Possível ausência, teste de paciência e uma tentativa pífia.

by F. Pergher

– Eu não queria assustar vocês, mas eu tenho controle.

Não foi uma ideia muito boa, falar isso enquanto jogávamos videogame na casa de um dos meus novos colegas. Eu tinha recém mudado de escola, e as coisas pareciam estar indo bem. Como sempre costumava ser, nas primeiras duas semanas.

Depois desandava. Era sempre assim, eu nem me importava mais. Não muito. Eles pareceram não ter se importado com minha confissão, e eu confesso também que não me importaria se ninguém tivesse se importado com isso. Eu só precisava contar a eles, descarrego de consciência. Minha consciência não se responsabilizava caso eles não ouvissem, eu tinha dito, de qualquer jeito.

Mas em qualquer situação social, tem aquela pessoa que quer saber das coisas. E nesse caso, era a menina loira que usava um sutiã maior que o necessário. Não que eu fizesse o tipo pervertido, mas eu convivia com moças mais velhas, e posso dizer que sei quando um sutiã é e quando não é necessário. Sempre fui do tipo quieto e pensativo, porém, nada do que eu penso durante o dia é de alguma forma construtivo. A começar pela relevância da presença de lingerie no corpo feminino.

-Mas nem é sua vez de jogar! A menos que você esteja falando de algum outro tipo de controle.

Eu odiava quando faziam isso. Não que eu não gostasse de conversar, mas eu odiava responder perguntas ambíguas e insinuações. Outra coisa que eu não conseguia evitar era ficar nervoso quando era o centro das atenções. Eu já devia estar acostumado, era relativamente atraente dentro da maioria dos círculos sociais, e se bem me lembro, a esse ponto da minha vida já tinha noção de que a reticência deixa as pessoas interessadas em você. Por isso não precisava me importar em puxar conversa com ninguém, a conversa vinha até mim. Eu realmente não tinha do que reclamar.

Em algum ponto da minha vida, eu achei que seria bom, construtivo ou qualquer coisa do gênero escrever alguma coisa que chegasse “mais perto de casa”, digamos assim. Algo que tivesse mais ou menos equilibrado com minhas experiências. Ao mesmo tempo, tentei desenvolver um personagem que fosse o tipo de pessoa exatamente oposta a quem eu gostaria de ter como amigo. Acabei gostando da ideia, e talvez continue essa história. Talvez.

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