XII – Da vinda de Oscar até minha casa.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.

Acredito ter sido claro em minha sucinta explicação sobre o porque da descoberta de Mefisto ter sido tão valorizada por mim, e espero poder acrescentar um pouco mais de conhecimento aos que se interessam por meu relato.

Haviam ainda alguns dias antes da chegada de Oscar, e pouco fizemos, eu e Mefisto naqueles dias. Caminhadas pela manhã, com ele andando cada vez mais imerso em seus pensamentos e menos interessado em manter uma conversa; tardes e noites em que ele trabalhava continuamente, e nas quais eu ficava preparando alguma coisa em casa para evitar levantar dúvidas em Oscar sobre minha real personalidade. Mas o fato de tê-lo como companhia já me deixava mais seguro, e desde a partida de Margarida, eu me sentia cada vez menos protegido enquanto sozinho.

Na quinta feira, Oscar apareceria logo após o meio dia, então segui minha rotina normalmente pela manhã. Realoquei Mefisto para que trabalhasse no quartinho onde dormia enquanto Oscar permanecesse na casa, o que ele obedeceu sem parecer desgostado, e tirei todas as evidências de que eu não seria um simples livreiro de minha sala de estar.

Pouco antes da meia-tarde, ele chegou. Estava vestido a rigor, pouco diferente da primeira vez que eu o vira, me saudou de uma forma mais protocolar do que amigável, e já adentrou-se para dentro do vestíbulo. Eu apreciava sua vontade de trabalhar, mas não gostava de sua falta de etiqueta ao ser recebido como hóspede. Convidei-o a sentar-se em meu sofá, no lugar onde antes Mefisto ocupara, e ele logo abriu seu computador portátil e mostrou-me um texto de alguns pares de páginas.

– É isso que tenho pronto até agora, senhor Fáris. Não sei se você pode me ajudar, preciso de algum elemento revolucionário para colocar na história.
– Revolucionário, Oscar?
– É, uma virada de trama que pegue todos os meus leitores desprevenidos, talvez eu poderia fazer esse necromante ser atacado pelo próprio diabo, que se sentiria ameaçado…
– Acho que não é bom mexer com assuntos polêmicos tal qual a religião, jovem.
– Necromantes então são desvinculados da Igreja?

Tive que controlar-me para não dar uma aula sobre as Artes Ocultas a ele ali mesmo. Começava a me perguntar por que, de todos os temas interessantes que a literatura contemporânea permite que sejam explorados, ele foi escolher logo um necromante, mas não verbalizei a pergunta, isso atrapalharia seu processo criativo.
– Não sei sobre necromantes, Oscar, mas não é uma boa ideia vincular conceitos religiosos em um livro. Você provavelmente irá causar desagrado, ou por usar um tema apelativo, ou por possivelmente ser mal-interpretado.
– Entendo, deixar a igreja de fora, então… O que posso escrever sobre um necromante?
– A ideia principal do livro é sua. O que queres com ele, em primeiro lugar?
-Eu quero revolucionar a literatura contemporânea, e, é claro, ficar famoso por isso.

Suspirei, talvez meu interlocutor tivesse ouvido o suspiro, talvez não. Fiquei alguns minutos em silêncio, buscando palavras para não parecer agressivo com meu cliente – qeu, aliás, eu nem sabia se ele me pagaria, no fim das contas – e contei mentalmente até dez antes de voltar a falar

– Devias se preocupar primeiro com a construção da história, depois com a projeção dela. Já tens um personagem: seu necromante, onde queres que ele chegue no contexto da história?
– Então, ele começa a conversar com os mortos, e aí…

Havia travado na fala. Parecia estar pensando em alguma coisa, mas eu guardava minhas dúvidas quanto a essa hipótese. O resto da tarde não foi muito diferente, mas confesso que simpatizei com ele: O jovem tinha vontade de escrever, e fazia-o de forma relativamente desenvolta. Precisava de uma ideia, e de bastante prática.

Não tendo muito o que fazer, já que meu foco era antes a edição do que a assistência criativa, combinei com ele que me encontrasse na próxima semana, também em minha casa, e já com algum tipo de material pronto. Emprestei a ele um livro moderno que tinha comprado e não lembrava o porque, continha alguns exercícios enlatados para escritores amadores, mas já ouvira relatos de que havia sido útil para outros clientes que tive.

Assim que ele saiu de casa, parecendo que gostaria de ter ficado mais, fui até o aposento de Mefisto e chamei-o para que descesse de volta à sala. Levou seus papeis e canetas de uma só vez escada abaixo, e assim que se pôs de volta ao sofá, parecendo tão confortável quanto antes, olhou sério para mim e começou uma conversa, algo que não o via fazer havia dias.

– Fausto, já encontrei companhias mais agradáveis do que esse rapaz debaixo de sete palmos de terra.
– Mefisto? Por acaso você o viu? Como? – Não podia negar que estava surpreso, mesmo sabendo tratar-se do Errante dos Múltiplos Planos.
– Não o vi, apenas ouvi. Não compare minha audição com a sua, Fausto.
– Não esperava menos de ti, Mefisto. Mas porque achaste o jovem desagradável?
– Da última vez que me confrontei com um escritor, admito que foi há muito tempo atrás, ele conseguia convencer com suas ideias sem ao menos tentar. O jovem Oscar tenta convencer com as ideias, porém sem conseguir.
– Leve em consideração o rapaz, Mefisto! Hoje em dia são poucos os que se interessam em produzir conteúdo literário, o fato dele ter interesse já é um grande avanço. Ademais, esse foi tão pouco quanto nosso segundo encontro. Garanto que em pouco tempo ele será capaz de produzir trabalhos de um nível técnico no mínimo satisfatório.

Mefisto sorriu, balançou a cabeça, e voltou a se afundar no manuscrito.

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