Escrito I – Parte 4

by F. Pergher

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Com certeza eles não me matariam ou deixariam inconsciente. Esses trombadinhas assaltam você e depois levam você até a agência bancária para retirar seu dinheiro. É o que restou no advento dos cartões de crédito. Ninguém iria me matar pois sem mim, meu cartão não teria serventia nenhuma. Eu estaria protegido contra golpes mais fortes. Não por muito tempo, porque obviamente, morando num ninho de ratos e sem dinheiro para comprar açúcar, eu não tinha cartão de crédito. Teria que agir rápido. Aproximei minha mão direita da esquerda, procurando um impulso maior para pular na direção deles, e quando por ironia do destino ou coincidência coloquei minha mão sobre a pintura, senti como se tivesse enfiado-a em uma gaveta vazia. Por mais estúpido que parecesse colocar uma gaveta em um muro, e essa ideia soava mais estúpida ainda por eu não ter aberto nenhuma gaveta, ou sequer visto uma dessas, minha mão estava solta em um compartimento que parecia bastante espaçoso. E meu equilíbrio, que era bem necessário para a manobra que eu tentaria, como último recurso para evitar o assalto – inútil, pois não tinha nada comigo – e voltar logo para minha casa, havia desaparecido totalmente. Buscando me segurar, agarrei o que quer que fosse, e quando dei por mim, tinha um taco de baseball nas mãos. Nem precisei pensar duas vezes.

O que eu via à minha frente não era o crânio ou orelhas de arruaceiros ou pseudo gangsters. Eu via uma ducha de água fria, um gerente gay, uma xícara de café, imagens de minha última endoscopia, entre outras. Eu posso jurar que a última tacada não foi na orelha esquerda do baixinho, mas sim na terceira úlcera do meu estômago. Aquela que atrapalhava meu sono, a única não cicatrizada até então. Quando os dois estavam desacordados, o bastão se desmaterializou. Eu saí andando normalmente, aquela rua era bem vazia, de qualquer jeito. Entrei na minha casa me sentindo um novo homem, ou um novo projeto de homem. Acho que a última vez que havia me sentido feliz assim fora em meu aniversário de cinco anos, comendo docinhos insossos e torta de chocolate.

Não tardou para que eu começasse a repassar os acontecimentos em minha mente, intrigado com a projeção daquele objeto. Com certeza não fora uma alucinação, eu ouvi a cartilagem da orelha do grandão quebrando, e o som era muito real. Tentei estupidamente, resultado da minha euforia misturada ao estresse acumulado de meses, desenhar um taco de beisebol no chão do apartamento e fazer aquilo de novo, seja lá o que aquilo fosse. Novamente fui tomado por um êxtase quase infantil quando, contrariando todas as expectativas, aquilo deu certo. Eu estava com um taco na mão, que se desfez logo depois de eu golpear a estante com ele. Não pude dizer o mesmo da rachadura que ficou em uma das prateleiras, mas isso não importava agora. Experimentei mais algumas coisas durante algum tempo, combinando um pingo de criatividade com o pouco de talento artístico que eu tinha, e minha única distração foi o sol nascente.

Preparei uma modesta refeição, certo de que dessa vez não vomitaria. De repente minha gastrite não iria incomodar mais. Como já disse, eu estava extasiado. Comi o pouco de cereal que ainda tinha na geladeira, fazia meses que eu não repunha o estoque, afinal, não conseguia comer cereais açucarados. Incrivelmente uma tigela daqueles flocos de cereal puros, sem nem um pingo do leite mais azedo, porque nem leite azedo eu tinha, tornou-se a refeição mais marcante da minha vida. Deitei na cama, e acordei perto do meio dia. Eu pretendia ser demitido do meu trabalho, então pouco me importava o fato de não ter comparecido.

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