Escrito I – Parte 11

by F. Pergher

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Mas eu tinha uma longa tarde pela frente, ainda. Era quinta feira e minha segunda consulta com o psicólogo – ele havia solicitado acompanhamento duas vezes por semana – era hoje. No caminho, eu iria me matricular no curso pré-vestibular, que eu considerava estúpido, mas precisava ocupar meu tempo. Eu tinha um pouco de dinheiro com o qual o sádico delegado havia presenteado-me, mas sabia que ele não duraria mais de um mês, mesmo que eu racionasse ao máximo meus gastos. Portanto, acreditava precisar também de um trabalho, já que não gostava de confiar na sorte para reger meus hábitos alimentares.

A segunda consulta com o psicólogo foi extremamente infrutífera, assim como se espera que as primeiras sejam. Eu procurava ser o mais sincero possível com ele, mas não me sentia confortável para contar o que havia acontecido. Falava, então, de minhas inquietudes com os pormenores da situação atual de minha vida. Afinal, por mais que eu imaginasse, obviamente, que o que havia acontecido mudaria muito minha relação com o mundo, eu não passava de um quase homem que não tinha nenhuma noção sobre como conduzir sua própria vida.

E ainda remoendo os simples e efetivos conselhos que o psicólogo me havia dado, do tipo de coisa que ao escutar você acha óbvio, mas antes disso era impossível ver – “você ainda é jovem, não precisa escolher tudo agora”, “procure conhecer diferentes tipos de atividades”, “saia mais de casa” – , eu voltei à minha casa, onde aproveitaria os dias posteriores completamente sozinho, com exceção das revistas de palavras cruzadas e alguns outros aspectos de minha bizarrice que gostaria de testar.

E dos testes, tirei várias conclusões. Eu não tinha negócios fora de casa, então tive bastante tempo para executá-los. Aparentemente, eu conseguia materializar somente armas. O que por si só já seria bem útil, mas além disso as armas eram funcionais. Armas de fogo ou de projétil desvaneciam – por mais estranho que seja, em questão de segundos havia só uma sensação de quentura na minha mão – após o primeiro tiro, bombas obviamente só explodiam uma vez, e eu ainda não concluíra nada concreto sobre armas brancas. O que eu sabia era que bastava colocar minha mão sobre uma imagem de alguma arma, e não precisava nem ser uma representação fiel, embora não funcionasse com desenhos incompletos, e uma espécie de bolsa abria-se sob minha mão, tudo que eu tinha que fazer era pegar a arma e atirar.

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