VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.

Saí, mal o dia havia raiado, em direção a um lugar onde eu não gostaria de ter de voltar tão cedo. Faria meu trajeto inteiro caminhando, e por isso, além de meus apetrechos reais e de alguns apetrechos para manter as aparências, eu carregava mantimentos, também. Até porque ele estaria faminto com certeza.

Eu não tinha certeza sobre lembrar da localização daquele estranho cemitério, saí com um mapa na mão. Mas eu sabia que deveria sair da cidade, por um lado perpendicular ao grande subúrbio, e logo ao sair dela, me deparei com um pequeno bosque de árvores baixas. Segundo o antigo mapa, que já de pouco me era válido, sendo que a paisagem lá havia mudado quase totalmente desde a última vez que eu vira o lugar, eu deveria cruzar o matagal até um descampado, e de lá, poderia localizar-me pelas estrelas.

Esperava não precisar delas para achar o caminho, então apressei o passo para sair logo do pequeno bosque. O que era para ser um descampado estava semeado com um trigo verdejante. Amaldiçoei-o por deixar o relevo do terreno difícil de ser reconhecido, e andei em direção a uma elevação rochosa que se destacava na paisagem do bucólico trigal.

Olhar o terreno de cima não resolveu meu problema, em absoluto. Eu continuava avistando apenas as elevações de capim vistoso, por qualquer ângulo que fosse. Resolvi parar e comer, enquanto tivesse alguma ideia melhor para encontrar o que procurava. Comi os três pães de mel que havia levado até lá com os olhos fixos no mapa. Pela posição do sol, ainda faltava um bom tempo para o meio dia.

Enquanto eu cogitava esperar até o início da noite, onde poderia procurar as estrelas da magnífica constelação de Libra para que me guiassem ao velho cemitério, não me recordo bem o que foi que chamou minha atenção. Mas eu olhei abaixo do rochedo no exato momento em que um golpe de vento movia os galhos que obstruíam a luz solar incidente nas rochas, e um brilho de mármore polido prendeu meu olhar por uns segundos.

Desci da rocha em direção ao brilho, apenas para confirmar minhas suspeitas de que eu realmente estivera no lugar certo o tempo todo. Outra das coisas que não sei se posso atribuir à Segunda Visão, ou a mera coincidência. Espanei o pó do mármore, e conseguia ler o epitáfio grafado nela: “Aquele que viajou por todas as faces da terra”. Lentamente comecei a reconhecer o resto do cemitério entre o trigal: As covas rasas, algumas cruzes tímidas, os dois mausoléus defrontando-se, que pareciam eternamente provocar um ao outro.

Eu não tinha muito tempo a perder, então comecei logo a chamá-lo. Acendi uma pequena fogueira sobre uma lápide de pedra, com o devido respeito ao defunto que lá estava, peguei o livro de cânticos, e derramei do meu próprio sangue no mármore branco. Tive certeza que o trigo verdejante e a terra fértil gerariam entropia suficiente para trazê-lo.Por fim, derramei um punhado das cinzas imergidas sobre a fogueira, e foi o suficiente para que elas trouxessem uma cortina de fumaça que escureceu minha vista. Fumaça densa, porém inodora e aparentemente atóxica, afinal, sua maior finalidade era encobrir o ritual. Quando a fumaça finalmente baixou, jazia à minha frente o corpo semianimado d’O Errante dos Múltiplos Planos.

Da última vez que o havia visto, sua forma física passava-me mais confiança. Estirado ao chão em posição fetal, e magro como estava, parecia mais um pequeno ser que pouco faria para defender-me. Eu já sabia por experiências anteriores que o contrário era mais fácil. A verdade é que eu possuía a gratidão do Errante, a um nível que era quase uma amizade pessoal – se não fosse pretensão demais ter uma relação de amizade com alguém de sua hierarquia.

Levantava-se devagar. Trazê-lo a vida em um lugar escasso de recursos como aquele era quase degradante para si, mas humildemente, movendo quase um tendão de cada vez, colocou-se em pé à minha frente. E mesmo a ponto de cair de volta ao chão, fraco e debilitado como se o que eu tivesse tirado de dentro de sua sepultura fosse um cadáver pútrido, e não uma alma vivaz, tomou a nobre atitude de ajoelhar-se a meus pés para saudar-me.

– A que devo esta honra, estimado senhor? Não imagino um motivo pelo qual, depois de tanto tempo, aquele a quem a morte se dobra poderia vir a despertar-me.
– Chame-me Fausto, saudoso amigo.
– Fausto? O saudoso Johann ainda causa-te admiração. Pois bem, se fores Fausto, serei Mefisto. Assim como na última vez.
– Depois de certo tempo algumas coisas não mudam mais, meu caro.
– E isso nos remete de volta à minha questão. O que te trazes de volta ao lugar onde repouso, Fausto? Pensei que havias dito que não mais nos encontraríamos, e eu não mais poderia expressar a ti minha gratidão. Regozijo-me com este encontro, seja quais forem seus motivos.
– Não suporto mais a solidão, Mefisto. Como tu sabes, tenho treinado pupilos, e desde que minha última aprendiz me deixou, há pouco mais de uma semana, tenho me sentido inquieto, preocupado.
– Terei a honra de acompanhar-te, então?
– Exatamente. Também, se me permites dizer isso a ti, que viaja por todos os planos imagináveis, acredito que o mundo chegou em um ponto em que seria interessante que o visse.
– Será um prazer, meu senhor. Estarei às suas ordens, mas antes permita-me restaurar um pouco de minhas forças, pois este solo já não é tão fértil quanto costumava ser há alguns séculos.

O Errante, agora Mefisto, sentou-se no chão. Pareceu entrar em uma espécie de transe, e sua condição física permitia-lhe que fosse facilmente confundido com algum tipo de monge. Lentamente, o trigal ao seu redor, antes de verdume invejável, foi perdendo sua resplandecência. Começou com um pequeno círculo ao redor de si, onde o trigo parecia menos vistoso, e passados poucos minutos, todo o trigo já parecia ter ficado sob uma forte insolação estival.

Pouco tive que esperar para que a plantação inteira, de forma rápida porém gradual, assumisse a condição de tão somente palha seca. Ainda estava abismado com o que acabara de ver Mefisto fazendo, e minha surpresa só aumentou quando o vi erguer-se. Jamais poderia dizer que o que via levantar-se à minha frente era o mesmo homem que eu vira sentar.

Tinha quase dois metros de altura. Seu corpo apresentava músculos perfeitamente desenvoltos, e o tom marrom esverdeado de sua pele havia dado lugar a uma palidez que denotava saúde. Uma longa cabeleira negra havia crescido, descia-lhe abaixo da cintura, e suas unhas pareciam implantes, tal era seu tamanho.

Agora ele lembrava o primeiro Errante que eu havia conhecido, no auge de suas viagens, antes de nosso pacto vitalício, porém, em uma versão melhorada de si mesmo. Aproximei-me dele, e ofereci meu capote para cobrir sua nudez, que ele prontamente aceitou. Não pude deixar de expressar minha admiração.

– Tu me surpreendes, Mefisto. Todas essas décadas te tornam uma casca, e tu voltas à flor da tua idade em questão de minutos.
– Preciso de minha melhor forma para servir-te, bom amigo. Agora, se não te incomodares, podemos rumar ao lugar onde ficas nesta época. Quantos anos se passaram desde nosso último encontro?
– Tua resposta virá quando chegarmos à cidade, Mefisto.

E conversando tão ativamente quanto nossa fala nos permitia, terminamos a breve caminhada por entre a plantação agora seca de trigo, o pequeno bosque, e a rua quase deserta que levava à minha cabana. Encontrar Mefisto, o Errante dos Múltiplos Planos, dava-me segurança, e não posso negar que sentia certa alegria em vê-lo. Mesmo com todas as circunstâncias desfavoráveis, minha decisão, julgo eu, não poderia ter sido melhor.

 

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