II – Da primeira impressão.

by F. Pergher

I – De ver navios.

Pelo resto de meu dia, nada muito memoriável aconteceu. Imergi-me em minhas leituras e ensaios, apesar de não terem sido tão frutíferos como gostaria que tivessem sido. Ao sair para minha caminhada pré-noturna, constatei que a garoa que regava a terra horas antes havia se desfeito em uma leve bruma a orvalhar. Tal aspecto fez-me demorar mais do que o normal na minha jornada pelo velho Porto, já que havia passado a tarde toda na cálida umidade de meus arquivos. Tão agradáveis estavam minhas andanças que, ao dar por mim, já havia escurecido completamente.

Rumei à minha casa, e ruas vazias não me assustam em nada, mesmo nos dias de hoje. Já vi o suficiente para poder afirmar que pouco do que é mundano faz com que aflorem meus nervos. Neste dia, porém, fazia o caminho um pouco mais rápido do que o habitual. Conforme minhas suspeitas, quando avistei a soleira de minha casa, no final do caminho ladeado por árvores e quintais de casas – e desta vez eu ia mais próximo aos quintais do que às árvores – havia gatos abrigando-se do orvalho. Já me acostumara a ter esses pequenos visitantes em dias de chuva, e como eles praticamente fugiam assim que me enxergavam, continuei andando na direção da porta. Não diferente de minhas suspeitas, abriram-me caminho os gatos, e um minuto depois já estava dentro de minha casa.

Pendurei meu casaco de chuva e meu chapéu no pequeno vestíbulo, que mal era separado da sala de estar. Ao olhar para dentro, esperando meus olhos acostumarem-se da escura penumbra exterior para as iluminadas catacumbas do velho e espaçoso chalé que ocupo, percebi que a casa estava, em termos práticos, revirada em uma bagunça. Enquanto Margarida lá morava, mantinha tudo organizado, mas os efeitos de sua ausência já eram sentidos em apenas uma tarde de meus estudos.

Do vestíbulo, eu conseguia ver o amplo salão de entrada, de decoração inexistente além de uma grande pintura. Retratava um campo florido, em tons sóbrios, e fora dada a mim por um velho amigo. A pintura era a primeira coisa que se via ao entrar na casa, sendo que ficava defronte à porta do vestíbulo. Debaixo dela, havia o sofá, teoricamente de três lugares, mas seis pessoas poderiam sentar-se tranquilamente nele. Do seu lado direito, havia um criado mudo – peça que havia sido trazida de meu quarto, sendo que nele não tinha muita serventia. Todo o sofá – com exceção da parte onde eu estivera anteriormente sentado – estava coberto por livros e papéis dos assuntos mais variados, desde tratados manuscritos sobre as Artes, passando por partituras musicais dos tempos em que ainda eram feitas à mão, e até mesmo “método prático para piano” e alguns best-sellers modernos juntavam-se àquele caos.

Em frente ao sofá, a mesa de centro de madeira envelhecida que estava sobre um grande tapete liso de cor avermelhada, era ocupada por uma bandeja com pratos de comida e xícaras, que eu havia usado durante a tarde. À parede direita da sala, havia uma grande janela que dava para o terreno vazio ao lado da casa, mas que quase nunca era aberta, e à esquerda, havia uma porta pela qual se entrava no pequeno corredor que dava para a cozinha, banheiro e área de serviço. O entulho de livros, papeis, escritos soltos e objetos diversos arrastava-se pelo chão até as escadarias que ficavam quase no canto da parte direita, e que davam para os dois quartinhos no sótão, e também pelo lance de degraus que ficava ao lado da porta do vestíbulo, que levava ao porão, onde guardo a maior parte de meus espessos arquivos, junto com alguns instrumentos de todo o tipo, e que seriam grandes demais para o andar de cima. Astrolábios, um antigo piano de parede e globos terrestres do século passado.

Espero que tenha ficado claro, após essa descrição, o quanto aquela bagunça dentro da casa me incomodava – e acredito ser uma pessoa que pouco liga para esses detalhes. Achei que me sentiria melhor se organizasse os materiais em minha moradia, e assim me mantive entretido até sentir que precisava dormir, e àquela altura, já havia ordenado tudo o que era necessário, exceto o meu porão. Estava satisfeito, convicto de que precisaria de mais tempo para resolver a desorganização dos arquivos, então subi ao meu quarto para dormir um sono profundo, que me foi concedido pelo meu habitual percurso diário, além da exaustão física de arrumar a casa.

Na manhã seguinte, após voltar de minha caminhada, havia novamente um gato em frente à soleira. Parecia ter certeza, na hora, de que era o mesmo gato que havia estado lá no dia anterior, mais ou menos à mesma hora. Pensei, depois, que havia vários gatos pela região, e provavelmente muitos deles eram parecidos, especialmente aquele, que era apenas cinzento dos olhos amarelados, e não tinha nenhuma mancha ou característica marcante. Ignorei sua presença, já que ele saía sempre que avistava a mim, e entrei em casa. Terminava de lavar a pouca louça que ocupei em meu pequeno porém satisfatório café da manhã, e já descia ao porão, para procurar algo mais a ser organizado, quando o sino de minha porta tocou.

Eu não estava esperando nenhuma carta, encomenda ou visita, portanto fui surpreso e talvez mesmo receoso, até a porta. Ao encarar aquela estranha figura na soleira, não pude pensar em nada além de mim mesmo, há muitos anos atrás. Aquela pessoa à minha frente tinha idade para ser meu neto, ou mesmo bisneto. Parecia já haver passado da inflorescência de sua juventude, e, valendo-me da mesma metáfora, eu o classificaria como uma árvore em frutos maduros.

E tanto eram maduros quanto não eram vistosos, tais frutos. O rapaz era alto e magro, a ponto de caminhar desengonçado, sua pele tinha mais ou menos o tom de páginas de um velho livro, exceto pela grande quantidade de sardas castanhas arruivadas que se formavam na parte visível de seu pescoço e em menor grau sob seus claros porém em nada dignos de menção olhos, que também eram separados demais. Usava, sustentados por suas grandes orelhas, e seu fino e comprido nariz, estranhamente arrebitado, óculos maiores ainda. Naquela fria manhã de inverno, não usava nada para aquecer seu corpo além de um casaco preto, que, por ser sua constituição física parecida com a de um galho seco, ficava-lhe muito largo aos ombros. Antes que pudesse saudá-lo, antecipou-se e começou a falar, mais ou menos nervoso ou inquieto.

– Bom dia, senhor Fáris. Está sozinho em casa? Podemos conversar por alguns minutos?

E foi logo entrando em minha casa, pendurando seu casaco em um dos ganchos de marfim – havia-os ganho de presente pouco antes de Margarida aparecer – do vestíbulo sem mesmo que eu pudesse fechar a porta. Desnecessário dizer que me senti pouco confortável com sua atitude intrusiva, mas de qualquer jeito, estava tranquilo. Dentro daquela sala, possuía o suficiente para – não – na extremidade de meu pulso possuía o suficiente para defender-me de qualquer coisa que ele pudesse tentar contra mim.

– O que o traz aqui tão cedo, jovem? Ouviste falar sobre mim, ou vieste pelo anúncio do jornal?

Um fato que não mencionei por vos já ser conhecido, senhores, é que desde que me mudara para essa cidade, anunciava serviços como livreiro. Precisava de algum dinheiro – e não gostava de ganhá-lo da forma que para mim seria mais óbvia – para me manter vivo, e possuía um pacto vitalício – que apesar de não escrito poderia confiar nele para o que precisasse – com um grande editor, ou melhor, com a família de um antigo grande editor. Entendia – entendo – o suficiente sobre linguística para poder assessorar aqueles autointitulados novos talentos, e geralmente eles reconheciam o valor do meu trabalho. Algumas vezes davam um bom retorno, esses escritores, algumas vezes davam pouco retorno. Mas sempre havia o retorno, esse era o mote de meu pacto com a editora.

– Justamente. Então, além de editor você faz bicos como clarividente?
– Poupe-me, era só um palpite óbvio. Que tipo de material tens?
– Uma ficção. Sobre um antigo necromante, que de repente começa a se comunicar com os mortos, e bom, daí em diante ele descobre que na verdade o…
– Certo, certo, uma ficção. Já deve estar informado sobre como eu trabalho, não está?
– Bem, na verdade não estou. Eu só quero lançar logo essa história, ela vai ser revolucionária para a literatura atual, inclusive, gostaria de saber se o senhor conhece alguma boa agência de propaganda…
– Tenho certeza que vai, mas ouça o que eu tenho a dizer. Como posso chamar você?
– Meu nome é Oscar. Aliás, preciso de um pseudônimo, com pelo menos duas letras entre meu nome e meu sobrenome…
– Então, Oscar, como eu ia dizendo, trabalho com um valor de correção e encaminhamento, depois ponho você em contato direto com a editora. Pode deixar seu trabalho comigo, vou lê-lo e revisar o que achar necessário, e combinamos um dia da semana para conversarmos sobre, o que lhe parece?
– Bem, então, como posso te dizer. O que tenho até agora é só uma ideia, ainda não coloquei no papel. Sabe como é, bloqueio criativo. Gostaria que você me ajudasse, na verdade eu iria propor uma parceria entre nós dois, assim você poderia divulgar seu trabalho também e…
– Olhe, de qualquer jeito, aqui está meu telefone, quando tiver algo pronto, pode ligar-me, e marcaremos um horário. Infelizmente trabalho com revisão, não com criação – eu disse, já levantando do sofá. Vendo isso, meu interlocutor levantou-se também, e nem precisei indicar-lhe a porta de saída. Ele se despediu de mim rapidamente, e eu não pude evitar um suspiro ao fechar a porta.

Desafortunadamente, a única parte diferente que nele havia era sua aparência. Deixando-a de lado, era só mais um dos que vinham todo o dia até mim. Muita lábia para pouco trabalho, é muito comum nos dias de hoje. De todas as poucas gerações cuja ascensão e queda tive o prazer de presenciar, esta é a mais acomodada de todas. Conformismo e falta de motivação tornaram-se um elemento comum, e jovens que demonstram ser comuns causam-me uma péssima primeira impressão.

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