I – De ver navios

by F. Pergher

Pois bem, tendo eu estudado as artes obscuras desde que tenho consciência de minha própria existência, nada do que eu tenha aprendido valeu-me tanto quanto a noção de que sempre haverá mais sobre o que se aprender. E baseando-me nessa noção, procuro evitar tanto quanto possível valer-me de vanglórias.

Posso afirmar, porém, com plena convicção que coisas que acontecem ao meu redor não são simplesmente coincidências. Posso afirmar que muitas vezes já fui o elo entre dois elementos que, em outras circunstâncias, jamais haveriam de encontrar-se. Posso afirmar, portanto, que minha história inicia-se naquele dia em que fui até o Cais. Aquele lugar já era em muito conhecido por mim, gostava de frequentá-lo para observar os navios. Navios que me levam pelo intransponível oceano das memórias até um passado distante. Restos de mim nessa civilização que já não se sabe para onde vai. Bem, estou prolongando demais.

Por eventos anteriores ao desenrolar dos fatos a seguir, e que, portanto, não interessam a essa história, dessa vez meus motivos para ir até o velho cais eram mais sérios do que um apreço ao passado. Margarida, a quem pretendo retomar meu foco mais tarde, estava partindo, e – pobre ovelha desgarrada – não tinha ninguém além de mim nestas terras. Voltava ao seu país para buscar religar seus elos familiares cortados por causa deste que vos fala. Ajudei-a a carregar sua bagagem até dentro do navio, e ainda lá dentro, reparei em alguns aspectos que prenderam minha vista sem motivo nenhum.

Devo ressaltar mais uma vez, e peço que, por favor, não me tomem por arrogante, que possuo a Segunda Visão. E sobre ela, devo dizer que não é um dom consciente, devo esforçar-me para discernir o que provém dela e o que é um mero lapso de minha consciência. Os senhores podem esquecer qualquer tipo de romantização de aspectos paranormais. Os sinais não vêm a mim como alucinações, ou mensagens. Os sinais vem a mim como aquele homem de chapéu, igual a outros trezentos, mas que por algum motivo especial chamou mais sua atenção do que os outros duzentos e noventa e nove. Aquela pedra que parece mais solta, mesmo você estando em um calçamento totalmente irregular. Aquele vulto que você enxerga à noite, quando vira o olho na direção de um quarto escuro. Tudo isso podem ser maus ou mesmo bons agouros.

Pois bem, agora posso prosseguir, já tendo justificado, mesmo que pela ausência de uma justificativa, o motivo pelo qual alguns elementos que vi, desde o navio até o meu retorno a casa, terem chamado minha atenção. Em primeiro lugar, havia uma pequena âncora de bronze pendurada perto da acomodação de Margarida. Não sou supersticioso, e teria passado em branco, não fosse pelo fato de que ao olhar para a âncora, sua forma remeteu-me ao focinho de um gato. É uma associação talvez comum, mas o que sucedeu mais tarde me faz pensar com toda a convicção possível que não é uma mera associação, e que a história que vos interessa começou neste momento.

Com as bagagens de Margarida acomodadas e seguras, e a imagem de um gato ainda esgueirando-se, lânguida, por meus pensamentos, tornamos a subir até o convés do navio, onde me despediria dela. Devo-lhes dizer que atualmente, como bem os senhores sabem, navios não são mais o meio de transporte mais popular de todos. Então, de certa forma eu estava preparado para que a maioria das pessoas aí presentes chamasse mais atenção do que o tipo de pessoa que você encontra em um aeroporto, por exemplo. E encontrei, no caminho, um cavalheiro em específico; usava um monóculo. Bem, fazia muito tempo que eu não via um desses, na verdade, acredito que poucas pessoas ainda usam monóculo depois do período vitoriano. Novamente fui tomado por um sentimento que eu nem bem sei o que é, mas que atraiu minha atenção até aquele homem, portanto, guardei sua imagem em minha mente.

Paranoico como eu possa parecer, ao chegarmos ao convés, eu tive a ligeira impressão de que estava sendo seguido. Sempre tive de agir com cautela, desde que iniciei meus feitos, então era normal que eu desconfiasse de qualquer coisa a meu redor. Aquela moça de vestido verde-oliva e chapéu branco, com mais ou menos a mesma idade de Margarida, tive certeza de havê-la visto antes, perto da cabine, e ainda, entre as pessoas de uma das ruas pela qual passamos no embora longo, nada exaustivo, caminho de minha casa até o cais. Eu morava em um bairro que não era em nada despovoado, e muitas pessoas faziam aquele trajeto, ainda mais quando algum navio de passageiros chegava ou partia. Das cabines ao convés era um caminho igualmente movimentado; sendo que seus passageiros não veriam terra por um considerável tempo lá dentro, era nada mais do que normal que saíssem de suas cabines para observar o continente por alguns últimos momentos antes da partida.

Relevei a ideia de estar sendo seguido, convenci-me de que fosse paranoia minha, mas guardei comigo a imagem daquela mulher do vestido verde oliva, talvez por causa do próprio vestido: desde que me mudara para essa cidade, nunca havia visto alguém usando uma peça de tal corte. Deve ser considerado antiquado, ou coisa assim. De qualquer jeito, saí do navio que já estava a levantar âncoras, e esperei do lado de fora até que ele partisse. Do cais, avistei no convés Margarida conversando com o homem do monóculo. Sentia-me seguro sobre ela, depois de tudo que aprendeu enquanto estudou comigo, ela tomaria, certamente, escolhas sensatas, e não se deixaria enganar tão facilmente por qualquer um. Por ser uma pessoa reservada, seria quase impossível que abusassem dela ou de seu conhecimento.

Acho importante, a esse ponto, ressaltar que a relação que tive com Margarida era apenas o que se espera entre um professor e um aluno. Não foram muitas as vezes em que me convenci a ensinar alguém, mas nos dias de hoje eu sou um dos últimos que ainda tem proficiência suficiente nas Artes para ensinar os interessados, e acredito também que não devo deixar a ciência tão estudada por meus antepassados morrer. Sendo assim, quando Margarida achou-me, apesar dos meus esforços para viver o mais neutro possível em relação ao mundo, acreditei que valesse a pena ensiná-la. Considero-a uma grande amiga.

Tendo visto o navio partir, voltando ao meu relato, dei as costas ao cais e rumei à minha casa, onde provavelmente passaria o resto do dia imerso em alguma leitura ou experimento. Antes de tudo que se sucedeu comigo, e que agora vos conto, minha vida resumia-se em uma deliciosa rotina de estudos, caminhadas improrrogáveis ao amanhecer e ao anoitecer, e algumas saídas para refeições. Agradava-me viver assim, pois enquanto apreciasse meus estudos, sabia que não sofreria de tédio em momento algum. Aproximei-me de minha moradia, e ao chegar lá, presenciei a última das coisas que fez eriçarem-se meus sentidos naquele dia: havia um gato acinzentado na soleira de minha porta.

Se houvesse eu confiado a meu senso crítico uma explicação para a presença do bichano, não haveria perturbado-me nem um pouco: Minha casa estava entre um pequeno bosque e uma ruela residencial, onde havia várias crianças que possuíam animais de estimação. De ambos os lugares poderia provir um pequeno felino desgarrado, e o umbral de minha porta pareceu-lhe um bom lugar para proteger-se da leve garoa que caía naquele dia, como era esperado de uma manhã de inverno.

Eu haveria tomado por irrelevante a presença do felino, que correu de mim assim que me aproximei dele, não fosse a imagem que anteriormente fora evocada à minha mente pela âncora que havia visto na cabine de Margarida. É claro, não posso mentir a vocês, que não tinha dimensão do que estava iniciando-se na hora. Ainda assim, por alguns segundos permaneci na soleira, já seguro do orvalho, meditando sobre a âncora em forma de gato, e o pequeno gato que levantou âncora de minha porta assim que me aproximei. E se antes estivera no cais do porto, olhando o navio em que partia Margarida, agora estava na frente de minha porta, novamente a ver navios.

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