando todas acesas, olhou ainda uma vez para o céu. A lua aproximava-se de sua posição mais alta, onde a claridade dela atingiria em cheio  a instalação à sua frente. Como último preparativo, tirou de dentro de sua luva uma pequena bolsa de plástico, hermeticamente fechada, e despejou sobre os seis pequenos amuletos um líquido quase pastoso, que aos reflexos da lua, tingia-se de carmim. Divagou rapidamente sobre como o último passo, em tempos já remotos, possivelmente era o maior dos empecilhos em sua  arte, e em seguida pôs-se a observar a lua. Uma vez que seu ponto alto fosse atingido, haveria ele senão instantes para concretizar o ato.

                Pouco ocorreu durante seu curto tempo de espera. Ao resplandecer da gema, emitindo uma luminosidade que ele reconheceria instantaneamente sob quaisquer condições, tornou ele a recitar alguns versos incompreensíveis enquanto pousava a mão sobre seu livro. Já não havia mínima brisa no ar, e a noite, até então silenciosa, mantinha constante sua letargia. Salvo uma leve faísca – que talvez não passasse de ilusão de ótica – no mármore das estátuas que lhe faziam guarda, nada ocorreu. Tivera a certeza de recitar corretamente os cantos, e a lua havia recém saído do lugar onde deveria estar para o êxito.

                Perplexo com sua própria falha, pode-se dizer até mesmo incrédulo, não se movia. A noite que antes parecia sob hipnose, agora parecia totalmente morta. Não sucedera-se a conhecida movimentação do solo, a ascensão das massas disformes, e sua curta marcha buscando demonstrar-lhe solicitude. Pelo contrário, o ambiente silenciara mais ainda. Suava frio e sua visão enturvava-se, pensava que desmaiaria, tamanho seu assombro ao imaginar o que causara a falha. Foi posto em alerta pelo som de passos, passos que se aproximavam cada vez mais de seu corpo. Atônito, não conseguia juntar as forças para virar-se e olhar. Poderia ter sido uma emboscada?

                Pareceu-lhe que tornaria a desmaiar mais uma vez quando o som dos passos, tendo chegado suficientemente perto de seu corpo, cessara. Teve que concentrar todas as suas forças para manter-se são quando, como já esperava parte de seu ser, algo tocou-lhe o ombro. Não se sentia intimidado pela força ou ímpeto com que fora abordado. O que tirava-lhe a tranquilidade era a forma com que a gélida mão tocara-lhe o ombro. Sentia seu frio contato mesmo coberto por três camadas de vestimenta pesada, e ao contrário do que se esperaria de um inimigo encolerizado, aquela mão simplesmente repousava sobre seu ombro, sem fazer a mínima menção de apertá-lo. Mais antes que um toque hostil, sentia em si mesmo um toque agourento, fúnebre.

 

De tudo que tenho escrito (e que provavelmente colocarei aqui de forma gradual), uma coisa em comum é que nunca dei muito foco à ambiência e ao estilo de escrita dos textos. Me preocupo mais em colocar a ideia, em expressar ela eloquentemente do que com a poética do texto.

Em uma tentativa talvez frustrada de provar a mim mesmo que é uma questão de escolha consciente, e não de incapacidade, resolvi escrever algo que englobasse tanto ambiência (tá aí o motivo de ter colocado um texto tão grande inteiro) quanto um pensamento mais dedicado à forma da escrita. De qualquer jeito, acabei gostando da temática, e talvez venha a continuar.

Por fim, devo ressaltar, como uma possível desculpa para falhas de eloquência ou continuidade, que entre a hora que terminei de escrevê-lo e a hora em que coloquei no ar, não passaram-se dez minutos. Não sei de onde tirei esse lapso de confiança, pra nem ao menos revisar.

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