V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar

Mas o encontro com o homem de monóculo, figura já recorrente em minha vida, não era tudo que aquela estranha noite tinha para revelar-me. Foi-me um mistério por muito tempo, e custa-me aceitar quem foi o autor de tal feito, até hoje.

Conforme eu ia me aproximando de casa, percebi que não havia nenhum gato em minha varanda. Me sentia absolutamente covarde naquela hora, pois se eu antes havia tomado a presença dos inocentes felinos alarmante, quase como um mau agouro, agora era a ausência deles aí que se tornava perturbadora.

Afinal, o bichinho cinzento que sempre aparecia por lá, e alguns de seus companheiros de espécie, apenas deixariam seu lugar de conforto quando eu chegasse perto da varanda a ponto de pisar nela. Teria alguém estado aí? Ou naquela primeira noite sem garoa em muito tempo meus fieis recepcionistas haviam resolvido divertir-se de alguma outra forma que só é possível nas noites menos úmidas? De qualquer jeito, mantive-me alerta ao pisar em frente à minha porta.

E agradeço a ela se alguma entidade do além-mundo olha por mim, pois nem pude chegar até a maçaneta antes de sentir uma estocada em minhas costas. Aquele casaco de couro era fino, se comparado a meu capote, e provavelmente se não fosse por ele, eu mal haveria sentido aquela estocada puntiforme em minha coluna vertebral. Voltei-me a tempo de ver o atirador, alguém com a testa e parte do rosto ocultos por uma bandana, preparando outro disparo em sua zarabatana.

Eu tinha a certeza que não se tratava de um bandido qualquer. Bandidos não eram comuns naquelas redondezas, e ataques não eram comuns nessa época de minha vida. Corri até ele o mais rápido que pude, mas ao me ver avançando em sua direção, ele também correu perpendicularmente, e entrou por um capão de mato. Infelizmente meu vigor físico já não é tão bom quanto costumava ser na flor de minha idade.

Mal pôde a imagem de meu jovem atacante se desfazer, e a adrenalina em meu fluxo sanguíneo também se desfez. E só então eu comecei a sentir a dor excruciante em minhas costas. Não sei quanto tempo passei desmaiado, mas acordei com um gato cinzento lambendo minha bochecha, e o único resquício de minha dor eram alguns poucos espasmos musculares. Quando pus-me sentado, para depois levantar, vi outro gato com o dardo da zarabatana na boca. Aqueles bichinhos que eu alimentava acabaram salvando minha vida. Ou pelo menos minha integridade.

Voltei para dentro de minha casa, tentei dormir para restabelecer meu corpo, mas estava inquieto demais para tal. Havia anos que eu não me inquietava desse jeito, achei que minha vida como editor estava sendo pacata o suficiente.

Como eu não conseguia dormir, aproveitei um pouco do tempo para colocar em ordem a bagunça de minha casa. Novamente meus livros estavam todos guardados, meus ensaios razoavelmente organizados, a louça limpa, e minha ansiedade ainda não passava. Cruzou minhas ideias procurar um novo pupilo, para assumir as rédeas do que antes era responsabilidade de Margarida.

Mas não era tão fácil achar um pupilo nos dias de hoje. De qualquer jeito, eu sentia que não poderia mais ficar sozinho. E foi então que um velho amigo – bastante velho, diga-se de passagem – fez-se lembrar. Talvez ele fosse a pessoa mais confiável que eu conhecia no momento. Eu precisaria de um pouco de trabalho para encontrá-lo, mas isso era um pormenor. Peguei meus apetrechos – fazia muito tempo que não usava-os – e uma câmera fotográfica. Ela me forneceria um bom pretexto para estar em um cemitério.

Quando terminei de me preparar para sair, dessa vez com meu capote e chapéu, vestido como eu me sinto confortável, percebi que faltava mais de uma hora para que o dia começasse a raiar. Minha casa estava arrumada, e eu estava pronto, então peguei o dardo que estivera em minhas costas, e que eu havia levado para dentro de casa, e comecei a estudá-lo. Internamente, ele tinha o que parecia um circuito que emitia descargas elétricas pela ponta metálica. Isso explicava meu desmaio e os espasmos, e senti-me com sorte por ter afugentado o atacante antes de perder a consciência.

Desmaiado, eu era vulnerável. Agora tinha certeza de duas coisas: seja quem fosse que estava atrás de mim; tinha acesso a tecnologias como as daquele dardo. E me queria morto.

Advertisements