VIII – Da descoberta do Errante.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.

Acordei na manhã seguinte antes mesmo do meu despertador, o sol ainda nem havia raiado. Depois de boas noites de sono, costumava acordar cedo e disposto, pois tinha uma rotina a seguir. Havia poucos ingredientes em casa, então tudo que pude servir a meu hóspede foram algumas panquecas com manteiga e geleia. Deixei a refeição à mesa, e como tinha planos de logo voltar à minha rotina de caminhadas, fui chamar Mefisto em seu quarto.

Surpreendi-me por não ver sua presença na cama, que estava também perfeitamente alinhada, como se ninguém tivesse dormido nela. Pela janela já aberta, eu via luzir os primeiros momentos do que seria um dia ensolarado, e o quarto parecia ter tido um bom tempo para que ventilasse. Supus que Mefisto havia acordado antes de mim, talvez tivesse saído por conta própria, e desci as escadas. Quando cheguei à sala, chamei por seu nome, e ouvi quase no mesmo instante ele subindo as escadas do porão.

– Chamaste, Fausto?
– Chamei, preparei algo para o desjejum, e depois farei minha caminhada matinal. Podes me acompanhar, caso te interesse.
– Pois haverei de acompanhar-te com certeza. Espero que não se importes comigo tomando a liberdade de investigar seus arquivos, quando se dorme pela quantidade de anos que dormi, não se sente sono tão facilmente.
– Eu imagino, meu caro. Estavas procurando algo em específico?
– Não exatamente. Estava olhando os papeis arcaicos dos quais falaste, e existem algumas importantes informações neles, mas conversaremos sobre isso mais tarde, quando eu já tiver traduzido-os mais consistentemente.

Aceitei sua oferta, e fiz pouco caso dos escritos que Mefisto lera pelo resto da manhã. Após o café da manhã, saímos, no meu trajeto habitual. Entrei no mesmo brechó que havia entrado na última vez e comprei algumas roupas novas para meu companheiro, já que tudo que ele tinha era o que eu havia emprestado-o. Comprei um pequeno estoque de comida em um dos mercadinhos familiares, e também um livro de anotações, para manter as traduções dos escritos antigos compiladas, facilitando minha referência a elas.

Escusado dizer que, para Mefisto, aquilo tudo era uma grande novidade, e ele maravilhava-se com a disponibilidade das lojas e rapidez de seu atendimento, achava incrível não precisar tirar suas medidas para confeccionar roupas, e até mesmo o fato de vestirmos roupas padronizadas. Uma coisa interessante sobre o Errante, descobri, é que ele empolgava-se com qualquer coisa que podia aprender. Mesmo tendo vivido sob uma variedade infinita de condições, durante sua longa e inconstante vida, ele ainda manifestava uma espécie de curiosidade infantil a cada coisa nova que via.

Parávamos em quase todas as lojas com algum tipo de componente eletrônico pelas quais passávamos no caminho até o porto. Porto que não o surpreendeu, visto que ele estava acostumado com o transporte marítimo. Eu ainda não havia contado-lhe sobre o transporte aéreo, amplamente utilizado hoje em dia. Ao ver um helicóptero ajudando a estabilizar a carga de um dos navios no porto, perguntou-me como poderia haver um guindaste com força suficiente para erguer um veículo a tal altura.

Não precisei perder muito tempo com explicações: como já disse, Mefisto entendia conceitos rapidamente. Antes de começarmos o caminho de volta, a conversa já havia mudado, e ele dizia não entender a necessidade de usarmos o ar como meio de transporte, sendo que navios conseguiam fazer seu serviço muito bem. Não quis discutir com ele, preferia deixar que descobrisse as coisas por si mesmo, como eu sabia que ele gostava. Mesmo que eu quisesse ter seguido com a discussão, não teria sido possível.

Porque vindo em nossa direção, avistei o homem de monóculos. Seu semblante parecia mais relaxado hoje, mas ainda assim senti um arrepio na espinha ao passar por ele. Agora, ainda não sei o porque dele causar-me tanto receio. Talvez eu tivesse mais medo de estar sendo vigiado, de haver a possibilidade de uma ameaça sobre mim, do que das próprias consequências desta ameaça.

Esperei que nos afastássemos a uma distância seguramente inaudível para ele, e indiquei-o a Mefisto. Ele sorriu de meu medo, disse-me que ficasse tranquilo, que o estranho homem era incapaz de causar-me qualquer mal, estando ele por perto ou não. Sentia-me inclinado a confiar no que Mefisto dizia, apesar de que provavelmente sentiria medo se tornasse a encontrá-lo.

Logo voltamos a casa, e já sendo quase a hora em que costumava almoçar, coloquei um grande naco de carne já temperada, que havia acabado de comprar, no forno. Dirigi-me à sala, e Mefisto já estava imerso nos estudos daqueles antigos documentos que eu lhe havia dado.

– Fausto, lembra-te da última vez que estivemos juntos? Daquele diabrete arrogante?- ele perguntou, depois do curto silêncio que denotava sua concentração.
– Lembro-me, Mefisto. Por que a pergunta?
– Lembra-te de como fizemos para expurgá-lo de volta aos domínios das trevas?

Pensei por um curto período de tempo. Eu não lembrava, de modo algum. Lembrava do inconsequente jovem – quase uma criança – manipulando almas como se fossem brinquedos, lembrava-me de quando as almas saíram de seu controle, lembrava de ter extraído as almas e posto-as de volta em seu descanso eterno. Mas não lembrava da expurgação – que era a única forma pela qual livrávamos-nos de almas impuras.

– Não faço ideia, Mefisto. Como fizemos?
– Bem, não houve expurgação nenhuma naquele dia, Fausto.
– Não?
– Não. A expurgação foi moralmente abolida entre os praticantes das Artes há séculos. Por ser uma punição em demasiado severa, e por não haverem almas impuras a serem expurgadas. O que fazíamos a elas era simplesmente uma purificação, nós restaurávamos a bondade eminente de todas as almas.
– Então o ritual que conhecíamos por expurgação?
– Não bane almas deste plano, apenas força as sombras a deixá-la. É, de acordo com nosso cânone, uma purificação. Pois bem, nestes escritos arcaicos, Fausto, há o manual da verdadeira expurgação. Aquela que foi proibida por um consenso entre todos os praticantes, quando eles ainda uniam-se para discutir as Artes.
– E o que posso fazer com ele? Devo comunicar a meus conhecidos?
– Não, Fausto. Vou traduzir estes escritos, existem algumas cláusulas nele, além das instruções, e tu deves guardá-lo tão bem quanto conseguir. E jamais revelar sua existência a ninguém.

Eu ainda não entendia a magnitude daquilo que ele havia acabado de desenterrar de meus velhos arquivos, mas estava deveras ansioso para ler o conteúdo daquele documento. Pois a expurgação era considerada como o ritual de maior nível das Artes Obscuras, e não podia ser desfeito por nenhum outro usuário, por mais hábil que fosse.

O tempo parecia não passar após o almoço, enquanto Mefisto mantinha-se praticamente catatônico, movendo apenas suas pálpebras e suas mãos, escrevendo compulsivamente, embora em um ritmo de tradução lentíssimo. Acompanhava seu serviço de perto, afinal, inconscientemente havia feito o que eu começava a sentir que seria uma grande descoberta.

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