Porque não se deve postar coisas velhas, ou intimismo inconsequente.

by F. Pergher

Eu não entendia como ou por que. Não fazia a mínima ideia sobre o motivo de estar passando por isso agora. Dormira por vários dias com essa preocupação assolando minha mente, inserindo-se em todos os meus pensamentos como o som de uma corda de piano arrebentando durante uma sinfonia, porém, de modo contínuo. Por que comigo? Por que agora? Como pôde acontecer? Eu parecia estar passando por um turbilhão, avaliando pelo meu estado mental.

Sentia algo estranho em mim, como se eu estivesse em um avião durante a decolagem, porém, amarrado da cabeça aos pés, e com uma venda nos olhos. Em certo momento, sem qualquer aviso ou prenúncio, eu simplesmente me desprendi. Desprender-me não expressa corretamente, eu fui arrancado. Arrancado do avião, arrancado das amarras, arrancaram-me a venda dos olhos. Eu agora estava em um lugar totalmente desconhecido, nem um pouco familiar a mim, mas que ainda assim, passava-me um forte sentimento de acolhida e segurança.

Me recompus instantaneamente. Parecia estar recém acordando de um sono de muitas horas. Minha mente foi ativando-se peça por peça. Primeiro, minha visão desembaçou. Passei a ouvir os sons do ambiente -ruídos da natureza, grilos, sapos de brejo, folhas ruflando ao vento – com mais clareza, e logo conseguia me mover livremente. Ao menos na teoria.

Na prática, eu não podia me mover. Comecei a indagar-me, conforme meus sentidos motores e sensos de percepção seguiram a ordem do corpo e despertaram, de onde vinha a sensação de segurança naquelas condições. Eu me encontrava em um abismo. Mais precisamente, no meio de um abismo. Havia uma pequena ilha, seu raio não era maior do que meu corpo deitado, cercada por um abismo maior do que o mais majestoso dos edifícios ou montanhas que eu havia visto em vida, e eu não sabia dizer se a ilha flutuava ou se estava presa ao solo. Da outra beira do abismo, eu via aquilo que por toda a vida fora ensinado a temer, aliás, que todos nós fomos ensinados a temer: o mal.

Talvez seja uma construção de minha mente, mas o que se aproximava de mim não era a pura essência do mal, o que eu via eram simplesmente vultos. Vultos de contorno arroxeado, em forma de pessoas -algumas delas extremamente familiares, e extremamente próximas de mim em vida – que emanavam uma aura pestilenta. Eu os via jogando-se em minha direção, só para cair no abismo em seguida, emitindo gritos que soavam cômicos a meus ouvidos.

Forcei-me a rir, afastando por um momento minhas dúvidas, pois as criaturas malignas atiravam-se inutilmente contra mim. Kamikazes, emissários da própria desgraça, suicidas tolos, que mesmo sabendo não serem capazes de saltar tanto quanto era a distância entre eles e mim, continuavam a fazê-lo, e ao cair, gritavam como se tivessem sofrido uma tragédia. Mantive-me assim por um momento, as palavras do pai que não tive oportunidade de conviver por muito tempo, ecoavam em minha mente. Uma das coisas que sempre lembrarei : “Incondicionalmente, nada do que é maligno sobrepõe-se a bons atos”., e devo confessar que me sentia bem naquela posição.

O simples pensamento de que todas aquelas pessoas desperdiçavam suas vidas para tentar inutilmente destruir a mim me lisonjeava. Eu era, afinal de contas, uma peça importante na existência patética deles. Tanto que dispunham-se a abdicar de sua dádiva maior apenas pela oportunidade de roubar a minha existência mundana, que por si só não passa de um grão de areia.

Meu riso, porém, logo transformou-se em medo. Algo que foge à minha lembrança fez-me ver, em um lampejo, que aquelas criaturas de fato poderiam prejudicar-me se chegassem até mim. E talvez até mesmo de forma irreversível. Vi acender-se então o estopim de meu temor maior: a pilha de vultos jogados no abismo quase chegava ao nível do solo. Todas aquelas malditas almas sombrias juntavam-se numa massa disforme que logo daria passagem para as que restavam do outro lado. Aqueles malditos espíritos agourentos construíam uma ponte para os sobreviventes.

Eu sentia a angústia, o pânico, se acumulando em forma de algo abaixo de minha garganta. Pensava no fim, pensava em como seria minha morte. Meu pai, no fim das contas, estava enganado. Talvez o mal possa, afinal, prejudicar-me. Com aquilo sufocando-me cada vez mais, gritei. Para meu alívio, nenhum som saiu de minha garganta. Era um sonho. Independentemente de crenças populares, você não pode morrer em um sonho.

Havia percebido estar em um sonho, porém, não perdi o controle dessa vez. Normalmente eu acordaria quando percebesse estar nesse ambiente onírico. Dessa vez eu não conseguia acordar, e mesmo que conseguisse, não queria. Queria ver onde isso iria chegar. Ao mesmo tempo que me assombrava, o medo do desconhecido atiçava minha curiosidade. Logo percebi que não controlava mais meu corpo. Assistia a meu próprio fim como um espectador em primeira pessoa, impotente e condenado.

Foi então que ele apareceu.

Eu via, surgindo por detrás de minhas costas, a figura jovial e imponente de meu pai. Ele estava só, envolto por uma reluzente aura dourada. Todo ele parecia feito de ouro puro, na verdade, e conforme eu o via passar, eu via que todo aquele lugar transformava-se. As criaturas sombrias agora pareciam distantes, apesar de estarem no mesmo lugar que estavam anteriormente, e o abismo entre a minha ilhota e elas estava aumentando cada vez mais. Meu pai parou em pé a meu lado. A ilha começou a expandir-se, árvores cresciam do chão, e eu percebi estar em um lugar para o qual eu nunca quis ir, e esperava nunca mais voltar. A antiga propriedade de meu pai, em um lugar isolado da urbanização. Propriedade que havia pertencido à família desde a chegada de meus bisavós. Eu senti, naquela hora, que meu pai tinha tal lugar como sua zona de poder. Enquanto aí estivesse, ninguém poderia atingir ele ou qualquer coisa que estivesse sob sua guarda. Eu via naquele lugar, minha casa. A mesma casa onde morei desde que tenho consciência de minha existência, também esta era sua zona de poder. O carro em que ele fazia suas viagens a trabalho, inteiro como eu o vira antes da última viagem, não destruído como ficara depois do acidente. O escritório da companhia, minha mãe e minha irmã, três de seus irmãos, os mais próximos, e que ele sentia nunca terem abandonado-o. Todos estávamos em sua zona de poder. Instantaneamente, minhas dúvidas foram saciadas. Eu não revoltava-me sobre os motivos do acontecimento. Eu aceitava. Percebi também que não era um sonho, mas sim uma viagem aos domínios instáveis. Chamou-me a atenção, meu pai, que tanto viajou em sua vida, escolhera justo a casa de nossa família, a terra de nossa família, para ter como sua zona de poder. Subitamente, uma sensação de segurança extrema tomou conta de mim. Parecia que nada poderia me atingir, e eu tinha certeza: nada me atingiria.

Mas as criaturas das trevas ainda estavam aí. Por todos os lados, e provavelmente haviam mais delas aí do que qualquer coisa que eu havia visto e provavelmente verei durante minha vida. E foi então que iniciou-se o espetáculo mais marcante que verei durante minha vida. Um espetáculo que garanto sem exageros que qualquer um que pudesse tê-lo visto atestaria a meu favor quanto a sua grandiosidade.

A figura de meu pai, que antes assumira o mesmo tamanho que tinha em vida, começou a crescer. A figura dourada, resplandecente, ficava cada vez maior, e à sua frente, formava-se um domo de energia ainda maior. Todas as criaturas eram incorporadas ao domo, convertendo-se em energia luminosa. Cada uma daquelas que se atirava, tentando inutilmente quebrar a resistência do escudo, contribuía para seu crescimento. Novamente eu estava em posição de gargalhar, mais do que nunca seus esforços eram inúteis.

Quando a última das criaturas foi absorvida e convertida em luz, eu acredito que o grande domo de vidro já envolvia toda a circunferência do planeta. Então, ela simplesmente se desfez em uma aurora. Haviam tantas cores, brilhos, e texturas diferentes naquela luz, que qualquer tentativa de descrevê-la seria quase que um insulto, pois palavra nenhuma fará jus àquela visão onírica e tudo que ela representava. Meu pai novamente tomou as medidas de seu corpo enquanto vivo. Estávamos novamente eu e ele, na ilha ao redor do abismo.

Por experiências anteriores, eu já sabia que qualquer tipo de bajulação, cortesia, formalidade, demonstração de afeto ou remorso, súplica ou mesmo consolo, seriam inúteis. Eu agora encarava-o frente a frente, ele estava igual a como era antes de partir. Sentia ainda que ele irradiava energia. O olhar em seu rosto me fez ter certeza de que ele sabia que eu entendia perfeitamente o que acontecera, o lugar onde estávamos, e como eu havia chegado até aí. De fato, eu compreendia. Mas ainda restava-me uma dúvida, e eu pretendia saciá-la. “Por que me trouxe até aqui? O que veio me falar?” eu perguntei – ou melhor, assisti a mim mesmo perguntar-, com a voz trêmula devido à descarga de adrenalina e ao frenesi de emoções que eu vivenciara havia menos de cinco minutos.

Sua resposta foi mais simples e direta do que qualquer expectativa: “Quando for trocar a lâmpada da cozinha, segure dos dois lados. Ela sai mais fácil.”

Em poucos segundos, eu estava novamente sozinho no abismo. Sozinho em presença, mas sabendo estar sempre acompanhado em meu interior, justamente pela frase que me foi dita por ele. Logo, todo o abismo havia sumido. Fora trocado por minha cama, os quadros na parede ao lado, a escrivaninha, a janela do quarto. Eu acabara de acordar.

Ainda digerindo o que havia presenciado, fui até a cozinha beliscar algo para comer. Eu costumo acordar faminto, principalmente após cochilos vespertinos. Olhei orgulhosamente para a lâmpada da cozinha. Era uma daquelas lâmpadas fluorescentes compridas, cujo reator tem um sistema de soquetes que torna sua retirada um tanto imprática, ainda mais equilibrando-se em uma escada. Eu havia trocado-a poucas horas antes.

 

 

Decidi estabelecer duas metas sobre esse blog: a primeira delas é que toda a sexta feira vou escrever/postar alguma coisa. A segunda é que só vou postar tanto quanto eu escrever no dia. Isso é para evitar minha própria procrastinação enquanto posto textos já escritos.

E falando em textos já escritos, esse aqui foi feito/criado/cuspido lá pelo finzinho de 2012, desde lá eu tenho escrito e lido muitas coisas mais, provavelmente ele não está do jeito que eu gostaria. Pensei em não revisar, porque se eu revisasse, ele perderia o aspecto emocional, que reflete como eu me sentia na época. Por outro lado, estou postando ele agora, então acharia justo revisar, para, no mínimo, deixá-lo apresentável. Nenhuma das duas opções parece servir totalmente. Eis aqui o porque não se deve postar coisas velhas.

Por fim, acabei decidindo não revisar. Alguém disse-me que estava bom o suficiente assim, isso basta.

***Nota para a posterioridade: Apesar de ter postado um texto antigo, hoje eu escrevi. E essa é a parte do intimismo inconsequente.

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