Escrito II – Parte 2

by F. Pergher

Parte 1 .

“Eu… quero mudar de ideia”

Há um certo tom de auto censura em praticamente todos os usuários desse serviço. É como se nenhum deles quisesse explicitar o que estava prestes a fazer. Frequentemente as ligações tornavam-se longas a ponto de serem exaustivas, e mesmo assim em nenhum momento era mencionado “suicídio”, ou equivalentes.

“Isso já é importante. Como você se chama? Ou melhor, não precisa dizer se não quiser.” – Ele procurava não demonstrar o desânimo que a voz de seu interlocutor projetara sobre seu espírito. Havia uma nota de melancolia em cada sílaba proferida através da linha.

“Tanto faz o meu nome. Tenho uma corda na mão. E um gancho no teto”

Desconcertara-se.  As conversas geralmente conversavam aos gritos, lamentos de almas em delírio, e sempre ditos em tom de ameaças; dificilmente concretizadas. Nunca, em sua memória, algum dos que ligaram bradando em desespero e ansiedade por acabar com sua vida havia de fato levado seu plano à execução. Contraintuitivamente, gritos desesperados transmitiam-lhe a segurança de que seriam apenas gritos. Uma vez acabados, tudo se resolveria.

Não havia grito nenhum dessa vez. Como esperado, a tranquilidade, pode-se dizer até mesmo lassitude de quem quer que estivesse conversando com ele, somada à segurança em sua voz, deixaram-no sem reação nenhuma. Indagava-se se aquela pessoa já não estaria sob efeito de algum tipo de calmante. Não tendo recebido resposta, a pessoa do outro lado da linha continuou falando.

“Não sei porque mantive, o gancho no teto. Tem no mínimo vinte anos que meu pai pendurou. Costumava ter um balanço nele.”

Ele teve certeza de que a pessoa havia ingerido sedativos. Já havia lidado com casos parecidos.  A menção de um familiar sempre servia para ganhar tempo.

“Vamos, pense no seu pai. O que ele deve estar fazendo agora?” – tentava demonstrar empolgação, tanta quanto era possível – “tenho certeza de que ele é um homem orgulhoso por ter você.”

“Meu pai já partiu. Eu estava ao lado dele.” – após uma curta pausa, na qual ele mal teve tempo de assimilar o que ouvira, a voz bucólica continuou, sem alterar-se – “Em suas últimas palavras, ele me mandou nunca parar nessa vida. E eu parei.”

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