Escrito II – Parte 3

by F. Pergher

Parte 1 . Parte 2

Pensava agora em seu próprio pai, buscando inspiração para confortar a pessoa do outro lado. Já não mantinha mais um sorriso no rosto.

“Mas você pode voltar a andar. De qualquer lugar onde seu pai estiver agora, ele olha por você.”

“Ele não está. Não era um homem religioso.”

“E quanto a você? Talvez alimentando sua espiritualidade você encontre um caminho”

“Não faço questão.”

Já estava perdendo seu bom humor. Imaginava como seria a pessoa do outro lado da linha. Possivelmente alguém alto, a julgar pelo timbre de sua voz, e que andava curvado à frente, como é típico de pessoas altas, e também um sintoma de desânimo. Teria ele olhos pretos? Profundos? Não se permitiu divagar mais, sabia que seu interlocutor esperava uma resposta. Resolveu mudar de estratégia.

“Por que você chegou a esse ponto?” – Não gostava de fazer essa pergunta, temia as possíveis reações, talvez até colapsos emocionais momentâneos, das pessoas. A esse ponto, porém, já estava a preferir um colapso emocional à ausência de reação. Diferentemente do esperado, a resposta veio quase de prontidão.

“Eu quero mudar. Quero, como dizem… fazer a diferença. Mas já é impossível. Nada do que eu fizer nesse mundo vai afetar alguém. Para melhor. Afeto, porém, a vida de todos para pior. E me sinto culpado. Sei que nada do que eu fizer vai ser digno de louros.”

Não sabia o que responder. Nunca alguém o pegara desprevenido, e apesar de ter algumas falácias a seu favor, que normalmente davam certo, julgava-as inúteis contra aquele adversário. Adversário, pois para ele, já eram os dois rivais, e a ideia de vencer seu interlocutor acendeu-lhe novos ânimos para continuar a discussão.

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