Escrito III – Parte 2

by F. Pergher

Parte 1 .

– Esquece, eu estava pensando em outra coisa, não sei porque falei aquilo.

Odiava forçar sorrisos também, mas era a melhor escolha no momento. Eu me levantei e fui até a cozinha, tentando convencer a mim mesmo que eu queria beber água, e não me afastar daquela aglomeração. Eram seis pessoas incluindo eu; quatro meninos e duas meninas, como era de se esperar quando o assunto fosse videogame. Em todas as escolas, o estereótipo era o mesmo: meninas com suas futilidades aleatórias, e meninos com imaturidades aleatórias.

Enchi o copo de água, e tomei num gole só. A temperatura estava bem amena, então eu não estava suando frio. Fiquei feliz por isso quando senti a aproximação de alguém. Não precisei nem olhar para saber, era a menina do sutiã desproporcional. Nem precisei de percepção extrassensorial.

– Tá tudo bem contigo?

Eu já tinha visto essa cena antes. Ela parou do lado da fruteira. Tinha bananas na fruteira. Bananas me davam alergia. Eu fui na direção dela, relutante.

– Eu só estava com sede, mas já resolvi isso.

Por sorte, ela estava perto da cuba da pia. Era mais fácil ter uma desculpa pra me aproximar dela desse jeito. Eu coloquei o copo lá dentro, e parei. Minha perna esquerda ameaçava uma câimbra. Duas coisas que, sem bananas na dieta, devem lhe preocupar são câimbras e anemia. Eu tinha câimbras frequentemente.

– Hum, tem certeza que era só isso? Que papo foi aquele do controle?

Fui privado de várias coisas na minha infância, e uma delas foi o convívio social com pessoas da minha faixa etária. Isso e alguns outros fatores me forçaram uma certa maturidade desproporcional à minha idade física, e eu sabia reconhecer uma pessoa madura quando via uma. Aquela menina não era simplesmente curiosa.

– Se eu contar, você vai ficar muito surpresa, ou não vai acreditar.

Eu já não sabia o que era nervosismo em mim, e o que era pura manha. Eu tinha noção que certas coisas em mim chamavam atenção, e procurava exagerá-las ao máximo. Não é fácil, mas funciona. Timidez era uma delas.

– Bom, eu também sei de uma coisa que vai te deixar surpreso ou incrédulo…

Aí ela me beijou. Eu estava incrédulo, mas não necessariamente surpreso. Ela havia me seguido até aí, só podia terminar nisso. Eu passei meu braço por suas costas, e afaguei seu cabelo. Logo as visões começariam. Era sempre assim. Eu esperava mais de um beijo. Quero dizer, todo mundo age como se fosse algo incrível, mas foi mais ou menos normal. Não muito diferente de uma montanha russa daquelas sem sal. Mas dessa vez, as alucinações envolviam ela, e não alguém aleatório do meu círculo social. Nesse ponto, eu ainda não sabia qual era o ritmo delas. Eu só sabia que em questão de segundos estaria desmaiado. Instintivamente, procurei me agarrar a alguma coisa que estivesse ao meu alcance, para não perder o contato com a realidade. Por uma – feliz ou não – coincidência, esse algo era o quadril da menina. A alucinação finalmente cessou quando senti a pele lisa e fria do rosto dela esfregar-se no meu, e ela falando no meu ouvido.

– Quer continuar isso lá em cima?

A voz dela não dava muito sinal de interesse. Eu ainda costumava ser inconveniente, não sabia ler as pessoas pelas entrelinhas, mas ainda assim, percebi que o tom de voz dela não tinha um pingo de empolgação. Me recuperando de um quase-desmaio (era assim que eu os chamava), com ela agarrada em mim, e minha perna esquerda dando indícios de que uma dor aguda estava por vir, eu não consegui pensar em uma resposta muito boa.

– Acho que… ainda é muito cedo.

Blargh, historinhas de adolescente (disse o ancião, do alto de seus séculos de experiência) . Chatinhas, mas parecia uma boa ideia na hora. É isso que tenho escrito dessa história por enquanto, mas pretendo ir até o fim. Já comecei, não custa terminar. Só espero não demorar muito no processo.

E hoje é sexta, e escrevi, e estou postando, regularidade atingida, ou quase isso.

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