Escrito I – Parte 12

by F. Pergher

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Na segunda-feira, falava sobre preços com uma secretária do curso que havia me informado sobre. Segundo ela, uma boa cota das vagas era destinada à “filantropia”. Como podiam ser filantropos aproveitando-se do desempenho ruim de alunos de ensino médio eu não entendia. Consegui entendê-la, porém, trocando o termo filantropia por “interesse em redução no imposto de renda”, e pude concluir a conversa sem meu estômago doer. O que importava, pelo que havia entendido, é que eu tinha chances de não pagar nada pelo tal curso. Quando manifestei meu interesse na cota de filantropia, fui encaminhado a outra pessoa para discutir esse aspecto.

Eu já estava me acostumando a explicar minha vida escondendo os aspectos bizarros a essa altura, então não foi difícil dizer que eu estava desempregado e buscava, além de ingressar no ensino superior, uma fonte de renda para conseguir tal feito. Pude comprovar minha ausência de renda, e quando disse meu endereço, a expressão da moça à minha frente me deu quase certeza de que eu havia conseguido a vaga no curso. Além da vaga, ela perguntou se eu tinha interesse em trabalhar naquela escola como arquivista. Não bastasse estudar de graça, eu teria um emprego decente, com pouca interação social e provavelmente nenhuma equipe criativa que mais levava a cabo cigarros mal feitos do que projetos propriamente ditos. Dificilmente haveria, também, um administrador afeminado atrapalhando o bucolismo de meu dia e o pH básico de meu estômago. Passado o susto inicial, até que minha nova vida não seria tão ruim.

A entrevista com o diretor, para que eu finalmente conseguisse o trabalho de que tanto precisava, havia sido marcada para a semana seguinte, e apesar disso fui dispensado com a garantia de que o emprego já era praticamente meu. Tendo ainda metade de minha manhã livre, resolvi entrar em um shopping center desses metidos a refúgio da alta sociedade nos tediosos sábados dessa cidade. Afinal, se eu fosse trabalhar, deveria estar bem apresentado. Nunca imaginei que entraria em loja atrás de loja, provando roupas e comparando preços, mas graças ao que me dera o policial de olhar psicótico, eu agora o fazia.

Saí de lá quase bem vestido. Além das calças jeans novas e sapatos mais ou menos confortáveis, tinha comprado também três camisetas do Guns n’Roses. Seria bom andar armado. Tinha conseguido também comprar um casaco e feito um bom lanche antes de sair do shopping, e cada uma das minhas tardes estava sendo melhor do que a anterior. Esperava que continuasse desse jeito.

 

E com esse atinjo a marca dos trinta posts. Não vou nem dizer “eu não esperava tanto”, porque esperava sim. Regularidade mantida por mais uma semana, dessa vez de escrita também.

Estou com aquele início de desespero de quando se inicia um projeto sem saber o que esperar dele no final. Estou com o mesmo início de desespero sobre dois ou três projetos. Acho que vou me focar em terminar os escritos que comecei a postar por aqui antes de começar novos. Ou não.

Antes de acabar essa desnecessária nota de rodapé: estou achando interessante o quanto todas as minhas notinhas de rodapé começam como uma apresentação a um grupo de Alcoólicos Anônimos:

– Prazer, meu nome é Felipe e estou postando regularmente há oito semanas.
Todos: “Seja bem vindo, Felipe.”

Segue o baile.

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