Escrito IV – Parte 7 (final)

by F. Pergher

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Os dois já estavam dentro do táxi quando o homem finalmente pôde respirar. Por mais que houvesse sangue, direta ou indiretamente, em suas mãos, ele não havia atentado contra a vida de ninguém. As doses de anestésico, mesmo altas, eram seguras. E seus tiros, tinha certeza, não foram letais. Os homens que estavam no chão não levantavam por ação do sonífero ou bom senso.

Enquanto recuperava seu fôlego, pegou na mão a arma que sua coadjuvante havia usado na ação. Era uma espécie de pistola de pressão que disparava pequenos projéteis puntiformes que armazenavam qualquer tipo de substância líquida. Enquanto mexia na arma, apontando-a em direções diversas, olhando através de sua mira e colocando o dedo no gatilho como se fosse atirar, perguntou à moça:

– Que tipo de tranquilizante vai aqui dentro?

A resposta veio em meio a um mal audível riso debochado.

– Tranquilizante? Se algum dia aparecer um tranquilizante que adormeça um homem na hora com menos de cinco mililitros, eu vou querer todo o estoque.
– Mas então como você colocou todos para dormir?
– Nenhum dos treze que foram atingidos por essa arma estão dormindo agora. Só se sonolência for um efeito colateral do veneno .

Estranhamente, ele não estava surpreso por saber disso. Arrancou o carro, não sem antes dar um longo suspiro, e saiu por uma porta lateral da garagem que mal podia ser vista na penumbra. Conforme passavam do estacionamento para a estreita e mal cuidada estrada rural, a lua, ainda alta, indicava-lhes que ainda teriam muito tempo até o nascer do dia.

– Dá pra entender fácil porque os caras escolhem esse lugar – ela quem iniciava a conversa dessa vez – eles podem entrar e sair sem ser vistos. Olha o quanto a gente tem que andar pra voltar pra estrada principal.

– Bem, e o lugar já é no meio do nada. – ele respondeu, sem muito ânimo pra continuar a conversa.

Saber que treze pessoas haviam morrido, quando ele já regozijava-se por ter deixado todas vivas até então deixara seu estado de espírito péssimo. Só voltou a falar quando a moça, após um longo bocejo, dirigiu a palavra a ele.

– A gente podia achar uma espelunca por aqui e dormir até de manhã, né? Aí você já aproveita e tira essa maquiagem, tá toda borrada.
– Pode ser, quando tiver alguma por aqui, eu paro.
– Me acorda então. – ela disse, encolhendo-se tanto quanto podia no banco do carro, voltada para a janela.

Dirigiram por pouco tempo, mas foi o suficiente para ele desesperar-se em seus pensamentos. Agora que a adrenalina havia deixado sua corrente sanguínea, ele conseguia raciocinar melhor, e, como sempre, arrependia-se de tudo que tinha feito. Decidiu que era hora de parar ao quase derrubar o carro penhasco abaixo numa curva acentuada.

Por sorte, poucos quilômetros depois viu uma pequena entrada com uma placa luminosa. Calculava ter viajado cerca de cem quilômetros, e achava que seria difícil que rastreassem-no até lá na mesma noite. Estacionou o carro na garagem totalmente oculta do pequeno prédio quadrado. Tinha um bom aspecto, apesar da simplicidade, talvez por ser iluminado sutilmente por luzes de cores quentes.

Acordou sua companheira batendo suavemente no ombro dela. Ela levantou, visivelmente sonolenta, e os dois entraram lado a lado no motel. Não fosse pela mancha borrada de lápis de olho que atravessava a cara dele, os dois poderiam ser confundidos com um casal qualquer. Registraram-se e pegaram a chave do quarto.

Enquanto ele lavava seu rosto na pia do banheiro, continuava o raciocínio que havia começado na estrada, agora já mais tranquilo. O quarto de motel, apesar de bem decorado, era pequeno, e lembrava-lhe uma prisão. Sentia-se mais confortável em seu estado atual do que na estrada. Não parecia correto que ele estivesse em liberdade para viajar.

Depois de finalmente tirar sua fantasia e vestir uma roupa confortável para dormir, foi em direção à cama. A moça já estava deitada nela, despida e parecendo estar num sono profundo. Ao lado dela, no travesseiro onde sua cabeça logo ocuparia, havia um maço de notas. Era o combinado, com certeza. Ele não duvidava da integridade de sua contratante.

Tirou as notas de lado sem ao menos contá-las e deitou-se na cama. Pensava sobre como a pessoa que havia matado outros treze antes agora nem mais se importava com isso. Não gostava daquela rotina, não gostava de colocar vidas em risco, estava farto. Mas isso já não importava, ele sabia a raiz de seu problema. Era frágil e dormia a seu lado.

Ele pegaria no sono facilmente agora. Ouviu ainda várias sirenes de polícia, antes de fechar os olhos. Elas chegavam extremamente perto e de repente cessavam. Já não sabia se sonhava ou não. O que sabia era que sua noite seria tranquila. Quem dormia a seu lado não representaria um empecilho, pois ele já tinha uma solução. Podia acabar de vez com seu problema. Estava à sua mercê agora, qualquer dia desses iria matá-la enquanto ela dormia.

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