Escrito I – Parte 5

by F. Pergher

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Logo após levantar, fui até o telefone e providenciei três coisas: uma vaga em um curso pré-vestibular desses oferecidos para pessoas que estão definitivamente ferradas e cuja única esperança, mesmo que não concretizada é um diploma; um almoço de fast-food com entrega a domicílio, porque eu estava com fome; e um horário com um psicólogo ao final da mesma tarde. Só para garantir.


Conheci Hermes não muito depois de minha vida começar a entrar nos eixos. No segundo dia do que eu chamaria de “nova fase”, aliás, logo no início do segundo dia. Depois de me empanturrar de comida como há muito tempo não conseguia, concordar com um dos gerentes – o menos afeminado deles, e o único cuja presença não cutucava minhas úlceras – em deixar o emprego e ouvir de um psicólogo que eu precisava relaxar. Aquele dia foi bem relaxante para mim, na verdade. Infelizmente, eu não pude contar tudo a ele, e garanto que ele nem acreditaria se soubesse. Contei de meu estresse acumulado, da situação de minha curta e inútil carreira, da situação da minha longa e inútil vida.

Eu acordei ainda com fiapos de frango e pedaços de marshmallow enfiados no meio dos meus dentes. Como eu quase não comia, não tinha escova de dentes em casa. Quero dizer, uma dessas custava o mesmo que um pote de café em pó. Ou eu limpava minha boca por um mês, ou eu sustentava minha dieta por um mês. Ao acordar, imaginei que meu dia seria ruim logo de cara, pois eram seis e meia da manhã, o sol mal nascia, e a campainha estava tocando. Sim, estava tocando. É estranho que a campainha toque, sendo que moro sozinho em um lugar neutro demais até mesmo para ser identificado, mas dessa vez, ela não apenas havia tocado. Ela continuava a tocar, aquelas notas estúpidas. Provavelmente quem inventou o som de uma campainha tinha um péssimo ouvido, ou um senso de humor sádico e pretensioso.

Pensei de antemão que fosse algum hipster bêbado, um entregador da agência de correios que errou de edifício ou uma dessas testemunhas de Jeová que aparentemente têm uma meta diária de conversões para cumprir. Ainda assim, eu estava de bom humor, então fui em direção ao interfone para responder à sinfonia incessante da campainha. Mantive meu bom humor mesmo após ver que o interfone não funcionava. Eu não recebia visitas, então era apenas um detalhe, esse. Desci pelos corredores do edifício, e quando cheguei à porta, meu rosto era castigado por câimbras de tanto suster um sorriso simpático. Abri a porta.

Mais estranho do que o toque da campainha era o praticante de tal ação. Aquela figura alta, descabelada, vestida com um boné de posto de gasolina formando um par exótico com a camisa de flanela xadrez que encobria parte de sua calça social surrada, impunha-se à minha frente. Ele carregava uma bolsa tranversal que parecia pesada demais para sua estrutura, mas não parecia incomodado com isso, e quando abriu a boca para falar, comprovou ser a perfeita personificação de uma simbiose entre meus três palpites sobre quem batia à porta. “Rapaz, eles estão chegando, melhor você se preparar”, foi o que ele disse. Despachei educadamente o profeta do apocalipse fechando a porta em sua cara. Mal virei-me em direção ao corredor, e a campainha tocou mais uma vez. Decidi ouvir o que ele tinha a dizer, afinal, eu estava de bom humor.

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