IV – Do encontro com Oscar

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.

Havia finalmente chegado o dia pelo qual eu estava tão ansioso, não por ter altas expectativas: mais fácil o contrário, e justamente por isso encontrava-me uma pilha de nervos. Não havia problemas com a admissão de um ou mais pupilos, o que me deixava apreensivo era ter de locomover-me até o centro da cidade. Lugar onde eu haveria de ser avistado por muitas pessoas, mais do que seria considerado saudável em minha posição.

Haverão de convir comigo, senhores, que em grandes aglomerações existem maiores chances de algum possível encontro indesejado. E eu que, não me orgulho disso, já vira e vivera situações cuja simples menção faz qualquer destemido homem ter seus alicerces de bravura sacudidos, agora tinha medo desses encontros indesejados. Por este motivo vivia recluso, em um bairro afastado, procurando ser visto o mínimo possível. Dos encontros indesejados que poderiam suceder-se a mim, nenhum deles era em pouco prejudicial. E sair de minha pequena bolha era aumentar esse risco.

Mas os tempos já são outros, e convenci a mim mesmo de que não precisava temer quase nada, nessa situação. A caça às bruxas já não é tão popular, e de qualquer jeito, eu não estaria caracterizado como uma delas. Desses personagens cotidianos contemporâneos, sempre me intrigaram os grandes adolescentes, como os chamo. São crianças, jovens de 40, 50 anos, que se vestem com uma excentricidade invejável até mesmo para mim. Pensando em um desses comprei minhas roupas para o dia de hoje, e modéstia à parte, acredito que minha caracterização estava bem próxima ao que pretendia atingir.

E qualquer um que me avistasse na rua mal reconheceria Fáris, o recluso e razoável tradutor da velha casa nos arrabaldes da cidade. O Fáris de capote, botas de neve e olhar baixo dera lugar a outro, este usando uma boina de camurça, jaqueta de couro, surradas calças de brim e um coturno mais amigável do que as rudes e pesadas botas de neve. Minha linha de pensamento vagava entre como era confortável a caminhada nesses trajes mais leves e sobre como minha nova faceta de vestuário poderia muito bem ser rebatizada.

E, embora eu admita que não formalize o processo, rebatizar-me a esse ponto já era simplesmente corriqueiro para mim. Mas pouco pude divagar antes de avistar as duas torres em perfeita simetria da igreja central daquela cidade. Um dos poucos refúgios onde os escassos porém imponentes prédios ainda não haviam se estabelecido, permitindo uma visão ampla daquela cidadezinha.

Gostava dela particularmente ao anoitecer, por isso não apreciei tanto a vista logo após o almoço. Já havia visto melhores. Por mais alguns minutos caminhei divagando, e logo estava na porta do café onde Oscar deveria esperar-me. Acreditava que haveria de esperar o rapaz, por isso, não pude deixar de surpreender-me um pouco ao vê-lo sentado na mesa, com algumas pastas e um computador portátil, acenando para que me juntasse a ele. Parecia estar aí havia certo tempo, e não parecia nada desconfortável com isso.

Atravessei a sala sobriamente decorada e com um carregado aroma doce no ar, chegando até a mesa onde estava meu contratante. Sentei-me na cadeira à sua frente, e li o que ele havia escrito de sua história até então. A premissa não era ruim, e o garoto parecia escrever bem, se comparado a outros de sua faixa etária que haviam passado por mim. Passamos um bom tempo conversando sobre suas ideias, e eu não tinha grandes correções a fazer sobre seu material.

Enquanto eu terminava de beber o chocolate que havia pedido – inclusive um dos melhores que tomei desta época, nem se compara aos de antigamente, mas estava relativamente impecável -, pensava em referências para o garoto. Geralmente era o que eu costumava fazer com aspirantes a escritor: que tenham boas referências para sua escrita: são imprescindíveis para uma boa história. Não consegui pensar em nada que se adequasse a seu estilo, então me mantive quieto sobre isso.

Não percebi nada muito incomum quando ele sugeriu conhecer minha casa, muitos dos que eu atendia pediam o mesmo. Concedi-lhe o favor, sendo que já havia organizado o velho chalé, de qualquer jeito. Encontraríamos-nos no sábado seguinte na mesma casa, e talvez até lá eu já tivesse alguma referência para ele. Estava já a ponto de escurecer, então me despedi dele, e ele ainda não parecia tentado a levantar-se da cadeira e recolher seus pertences. Paguei o que havia consumido e saí do café.

Devo ressaltar, caso já tenha dito, que apesar de trabalhar por mero disfarce e sustento, eu gostava de fazer aquilo. Eu legitimamente animava-me quando encontrava algum jovem possivelmente promissor, e buscava me esforçar para que ele conseguisse seu merecido reconhecimento. Por isso, não era incomum tornar meus contratantes estudantes, e meus estudantes pupilos. Muitos escritores ativos nos dias de hoje, garanto-lhes, em algum ponto ligaram-se a mim. A única coisa que não me agrada nisso tudo é ter reconhecimento.

Agora, não posso dizer-lhes se o que sucedeu foi mera coincidência ou se minha Visão havia me ajudado naquilo. O fato é que ao terminar de subir a ladeira que precisava para voltar até minha casa, resolvi sentar-me um pouco, aí na beira da calçada mesmo, e olhar a cidade. Momentos assim inspiravam-me a pensar, e muitas vezes minhas divagações solitárias evitavam-me problemas posteriores. Nesse dia em específico, não havia muito em que pensar, estava minha vida em um período que nem de longe poderia ser tido como turbulento, ou sequer dinâmico. Ainda, assim continuei por quase uma hora – já havia escurecido completamente – quando voltei a rumar em direção à minha casa.

Não fosse meu atraso, provavelmente não teria tido de esperar o sinal que permitia a pedestres cruzar a rua, e por consequência, não se haveria consolidado aquele estranho encontro, ou esbarrão, propriamente dito. Pisando na calçada do outro lado da rua, mal o fiz a tempo de evitar projetar meu corpo contra aquele do sujeito à minha frente. Inevitavelmente olhei-o, e qual não foi minha surpresa ao ver quem era o dono da silhueta: o homem de monóculo. Mais uma vez, aparecendo à minha frente. E mais uma vez saudei-o, e a sensação agourenta, embora mais leve do que em nosso último encontro, voltara a acometer-me.

Tive vontade de perguntar-lhe sobre o navio, mas ele já estava longe. No resto do caminho de casa imaginei uma conversa com ele, e imaginava simplesmente o que eu o falaria, porque nada parecia justificar sua presença na cidade quanto no navio. Não era necessário, porém, que fosse justificada, assim como a minha também não era. Sacudi esse pensamento, então, de minha mente, e voltei a andar em ritmo quase normal, diferente das batidas arrítmicas e descompassadas de meu velho coração.

 

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