Escrito I – Parte 7

by F. Pergher

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A viagem até a delegacia foi mais curta do que pareceu que seria de início. Havia um posto policial a menos de cinco quilômetros da minha casa, onde fui buscado. Eu já fantasiava sobre como seriam minhas noites e dias na cadeia. Para falar a verdade, eu nada sabia sobre a cadeia, exceto o que via em filmes que costumava assistir quando mais novo. Celas superlotadas, comidas sempre iguais, banhos de sol, hostilidade, corrupção. Perguntava-me quanto tempo aguentaria lá dentro sem ter um colapso nervoso, se conseguiria fugir e como seria minha vida de fora da lei quando o carro parou. O posto policial ficava em frente a uma praça, dessas bem pequenas com sete ou oito árvores, um parque para crianças de pais pobres ou sem criatividade, e vários bancos. Em um deles, havia um cara usando um computador portátil.

Indicaram-me a sala do delegado e eu tive que ir até lá sozinho, porque estavam em falta de contingente, e os policiais do carro tinham outra ronda estúpida para fazer. Provavelmente até a cafeteria, ou até um bordel qualquer. Pensando bem, não havia bordel nenhum aberto a essa hora da manhã. Eu já sabia que a polícia não funciona nem com a metade da eficiência pretendida. Quando cheguei à sala do delegado, porém, algo me deu certeza absoluta disso. Eu sentei à frente dele, já sentindo minhas úlceras incomodando novamente, e então surgiu um lampejo de esperança. Ele perguntou o que me trazia até ali.

“Eu vim preencher um boletim de ocorrência”, eu falei, sem muita convicção porém sem relutar. Ele agiu com naturalidade perante isso, eu esperava que pelo menos ele soubesse que o acusado era eu, e começou a me perguntar os detalhes do crime. Contei toda a verdade, exceto a parte que me envolvia. Disse que fui abordado, disse que tiraram minha carteira, disse que fui agredido com uma barra de ferro. Não sei de onde, uma ideia me surgiu à mente. Não tendo muito tempo para pensar, eu fingi estar nervoso demais para falar, e reclamei de dor de estômago, que não deixava de ser verdade, e minha palidez (eu não tive tempo de tomar café da manhã) atestava. Provavelmente muitos que depunham aí ficavam nervosos. Enquanto sorvia lentamente goles da água que me foi servida, pensava em como me livrar da culpa.

Ao final do copo, eu já sabia. Disse a ele que os dois meliantes tiraram minha carteira em busca de dinheiro, depois o baixinho me agrediu, e depois começaram a discutir entre si, enquanto o maior deles dava socos no baixinho, este revidava com golpes desferidos pela barra de ferro. Eles então levaram minha carteira e fugiram, deixando uma faca para trás. Eu não sei se minha memória subconsciente funciona melhor do que o esperado, ou se foi pura sorte, mas eu nunca tinha retomado minha carteira, e a faca realmente estava na cena do crime, como constatei mais tarde. O delegado mandou-me esperar na antessala pois haviam dois homens num hospital próximo que encaixavam na descrição que eu tinha fornecido. O que ele disse em seguida quase me fez cair na risada aí mesmo: “um deles possui fraturas cranianas múltiplas, e o outro teve que amputar uma parte da orelha”.

 

 

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