Escrito I – Parte 6

by F. Pergher

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Chamei ele para entrar e puxei uma cadeira. Ele sentou-se, “tem um copo de água, cara? eu vim caminhando até aqui”. Compadeci-me dele e dei o copo de água. Nesse momento entendi que seja lá o que fosse que aquele peculiar habitante do esgoto urbano tivesse a me dizer, eu deveria ouvir. Afinal, ninguém se importaria comigo a ponto de bater na minha porta em plena quinta-feira de manhã, às seis horas e trinta minutos se não tivesse um bom motivo para isso. Ele bebeu a água praticamente num gole só, colocou delicadamente o copo vazio sobre a mesa e tomou fôlego: “não pergunte porque, mas acho que tu vai ser visitado antes do final do dia, e acho que essa visita não vai te agradar nem um pouco”.

Era só o que me faltava, o profeta do apocalipse agora estava rogando uma praga em mim. Respirei fundo e perguntei, com tamanha paz de espírito que faria qualquer mestre budista sentir-se o mais perverso dos pecadores, como ele sabia disso. A resposta, confesso, deixou-me finalmente interessado naquele rapaz: “seguinte, eu tenho um rádio pirata, e consigo captar certas frequências” – ele enfatizou a palavra “certas” de uma maneira que causou-me arrepios – “e hoje pela manhã, ouvi no rádio da polícia que havia uma suspeita de criminoso nesse endereço”. Devo dizer que quase nunca me interesso por alguém, mas quando uma pessoa faz-me prestar atenção em suas palavras, eu procuro entender totalmente tais palavras. Perguntei a ele onde eu entrava na história, e a resposta deixou-me ainda mais intrigado sobre ele: “se algum dos meus vizinhos receber esse tipo de visita, eu corro risco de ser revistado, e aí os pés de porco contariam certamente duas prisões e uma apreensão digna de manchetes. Agora vou saindo antes que eles cheguem.”

Levei-o à porta, e com certeza aquele jovem ou era clarividente, ou tinha um amuleto forte, pois menos de cinco minutos depois de minha porta ser trancada por dentro, a campainha tocou mais uma vez. Corri para atender, e me esperavam dois policiais do lado de fora. “Bom dia, senhor, consta em uma ocorrência que você agrediu dois jovens na noite de terça. Gostaríamos que você viesse conosco até a delegacia”. Eu não tinha nada muito melhor para fazer, então concordei, e eles não me algemaram. Meu humor estava mudando, eu já não via vantagem nenhuma em manter um sorriso no rosto, ainda mais sob tais circunstâncias. Eu estava andando em uma viatura semi blindada e provavelmente seria a última vez em muito tempo que veria a cidade de dentro de um carro.

Eu fui imprudente, espanquei dois trombadinhas que provavelmente sabiam quem eu era. A polícia não é tão eficiente em questão de rastreamento, logo, eles deveriam saber sobre mim. Àquele ponto os policiais deviam ter ouvido a versão dos dois rapazes, que dificilmente diriam que estavam me assaltando quando foram atacados, eu passaria algumas noites na cadeia e depois seria caçado por aqueles malditos, quando saísse de lá. Era o fim de minha vida nova, que mal tinha começado.

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