III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.

Quando entreguei meu número de telefone ao estranho jovem que a mim apareceu naquele dia, a última coisa que eu poderia imaginar é que ele, de fato, voltaria a me ligar. Aqueles escritores pretensiosos demais realmente tinham fé no próprio trabalho.

Agora, não quero parecer esnobe. Gosto muito de apoiar novos criadores, acredito que hoje mais do que nunca precisamos de idealistas, de mentes pensantes, eruditas. Porém, gosto mais ainda de apoiar criadores que de fato, criam. Não gosto da ideia de receber em minha casa um jovem culto, porém infértil. Esse é o tipo de jovem que, vocês bem devem saber, só está nisso pela fama, reputação, para conseguir alguma coisa com aquelas garotas que se impressionam facilmente com rapazes supostamente sensíveis. E acabam formando um ciclo vicioso, pois enquanto pessoas considerarem inescrupulosamente essa falsa literacia, continuarão aparecendo falsos literatos.

Bem, não há necessidade de continuar nesse assunto por hora. O fato é que poucos dias – dias em que nada de muito importante a meu relato aconteceu – depois do que acabei de relatar, meu antigo telefone tocou. Agora, devo dizer-lhes que aquele velho telefone de disco, completamente analógico, é a tecnologia mais avançada da qual faço uso regular. Já considerei estudar as novas comunicações em massa, mas elas não me agradam, e, mais importante, não seriam de serventia nenhuma em minha vida, bem pelo contrário.

Vocês já sabem – e os que não sabem, possivelmente suspeitam – que para aquilo que faço, é importante manter-me o mais escondido possível. Isso inclui não ser achado, ou pelo menos não ser identificado como o que realmente sou, e podem acreditar que é mais do que um simples livreiro, por quem seja que me encontre. Por isso, mantinha uma espessa biblioteca, contando com enciclopédias cujos equivalentes digitais ocupariam um centésimo do espaço; anotações, textos, ensaios, todos eles escritos à mão, e à mão, também, fazia as correções que mandava assim mesmo, à caneta, para a editora.

Escusado dizer que o convite de Oscar para que nos encontrássemos em um café no centro da cidade em nada me empolgou. Dizia que era difícil para ele locomover-se até o lugar onde eu estava, e esta razão não podia tirá-lo, já que minha velha casa ficava em um bairro suburbano deveras afastado do centro da cidade. Acabamos deixando o encontro combinado para o próximo sábado, sendo que eu recebi sua ligação na quinta feira. Eu tinha – ou gostava de pensar que tinha – alguns negócios para resolver nos dias anteriores.

Primeiramente, precisava de alguma roupa apresentável. Casacões e túnicas escuras, apesar de servirem a meus propósitos, chamavam atenção demais nessa época. Infelizmente, pois eu sempre gostei dessas vestimentas, e a minha favorita – a mais antiga delas – certamente tem mais idade do que qualquer um dos que ouvem minha história. Havia algum ou outro brechó no caminho para o porto, tinha certeza de vê-los todo o dia em minhas caminhadas até o porto.

Além disso, precisava mudar algumas coisas de lugar em minha casa. Se fosse trabalhar com algum jovem escritor, não gostaria que ele soubesse sobre as Artes. Ou pelo menos não sobre meu envolvimento com elas. Esse envolvimento, devo dizê-los, era um tanto agridoce. Por um lado, gostaria de reestabelecer o posto das Artes na sociedade, divulgá-las, demonstrar ao mundo sua existência, e como elas poderiam ser usadas para melhorar o entendimento de mundo das pessoas. Por outro lado, eu pude testemunhar a ascensão da ganância do homem, e a esse ponto da civilização, minhas tão estimadas Artes seriam restritas a uma parcela da sociedade ainda menor do que fora em seus tempos áureos, e garanto que não haveriam esses poucos, de fazer bom uso delas.

De qualquer jeito, optava por não revelar-me, ao menos não para qualquer um que batesse à minha porta. Em terceiro lugar, precisava de uma boa noite de sono. Há algumas noites, desde que a partida de Margarida tornou-me, em termos práticos, desocupado. Minha rotina de sono não era tão regular quanto eu gostaria: dormia mais tarde do que costumava, e frequentemente passava a noite no sofá, acordando em vários momentos e retomando imediatamente alguma leitura. Só lembro de estar mentalmente exausto, tanto que mal pude colocar esse pensamento em ordem antes de deitar em minha cama e logo pegar no sono, e se bem me lembro, o sol se pusera há pouquíssimo tempo.

Levantei antes do sol no dia seguinte, mais disposto. Vesti minha grande capa, já que havia dormido de calça e camisa, e parti para minha primeira caminhada diária, calçando as botas de frio que estavam no vestíbulo. As grandes nevascas ainda não haviam começado, porém, caminhar com os pés frios não é uma sensação nem um pouco agradável. Tinha dinheiro o suficiente, em meus bolsos, para comprar um vestuário confortável e mais discreto do que meus capotes, e ainda comprar algum alimento em um dos pequenos mercadinhos que havia aí por perto. Eu gostava deles por possuírem muitos alimentos orgânicos.

Tudo transcorreu conforme o planejado até minha chegada ao Cais, não havia navios grandes lá, talvez três ou quatro barcos de pesca, e os típicos trabalhadores do lugar. Andei do início ao fim do longo píer de concreto duas vezes, e depois decidi voltar, pois a hora, supus, já deveria estar um tanto avançada na manhã. Na volta, naquela relativamente movimentada avenida que ia da rua de minha casa até o cais, mantive-me atento às vitrines, coisa que nunca antes havia propriamente feito. Numa dessas lojas de segunda mão, havia um casaco que havia me agradado. Era de couro preto, e se não o fosse, pelo menos era muito parecido com o legítimo couro, e não dessas imitações baratas tão comuns por aí.

Entrei, então, na loja, e era visível no rosto dos outros que aí estavam certo desconforto. Estava acostumado a causar tanto desconforto quanto uma figura alta, de cabelos compridos e desgrenhados, usando um capote negro com botas de neve pode causar nas pessoas. Talvez por esse motivo tenha me acostumado a ser agradável, no falar, com as pessoas. Não que eu fosse ter alguma vantagem não o fazendo, já que, além de deixar-me com certo sentimento de culpa, contribuiria para a negativização de minha imagem, e ter uma boa imagem, quando se estava em minha situação, eu considerava no mínimo crucial. Provou-se ser verdade, ou acredito que não poderia estar relatando por esse meio a vocês.

Bem, nada de muito relevante aconteceu dentro da loja, quando as atendentes perceberam que eu estava disposto a pagar pelas roupas, contrariando, acredito eu, a primeira impressão delas, recepcionaram-me de um jeito completamente satisfatório. Eu já não se lembrava de como era receber atenção assim havia muito tempo. Provavelmente voltaria a fazer compras, se isso implicasse ser bem tratado.

Quando eu saí de lá, carregando em uma sacola, uma calça de brim e um casaco de couro preto, junto com um chapéu que conferiria um aspecto talvez melhor ao meu surrado cabelo, aconteceu mais uma das coisas estranhas que me deixam inquieto e eu nem sei dizer por quê. A poucos passos da porta, estava posto em pé o homem de monóculo que havia visto há poucos dias partir em um navio que percorreria pelo menos cinco mil quilômetros pelo mar. Estava com o bigode mais pronunciado do que quando havia visto-o no navio, mas tive certeza que era exatamente o mesmo homem.

Passei por ele, já com arrepios percorrendo meu corpo inteiro, e não pude tirar minha atenção de sua figura. Procurava, analisando suas feições, alguma coisa que o diferenciasse. Que me fizesse ter a certeza de que o homem que havia partido no navio ao lado de Margarida não estava à minha frente por um motivo que eu desconhecia, mas cujas possibilidades não eram nada boas. Quando dei por mim, estava olhando fixamente para seu rosto, e, sem perder a calma, saudei-o com um bom dia, por ele igualmente respondido. Continuei minha caminhada no mesmo ritmo de sempre, e conforme me afastava dele, meus ânimos foram acalmando-se. Talvez ele estivesse no navio naquele dia pelo mesmo motivo que eu estava: fazendo-se de companhia para algum passageiro. E quem eu vira conversando com minha aluna não fora ele, mas sim algum outro homem de estatura parecida. Minha memória já não me ajudava, sobre aquele momento, e sua estatura era mediana, podia ser facilmente confundida com algum outro rapaz qualquer.

Assim pensando, minha impaciência finalmente cessou, e a esse ponto, eu já estava me aproximando da ruazinha onde morava. Entrei em um pequeno mercado que havia aí perto, eram vendidos produtos orgânicos por lá. Comprei poucos mantimentos que eu precisava para minha casa: ervas para chás, temperos, um pouco de carne, farinha de trigo, fermento, e ovos. Sempre apreciei comida caseira, e tive tempo e oportunidades de sobra nessa vida para tornar culinária um hobby. Comprei também um pacote de ração para gatos, pois já havia algum tempo considerava ter alguém em minha casa para abonar a solidão que a habitava comigo. Deixei um pouco da ração em um belo, refinado e inútil prato de cerâmica, do lado de fora da porta de entrada da casa, cuidadosamente posicionado para evitar que a porta ou os pés de alguém desavisado dessem-no um destino trágico. Estava dentre os dois grandes vasos que eu tinha ali: um de gerânios em flor, e outro com erva-doce plantada. Entrei na casa e, desde aquele momento até o dia seguinte, tratei de melhorar a bagunça de minha casa, e a bagunça que era minha aparência.

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