Escrito III – Parte 4 (final)

by F. Pergher

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Geralmente vinham na mesma velocidade de minha vida normal, mas dessa vez as imagens passavam desaceleradas por minha mente. Eu a via sentando no meio da estrada, ainda me fitando com aquele olhar que dá medo por si só, e toda a fila de carros, grandes e pequenos, e pesados caminhões precipitando-se acima dela. Quem quer que fosse essa pessoa, ela sabia o que estava fazendo, embora provavelmente não soubesse o que isso acarretaria para mim.

Me mexer durante as visões ou o que quer que fossem causava uma dor imensa no meu corpo, tanto que as vezes que tentei nunca terminaram longe de um hospital. Ainda assim, me esforcei o quanto pude para refrear os carros durante a visão, e ir até onde ela estava. Quando a alcancei, e finalmente coloquei a nós dois em um lugar mais seguro, a leveza da visão já misturando-se ao mundo real, e os carros voltando a andar na mesma velocidade em que haviam parado, ainda pude distinguir algumas palavras dela: “você deve ser o adolescente mais errado desse mundo” e então acordei com os sons mecânicos daquele aparato médico num quarto de hospital.

Ela já estava do meu lado quando acordei, e parecia um pouco mais velha do que quando estávamos na pracinha. Mal fitei-a, e ela começou a falar, falar coisas que eu mal conseguia prestar atenção, porque meu corpo inteiro doía – uma dor que parecia vir de dentro de cada célula, como das outras frustradas vezes. Dessa vez havia dado certo, pelo menos.

Ela continuava seu monólogo, dizia que surpreendia-se pela minha falta de emotividade enquanto me beijava, e eu só conseguia pensar no porque dela ter feito aquilo comigo, se sabia das consequências (e eu tinha certeza de que ela sabia). Pensava que havia salvo a vida dela, mas talvez não fosse a coisa certa a se fazer, acredito que existe algum tipo de destino – embora odeie referir a ele desse jeito -, e que eu não devia usá-lo como uma mera brincadeira. E quem havia se posto na situação era ela, de qualquer jeito.

Durante minhas divagações, pegava algumas palavras da grande palestra que ela me dava, sobre como havia sido uma boa surpresa o fato dela estar em perigo ter despertado minhas alucinações, ou coisa parecida, mas eu não queria saber daquilo, o que me importava é que no fundo, a dor das minhas células nem por um momento fazia o ato de ter tirado ela do meio da estrada algo que tivesse de fato valido à pena.

Ela dizia que achava que eu finalmente havia deixado de ser egoísta, e já podia fazer bom uso da minha condição, pelo menos era o que eu entendia, mas tudo que eu pensava naquela hora era em como eu não devia em momento algum ter aberto mão da minha integridade física em troca da dela, e que provavelmente eu demoraria muito tempo para me recuperar daquele impacto. E quando ela levantava-se, e já pronta para ir embora, reafirmava que eu finalmente estava começando a entender a importância de usar aquilo que mais me acometia em benefício de outros, enquanto a dor começava a deixar de ser simplesmente física e atormentar minha mente, eu me convencia de que meu maior erro naquela noite havia sido o de decidir me mexer durante uma das malditas alucinações.

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