Escrito I – Parte 3

by F. Pergher

Parte 1 . Parte 2 .

Eu não sei como aguentava trabalhar. Os meses que vivia às custas de seguro para desempregados ou favores de minha compreensiva família se tornavam verdadeiras férias, sem um pingo de preocupação com o que viria em seguida. Eu acho que pensava sobre eles enquanto voltava para casa. Acabei me distraindo e passando exatamente em um cruzamento perigoso. Minha barata moradia não ficava no lugar mais agradável da cidade, e eu sempre tomava cuidado para evitar lugares violentos. Nesse dia, eu acabei encurralado em um beco sem iluminação nenhuma. Eram duas figuras, um deles tinha meu porte físico, o outro era menor. Um levava uma barra de ferro na mão direita, o menor segurava uma faca com as duas mãos. Aparentava estar nervoso.

Aí a ficha caiu. Aquelas escórias estavam me assaltando. Depois de duchas frias, pilhas de relatórios e uma caminhada de dois quilômetros, eu iria ser assaltado. Faltando menos de um quarteirão para chegar em casa, eu estava sendo assaltado. “Vira de costas e põe as mãos  na parede, e é melhor não tentar nada”, falou o maior. Eu obedeci, e não pude deixar de soltar um riso baixo ao pensar na reação de ambos ao retirarem a carteira vazia do bolso traseiro da calça de brim extremamente surrada que eu usava. Infelizmente meu riso foi audível, e eu, virado de costas, ouvi passos pesados em minha direção. “Isso é pra aprender a não debochar de nós”, foi o que eu ouvi enquanto a barra de ferro cumprimentava minha escápula. Apertei os dentes com força, me esforçando para não me precipitar contra eles. Fechei meus olhos por um segundo, em seguida abrindo-os, pois se eu dispensasse minha visão, meu foco na dor estaria maior. Aquelas aulas de yoga que eu fiz por indicação médica, para combater inutilmente a gastrite, acabaram sendo um pouco úteis. Ao abrir os olhos, percebi uma dessas pichações amadoras na parede, um taco de baseball. Ouvi a barra de ferro ser solta no chão, e em seguida, um estalo metálico um pouco mais leve, provavelmente da faca. Ouvi o zíper de minha carteira abrir. Eu já tinha algo em mente, mas não sabia exatamente o que.

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