X – Do segundo encontro com Oscar.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.

Como os leitores já devem ter percebido, minha rotina não abria muito espaço a variações. No início daquele dia, após voltar de minha caminhada, peguei meus instrumentos de restauração: agulha, linha, cola, vernizes, estiletes; e um grande livro em branco, e dirigi-me até a sala. Usei a mesa de centro para trabalhar, já que Mefisto ocupava o sofá.

Já era quase no fim da tarde, e eu havia recém terminado de refazer a costura de um velho e ultrapassado livro sobre métodos medicinais quando meu velho telefone tocou. Mefisto sobressaltou-se com seu barulho, e eu fui atendê-lo de prontidão. Quem me ligava era Oscar, perguntou se poderia visitar-me no dia seguinte, para mostrar o andamento de seu livro. Fingi não ter ouvido sua proposta sobre visitar-me, e sugeri que nos encontrássemos no mesmo café da vez anterior. Sua voz havia soado um tanto frustrada ao concordar.

Avisei Mefisto de que sairia no dia seguinte, e ele pediu se poderia ficar em casa trabalhando. Concordei com a ideia, já que seria difícil soar convincente ao apresentá-lo para Oscar. Consegui costurar mais um livro inteiro antes de recolher-me para a noite, e Mefisto continuava impassível, trabalhando continuamente, parando apenas de vez em quando, para alimentar-se.

Parti novamente pelo mesmo caminho que havia feito há algumas noites atrás com o Errante a meu lado, agora, porém, sozinho. Não sabia o que esperar de Oscar, mas estava com boas expectativas: O garoto dominava bem a linguagem, não tinha maiores problemas quanto a ela, mas sua premissa de história parecia extremamente previsível. De qualquer jeito, não pensei muito nisso. Aproveitei a brisa fresca que parecia fria demais sem meu grosso casaco, e mal prestei atenção no caminho.

Entrei novamente no estabelecimento, o típico cheiro de café, chocolate, e frituras leves estava impregnado no ar. Oscar estava sentado na mesma mesa que estivera da última vez, mas continuou imerso na tela de seu computador, nem ao menos levantou os olhos até que eu estivesse praticamente sentando na cadeira.

Nada de muito produtivo saiu de nossa conversa, não sobre seu livro. Estava desenvolvendo o enredo, pouco eu poderia fazer sobre isso; e sendo sua escrita tecnicamente satisfatória, pouco eu poderia fazer sobre ela também. Tomei meu chocolate quente, havia realmente apreciado essa bebida, e quando fiz menção de levantar-me para ir embora, Oscar me chamou de volta

– Senhor Fáris, você se importa se eu for até sua casa da próxima vez que precisar conversar contigo?
– Não entendo por que queres trocar o conforto desse ambiente pela palidez de minha casa. Não está bom que nos encontremos aqui?
– Bem, eu gostaria de conversar com você em um lugar menos tumultuado, acho que funcionaria melhor para mim. Além disso, não gosto de andar com todos os meus apetrechos, em sua casa, posso levar meu texto em um pendrive e usamos seu computador para ler ele.
– Eu não tenho nenhum tipo de computador, meu jovem. Podes ir à minha casa se quiser, mas terá que levar seu equipamento, de qualquer jeito.

Ele aceitou minha condição, e ele viria até minha casa na quinta-feira da semana seguinte, exatos oito dias depois. Racionalizava comigo mesmo que enquanto o Errante estivesse em minha casa praticamente em tempo integral, não havia muito que eu precisava temer. Aliás, se bem me recordo, nem pensava em temer alguma coisa por parte de Oscar. Era paranoia minha, infundada.

Voltei até em casa, e nada fora do comum aconteceu no caminho de volta. Entrei pela porta da frente antes mesmo da lua tornar-se a maior fonte de luz, e daquele fino e constante orvalho das úmidas noites invernais. Havia um gato cinzento na frente de casa, acreditei ser o mesmo que havia me reanimado no dia que fui misteriosamente atacado. Resolvi parar aí mesmo, em minha humilde e apertada varanda, e acariciar um pouco o pobre animalzinho.

Apesar de ser normalmente assustadiço, o bichano não fez nem questão de levantar-se, ou mesmo mudar sua posição sobre o corrimão de madeira envernizada – como se dissesse que estava confortável demais para isso. Acariciei seu lombo de leve, passei minha mão sobre sua cabeça, e aí cocei o pescoço dele, como eu sabia que todos os felinos costumavam gostar.

Ele virou sua cabeça para cima, como se pedisse por mais carinho, e nesse momento eu percebi a forma como ele me olhava. Gatos não são os animais mais expressivos que existem, pelo menos não por seu focinho, mas ele parecia me olhar de uma forma grave. Como se soubesse de algo que eu precisasse saber.

Perguntava mentalmente a mim mesmo o que aquele gato estava querendo dizer-me. Repreendia a pergunta, pensando se não seria pretensão demais achar que ele tentava dizer algo. Mas aquele olhar, eu nunca havia visto em felino algum antes. Ele estava bem nutrido e também parecia muito bem cuidado. Mas mesmo que pudesse estar com fome, ou carente de afeto, não era isso que seu olhar denotava.

Talvez, pensei, ele queira dizer-me algo e não consegue expressar-se verbalmente. Talvez esteja tentando avisar-me alguma coisa, pensei, sabendo tratar-se do raciocínio mais fácil de todos, e talvez baseado totalmente em algum tipo de paranoia à qual estava submetido. Como se lesse meus pensamentos, o gato fitou meus olhos, deixou sua posição original e, com aquela elegância natural a todos os felinos, pulou para baixo da varanda. Antes de sumir em meio às árvores que circulavam minha casa, olhou para trás. Mas não expressava mais nenhum tipo de gravidade em seu olhar. Agora, parecia assertivo comigo.

Deixei minha jaqueta no cabide que possuía no pequeno vestíbulo, e entrei para a sala. Encontrei Mefisto brincando com a velha televisão de tubo. Ele parecia completamente imerso, tal qual estava em seus estudos anteriores, mas ergueu sua cabeça assim que percebeu minha entrada.

– Bem vindo de volta, meu caro Fausto. Terminei a tradução do tratado sobre expurgações, mas ainda não consegui ordenar e traduzir as outras páginas. Deixei-o aí em cima da mesa, se quiseres dar uma olhada.

 

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