VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.

Andávamos pela rua, e pouco falávamos que não fosse sobre o espectro da situação que se projetara sobre mim nos últimos dias. Descrevi a ele o tempo que passei com Margarida, e sobre como ela era a primeira das minhas aprendizes que possuía uma aura elementar, e não apenas de vida, e regozijamo-nos com isso. Poucas das pessoas que possuem essa por si só raríssima aura chegam até as Artes. A maioria delas sente atração por uma vida simples, e com a queda de popularidade do xamanismo, poucas tem oportunidade de descobrir e aprofundar-se nas Artes.

Contei sobre o recorrente homem de monóculo, que me sentia perseguido por ele, por mais que doesse a mim admitir que estava com medo. E também sobre Oscar, embora acreditasse que não houvesse relação nenhuma entre os dois. Não havia nada de mais relevante para que eu contasse de imediato, sendo que nas últimas décadas depois de sua partida pouco que fosse digno de nota havia ocorrido em minha vida. Quanto a ele: também do lado de dentro de uma sepultura pouco acontecia.

Não precisei dizê-lo como estava o mundo, pois quando chegamos até o subúrbio onde eu morava, já pôde ter uma boa noção. Estava impressionado com novas supostas tecnologias modernas – como a máquina de lavar louças, o fogão, a iluminação elétrica e mesmo com a forma dos meus simplórios móveis. Deixei-o esperando por mim no pequeno porão onde eu guardava meus instrumentos, e fui lavar-me.

Desci de meu rápido banho – afinal, sem uma fonte de renda garantida, eu procuraria cortar gastos sempre que pudesse – e encontrei Mefisto manuseando um livro barato com bastante cuidado. Ele parecia ler com interesse, e a expressão de sua fisionomia dizia muito de sua opinião sobre aquele livro. Mal eu terminei de descer a escada, ele começou a falar, talvez irritado, talvez apenas frustrado:

– Fausto, ou a humanidade evoluiu deveras em termos linguísticos, a ponto de que eu não mais a entenda, ou está decaindo a qualidade técnica da produção escrita.
– Ora Mefisto, o que estás a ler?
– É uma história sobre supostos… bruxos. Bruxos de dez anos de idade. Estudam em uma academia. Planam em vassouras. Jogam um esporte com uma bola voadora. Usam varinhas mágicas. Fausto, dez anos de estudo é o que precisa-se para entender as Artes, quem dirá quanto se estuda para dominar as Artes Nobres.
– Mefisto – e não pude conter meu riso enquanto falava-lhe – o que estás lendo não se pode nem ao mesmo classificar como produção literária. É entretenimento infantil.
– E por que tens um desses em sua casa, Fausto?
– Tenho trabalhado como editor, preciso estar atento às tendências da humanidade.
– E a humanidade tende a achar que praticantes de uma forma mal descrita das Artes Nobres utilizariam vassouras para algum motivo que não fosse espanar o chão? Ou varas para algo além de acender o fogo?
– Mefisto, estamos em uma época onde praticamente todos sabem ler e escrever. E ao mesmo tempo pouquíssimos, menos do que em nosso último encontro, conhecem as Artes. Temos menos problemas com manipuladores emergentes, mas em contrapartida nosso contingente é menor, quando precisamos combater algo.
– Compreendo. De fato, imagino que as pessoas não tenham muitos motivos para pesquisar as Artes, este mundo parece oferecer bem mais distrações do que o nosso antigo.
– De fato oferece. Aliás, Mefisto, está para anoitecer, e estou faminto. Seria interessante que fôssemos até o centro da cidade comer alguma coisa, enquanto te adaptas aos novos tempos.

Mefisto concordou, e alcancei a ele algumas de minhas roupas maiores, para que parecesse um pouco menos deslocado de nossos tempos. Depois de cortar suas unhas e prender seus longos cabelos num rabo de cavalo, saímos andando em direção ao centro da cidade, eu usava as mesmas roupas que havia usado no dia anterior.

Ele olhava, maravilhado, para o núcleo luminoso que era o centro daquela cidade. Não era muito grande, de fato, mas para quem vivera num tempo onde lia-se à luz de velas, era como se estivesse em uma das grandes metrópoles deste mundo. Entramos em um restaurante qualquer, pedimos um prato desses de nome extremamente complicado para uma peça culinária relativamente simples, pagamos, e saímos. Demorei algum tempo para fazer com que meu amigo entendesse o funcionamento de certas coisas – como automóveis, elevadores e telefones – mas o Errante não era em nada incapaz, e entendia a maioria das coisas de forma rápida.

Pouco aconteceu, por aquela noite. Permanecemos um pouco na sala, e enquanto Mefisto aprendia sobre telecomunicações observando os circuitos internos de uma velha, obsoleta e defunta televisão de tubo, que pouca falta me faria, eu continuava um pouco de minha pesquisa. Separei alguns escritos arcaicos, talvez Mefisto pudesse traduzi-los para mim mais tarde, e logo senti sono.

Mostrei a Mefisto onde seria seu quarto enquanto permanecesse comigo, e arrumei a cama anteriormente ocupada por Margarida com lençóis limpos. Eu mantinha alguns jogos de reserva em minha casa, que havia ganho de uma antiga tecelã, também por pura gratidão. Vinham bem a calhar quando eu recebia visitas.

Naquela noite, com o Errante dos Múltiplos Planos dormindo no quarto ao lado, pude descansar de um jeito que julgava que nunca mais descansaria: A seu lado, voltava a me sentir desincumbido de minha própria segurança, como se eu fosse novamente um dos pupilos que já havia tempo ensinava. Ao mesmo tempo, sentia-me feliz por conseguir acrescentar um pouco mais de conhecimento em sua bagagem que talvez durasse por mais tantas eras quanto já havia durado até hoje.

 

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