XI – Da arte perdida da expurgação

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.

Quando eu passei por minha iniciação às Artes Ocultas, ainda lembro claramente de meu professor e meu treinamento, a última coisa que ele tinha a me ensinar, disse ele, era a expurgação. Este seria o ritual máximo a ser ensinado, mas deveria ser utilizado com cuidado, por ser permanentemente irreversível, sem qualquer exceção conhecida.

Não existem muitos motivos coerentes para que se expurgue alguém do mundo. A pessoa deve ter uma alma essencialmente obscura. Caso seja sensível qualquer traço de pureza, a expurgação não deve ser usada. Ao invés disso, usa-se a purificação, que trata-se do expurgo da carga sombria de uma alma.

Eu valia-me da purificação regularmente, e, de acordo com Mefisto, não havia usado nenhuma expurgação enquanto usuário das Artes. Na única vez que me recordava tê-lo feito, quando um autointitulado diabrete passou do limite em suas brincadeiras como a cada vinte ou trinta anos algum sempre insistia em fazer, Mefisto acabara de corrigir-me: havia sido apenas uma purificação.

O fato é que expurgadores nunca foram bem vistos. Estudando-se as Artes Ocultas, você percebe que existe a um estrito código de ética entre seus usuários, e expurgações são consideradas anti éticas por eliminarem a possibilidade de redenção. A Comunidade acredita sempre na redenção antes da punição, e os mestres passam isso a seus discípulos. É injustiça chamar-nos de bruxos, ou qualquer coisa do gênero. Nós apenas procuramos outros recursos para encontrar algum tipo de paz.

E por isso a expurgação foi banida quase completamente entre a comunidade. Tanto que a maioria dos usuários de minha geração não sabem executar uma. Na verdade, acredito que tenha deixado de ser ensinada há tanto tempo que não há nenhum vivo que a domine. Lendo o documento que Mefisto traduzira, eu pude entender finalmente como funcionava a expurgação.

Tratava-se pura e simplesmente de restringir uma alma de voltar a qualquer tipo de plano superior. Aquela alma ficaria condenada para sempre a andar pelos mundos inferiores, e, como eu já disse, expurgos não podem ser desfeitos por ninguém. E, apesar de sua curva de aprendizado ser lenta, não é difícil de ser executado. Talvez por isso, por sua simplicidade, se comparada às consequências, ele deixou de ser ensinado.

Pelo menos era o que pensávamos. Alguém escreveu o ritual de expurgo, juntamente com as cláusulas de seu uso, naqueles papeis corroídos pelo tempo, que diziam ter sido escritos havia muito tempo, e tendo Mefisto traduzido tais escritos, ele agora poderia ser facilmente executado por mim. Eu só precisava aprender, absorver todo o conteúdo daquele texto.

O texto começava com um termo de abdicação de responsabilidade por parte de seu escritor, identificado apenas como Mead. Dizia que estava apenas salvando conhecimentos importantes da extinção, e que não endossava a prática do que seria ali descrito. Depois, ele escrevia sobre o ritual do expurgo em si, sobre como ele tecnicamente funciona, quais são as forças envolvidas, e uma descrição detalhada do que é necessário para executá-lo. Ela incluía os antigos mantras solenes de expurgação, objetos ritualísticos, sacrifícios, e, nas últimas páginas, possuía algumas teorias de como poder-se-ia possivelmente desfazer expurgos e tornar suas vítimas de volta à vida.

Percebia, então, que talvez o expurgo fosse mantido como uma última solução não por falta de recursos, mas sim por desinteresse entre os usuários das Artes. Afinal, manter um muro intangível entre os planos superiores e os usuários era a garantia de uma certa segurança, soberania de nossa parte. Caso alguém ameaçasse a Comunidade, poderia ser facilmente silenciado para todo o sempre.

Acho que é necessário clarificar agora alguns conceitos que são usados nas Artes. A esse ponto da história, vocês já devem saber o tipo de vida que eu vinha levando, e o tipo de uso que eu dava às Artes Ocultas. Acredito que possam saber finalmente do que se tratam as tão mencionadas Artes, sem ter sua opinião influenciada por preconceitos.

Alguns tem um preconceito irreversível contra o ocultismo em geral. Acreditam que se louva a entidades malignas, como numa espécie de religião transviada. Na verdade, os praticantes das Artes Ocultas não louvam. O que fazemos é simplesmente estudar. E o que é maligno é maligno a todos, não somente a um tipo de religiosos. Pois bem, alguns campos de estudos não são promovidos por academias, nunca foram, e até hoje não o são. Entre esses campos – e talvez o mais avançado deles, atrás apenas das Nobres Artes – existem as Artes Ocultas. Nós estudamos os caminhos.

Caminho é um eufemismo metafórico. Partimos do princípio de que o binarismo “vida e morte” é insuficiente para descrever o estatuto do ser humano na existência. As pessoas costumam definir alguém que deixa de viver como absolutamente morto. E esse é o problema da vinculação deste binarismo: a existência não é tão simples.

Nossa primeira ação é a destituição completa de estados de vida ou morte. Resumimos nossa condição à mera existência, relativa a um dos diversos planos. Nenhum plano é nomeado individualmente, mas existem os planos superiores e os planos inferiores. O mais alto deles e o mais baixo são decisões eternas: não se pode sair deles, uma vez dentro. Quanto mais próximos ao centro da existência, mais fácil é a locomoção entre planos.

O centro da existência é o que algumas religiões definem como limbo, ou purgatório. É seu primeiro destino entre a vida e a morte. Estamos um plano acima deste, compreende o quão fácil é deixá-lo? E por isso o estudo das Artes Ocultas começa por lá. Não gosto da palavra “necromante”, pois seu prefixo insinua a existência de uma morte, mas o que se estuda pode assim ser rotulado por leigos. Manipulamos almas e elementos entre um e outro plano.

Obviamente, estando em um universo instável, não é difícil perder-se em meio aos vários planos. E por isso, antes de ser introduzido às Artes, o estudante deve purificar, neutralizar sua alma o máximo que puder. Para que nem a força da escuridão, nem a sedução da luz possam arrastar-nos aos extremos da corrente.

Afinal, só existiu até hoje uma entidade que conseguiu quebrar a regra e sair dos planos em extremos da existência à seu bel-prazer, e justamente por isso, ficou sendo conhecido como O Errante dos Múltiplos Planos. Exceto por ele, arrisco-me a dizer que ninguém mais conseguiu tal façanha. Por esse motivo a expurgação possui uma aura de restrição: Ela envia almas até o último dos planos, para cima ou para baixo.

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