Escrito I – Parte 10

by F. Pergher

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Pude perceber um esforço maior do que o normal de sua parte em expressar condescendência. Apesar de falar de um jeito razoavelmente clássico, seu estilo desengonçado fazia ele soar como um dramaturgo medíocre no início da carreira. Disse a ele que preferia contar minha história enquanto comíamos alguma coisa, sendo que meu café da manhã fora arruinado e já passavam das dez horas. Paramos num café que tinha um aspecto quase limpo e preços bons, e pastéis grandes. Por sorte não precisei contar minha história, pois ele começou um monólogo interminável sobre criptografia e acabou esquecendo do assunto.

Saindo do café, eu tive a impressão de que já sabia tudo o que precisava saber sobre a vida de Hermes. Continuamos caminhando em direção ao prédio em que eu estava morando, com meu fiel escudeiro ainda conversando ininterruptamente. Em certo ponto, na frente de um estabelecimento que parecia uma garagem ou um depósito, Hermes despediu-se de mim, da pior forma possível na minha situação: “Gostei de conversar contigo, espero que a gente possa se encontrar de novo, aí tu me conta sobre o que aconteceu naquela noite. Como posso te chamar?”

“Thomas”, eu respondi. Já havia perdido o hábito. “Thomas Bartos”, talvez eu quisesse lembrar mais a mim do que a ele. Então Hermes entrou no velho galpão caindo aos pedaços, e eu supus que ele morava lá. Virei as costas e voltei, andando tranquilamente, até minha casa. Já era quase meio dia, e aquela manhã havia sido um tanto quanto agitada, se comparada à minha vida anterior. Do galpão de Hermes até o velho prédio, havia mais ou menos uns quinhentos metros. Éramos praticamente vizinhos, e isso significava que eu não poderia evitar de me encontrar com ele novamente. Depois de todo aquele monólogo sobre espionagem, tinha certeza que ele voltaria a encontrar-me assim que quisesse.

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