IX – Dos dias de calmaria.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
IX – Da descoberta do Errante.

Em algum ponto durante seu segundo dia de trabalho – comigo sempre por perto -Mefisto de repente ergueu os olhos de seu atento serviço, olhou-me e disse em tom grave que a tradução demoraria mais do que o esperado. Não podia culpá-lo por isso, até porque mesmo o Errante não poderia saber todas as linguagens faladas por praticantes das Artes, quem diria traduzir um texto de uma delas para outra tão diferente.

Pediu-me também por todos os livros de linguística que eu tinha em casa, e para providenciá-lo disto, demorei mais tempo que o que seria realmente necessário. Talvez meus arquivos não estivessem tão organizados quanto seria ideal, e assim que entreguei meus livros empoeirados sobre aquelas línguas antigas a meu companheiro, deixei-o na sala e voltei ao porão.

Comecei a organizar meus arquivos imediatamente: removi todas as edições, novas e antigas, das prateleiras, separei os livros que estavam com páginas soltas ou que precisavam ser passados a limpo devido à idade de suas páginas, e coloquei os que estavam em boas condições de volta nas prateleiras, escrevendo um índice conforme o fazia.

Minha coleção não era muito grande, mas demandava cuidado. Portanto, ao final de uma semana em que só parava para descansar, fazer caminhadas e refeições, havia acabado de organizar os arquivos e reparar os livros antigos. Dois deles eu teria que reescrever, então levei-os até a sala, onde o incansável Mefisto continuava imerso em seu serviço. Ele dizia estar próximo de terminar a tradução, e eu guardava certa ansiedade em ler o escrito.

Sentia-me como se um trabalho importante tivesse sido realizado, e meus olhos ardiam por causa da exposição à baixa luminosidade dos últimos dias e noites, então recolhi-me a meu quarto para descansar um pouco. Acabei rendendo-me ao sono, e acordei no meio daquela noite. Desci até a sala onde Mefisto deveria estar, e o vi dormindo no sofá. Peguei alguns biscoitos para disfarçar minha fome e passei na sala, para espiar de longe como estava indo o trabalho de Mefisto. Pude ver que a pilha de papeis ao lado do caderno já era pequena, ele talvez terminasse antes do esperado.

Voltei a meu quarto, liguei o velho gramofone sem nem saber qual era o disco de vinil que se encontrava dentro dele, e deitei na cama, esperando até sentir sono para terminar o resto da noite. Afinal, eram raras as oportunidades que eu tinha para descansar tanto tempo. Acordei um pouco mais tarde do que a hora de costume, na manhã seguinte. O sol já havia nascido quase totalmente, e eu desci para minha caminhada.

Ao passar pela sala, surpreendi-me um pouco com Mefisto já acordado, trabalhando. Ele falou comigo sem tirar os olhos do papel:

– Bom dia, Fausto, onde vais?
– Bom dia, Mefisto. Vou para minha caminhada, como sempre.
– Se puderes aguardar alguns minutos, acompanhar-te-ei hoje. Só preciso comprar algumas roupas.

Esperei poucos minutos enquanto ele subia as escadas e descia, já vestido como um habitante de nossos próprios tempos: Usava uma calça larga cinzenta de moletom, uma camiseta regata e um casaco de moletom, mais escuro do que sua calça. As roupas que ele havia escolhido encaixavam em seu porte físico de maneira convincente. Saímos andando daquele jeito, e embora ainda estivéssemos um tanto longe do final do inverno, ele parecia não se incomodar com o frio.

– Fausto, há algo que me pegou de surpresa nos documentos que estou a traduzir.
– Explique melhor, por favor.
– Bem, entrelaçadas entre as páginas que possuem as instruções e cláusulas da expurgação, existem algumas outras páginas. Consigo perceber que são mais recentes que o velho contrato, e estão escritas em uma linguagem bem mais próxima do que aquela que usamos desde minha época.
– Esses documentos, em sua maioria, são guardados por mim da mesma forma que são recuperados. Talvez o dono anterior tenha feito algum tipo de confusão, ou não era deveras organizado.
– Muito provavelmente. Mas há uma pequena chance, Fausto, que tenhamos uma grande pista sobre uma irmandade oculta de praticantes das Artes.
– Mas… Isso é uma ótima notícia, meu caro Mefisto. O que tem naquelas páginas que te causa essa suspeita?
– Eu pulei as páginas de aspecto novo enquanto traduzia o escrito sobre expurgação. Quis traduzi-lo de forma ordenada. E mal comecei sua leitura ainda, mas pelo que eu entendi, aquelas páginas são relatos de um expurgador, que tinha plena ciência de estar agindo contra a moral de sua própria classe. Fausto, contabilizei mais de quinze nomes, e apenas nas primeiras páginas.
– Não é possível, tivemos um de nós atuando em segredo, por quanto tempo?
– A forma mais acurada de se estimar é a idade do papel e da grafia de seus escritos. Deve ter no mínimo cento e cinquenta anos.
– Então…
– Não tomemos conclusões precipitadas, Fausto. Antes pretendo analisar os escritos a fundo, para apenas depois especular. Por hora, é isso. O tratado sobre expurgação está praticamente inteiro traduzido.

Eu não tinha mais o que dizer sobre a conversa, e estávamos quase chegando ao porto. Minhas expectativas, tanto para ler sobre a expurgação quanto sobre aqueles possíveis novos usuários das grandes Artes, estavam altíssimas. Mas não gostaria de pensar sobre elas nesse momento, então mudei a conversa.

– Mefisto, sinto-me envergonhado. Chamei-te de volta ao mundo por mera companhia, e agora tudo o que tens feito é trabalhar para mim.
– Não diga isso, meu caro. Sentia saudades do mundo aqui fora, e estou gostando de viver nele. Afora isso, se realmente existirem outros usuários dos quais não temos conhecimento, minha presença será fundamental.

Concordei com ele, e pouco conversamos até que chegássemos em casa novamente. Ele voltou a seu ofício, traduzindo os antigos escritos, e após o almoço, passei o resto do dia cuidando de pequenos afazeres da casa. Meus arquivos estavam limpos, e seria uma pena se o resto da casa destoasse da organização. Fui dormir tranquilamente, para que no dia seguinte pudesse começar a restaurar os livros que separara dos outros. Escusado dizer que dormi tranquilamente, era o efeito colateral que tempos de calmaria exerciam sobre mim.

 

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