Escrito II – Parte 5 (final)

by F. Pergher

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Sua voz fraquejou.

“Mas se sua felicidade não lhe satisfaz, então você passará sua vida a se lamentar. E de que vale sua vida, se for cheia de pensamentos lúgubres?”

“De nada me vale uma vida infeliz, e é por isso que pensei em acabar com ela. Queria mudar de opinião, mas pelo visto não é você quem vai me ajudar com isso. Muito obrigado pela ajuda e…”

Não deixou-o terminar a frase. Apertou um dos botões de seu telefone, mas, atônito, continuava na escuta. Ouvia a mensagem automática: “Estamos tendo dificuldade em processar sua ligação, por favor tente novamente mais tarde ou entre em contato com o hospital…” Largou o fone de ouvidos em cima da mesa e dirigiu-se à copa. Ele tremia, apesar de estar espiritualmente tranquilo.

Afinal, mesmo não cumprindo sua meta pessoal de “salvar” todos que aparecessem em seu caminho, ele não se sentia mal, como normalmente aconteceria. O homem tinha bons argumentos, talvez devesse mesmo acabar com a própria vida. A satisfação daquela pessoa não traria nenhuma mudança, em termos práticos, ao mundo. Um lampejo de ideia de repente cruzou sua mente. Atormentara-se pelo pensamento de que sua felicidade mundana também em nada afetaria a humanidade.

Talvez o homem estivesse certo em suicidar-se. Talvez se certa parcela da humanidade pensasse como ele, ao invés de apegar-se à felicidade conquistada de modo ilícito, o mundo mudasse. Talvez as alegrias fúteis deveriam mesmo ser desconsideradas, e não almejadas durante vidas inteiras. E tendo em vista que seu ânimo de realizar sua tarefa com tanto empenho vinha também de sua alegria mundana, chegara àquela importante conclusão.

Talvez também ele, Luís, devesse morrer.

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