Escrito I – Parte 8

by F. Pergher

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Parte 7

Depois de uma meia hora na antessala, chegaram quatro figuras lá dentro. Os dois homens, um policial, e aquele cara estranho que havia batido à minha porta pela manhã. Ao me ver, o cara mais alto avançou em minha direção, sendo rapidamente contido pelo policial. Um outro que estava lá dentro veio intervir, e enquanto algemava os dois meliantes, o policial que os acompanhava me explicou sobre o estranho daquela manhã: “Esse cara estava aí fora, e disse que testemunhou uma tentativa de assalto, portanto, vamos ouvir o que ele tem a dizer.” Minha segunda úlcera, a esse ponto, parecia estar aberta novamente. Com certeza ele não havia visto o que eu disse ter acontecido, e eu seria preso de qualquer jeito. Só me restava esperar.

Embora tivessem passados pouco mais de quarenta minutos, eu tinha a impressão de estar enclausurado naquela sala de espera ouvindo o barulho de teclas batendo havia dias. O delegado então chamou-me a outra sala, mais reservada. Eu sentia ácidos gástricos corroendo meu estômago por dentro, e para falar a verdade, estava morrendo de fome ao mesmo tempo. Ao entrar, ele foi direto ao assunto: “Escute, temos dois relatos diferentes aqui. Um deles fala que você partiu para cima dos dois rapazes violentamente com um taco de baseball. Não encontramos nenhum objeto assim na suposta cena do crime, e além disso, as feridas deles parecem muito mais infligidas por um objeto pesado como uma barra de ferro do que por algo feito de madeira.” – eu senti um pouco de orgulho ao ouvir a última frase. Ele continuou: “Porém, esta é a versão dos supostos assaltantes, que obviamente têm menos credibilidade do que a versão da vítima, nesse caso. Além disso, o outro rapaz relatou os fatos exatamente como você. Tendo uma testemunha ocular, e evidências de que seu relato é de fato verdadeiro, você está dispensado, e tomaremos as providências cabíveis quanto aos acusados.” Minha úlcera magicamente parou de incomodar nesse momento. Ele mandou que eu levantasse, entregou minha carteira – que os trombadinhas burros não tiveram capacidade de esconder – e pediu desculpas por qualquer inconveniente. “Não houve inconveniente nenhum”, eu disse, obviamente mentindo. “Antes de ir”, eu falei, conferindo minha carteira, “se não fosse muito incômodo, eu tinha acabado de receber meu salário, e minha carteira agora está vazia. Acho que o dinheiro ainda está com eles, você pode conferir para mim?” – finalmente eu teria dinheiro para comer.

Fiquei mais algum tempo esperando na delegacia, ao lado do cara estranho que havia, em termos práticos, me tirado da cadeia. Eu tentava falar com ele, mas ele só respondia colocando o dedo sobre os lábios num gesto extremamente desajeitado, e continuava focado na leitura. Conforme os minutos se alongavam, olhei na direção de seu livro algumas vezes, e parecia ser qualquer coisa sobre espionagem, criptografia, e afins.
O policial saiu de dentro da pequena sala que ficava imediatamente ao lado daquela onde logo antes fui entrevistado, e eu conseguia imaginar o tipo de coisa que se passava aí dentro pelo cheiro exalado dela quando a porta se abriu. Sem se importar com o rapaz a meu lado, o homem de estatura mediana e duras feições começou a falar: “Eu acabei de revistar os dois bandidos, mas não tinha dinheiro nenhum com eles” – eu realmente não estava nem um pouco surpreso – “porém, gostaria que você me acompanhasse”.

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