XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.

Eu havia ainda uma semana e pouca fé, antes de Oscar voltar com mais uma parte de seu trabalho. Continuava ocupando meu tempo com tarefas básicas de casa e algumas leituras, especificamente sobre expurgos, e logo achava que já poderia começar a praticá-los.

Foi na tarde do primeiro sábado após a vinda de meu cliente em que realmente pude perceber alguma aflição na face de Mefisto. Meu amigo parecia deveras incomodado, como se não aguentasse mais trabalhar na longa e exaustiva tradução do manuscrito antigo. Perguntei a ele se precisava de alguma coisa, ao que ele respondeu com um grunhido mau-humorado. Foi então que percebi que deveria tirá-lo de dentro de casa, pelo menos por algumas horas.

Havia um parque de diversões na cidade, periodicamente um carro de som cortava o silêncio absoluto em que a rua de minha casa era imersa para lembrar-me deste fato. Talvez fosse um bom programa para mim e para Mefisto, e ele provavelmente saberia do que se trata, sendo que da última vez em que havíamos nos encontrado, eles já eram realidade.

Estranhamente, ele não ofereceu resistência em sair de casa. Saímos caminhando em direção ao parque, que, assim como o resto da cidade, ficava um tanto longe de minha casa. Como eu acredito já ter mencionado, ambos não tínhamos nenhuma objeção a caminhadas e programas que as envolvessem. Já havíamos peregrinado por muito tempo, não nos custava sair para andar numa tarde de clima ameno.

Eu sentia muita curiosidade em saber como estava seu trabalho de tradução, quando faltava-lhe terminar para que eu finalmente pudesse ler o que diziam os manuscritos, mas achei melhor não perguntar, afinal, havia convidado-o para que saíssemos justamente para evitar que ele pensasse sobre o trabalho, pelo menos por algum tempo.

Felizmente não precisei tocar no assunto. Mefisto começou a falar, após um breve silêncio no início da caminhada.

– Fausto, não sei o quanto demorarei com o manuscrito. A linguagem em que ele está escrito, que pensei se tratar de uma versão arcaica da língua geral, é praticamente um código criptografado.
– E você não tem tido sucesso em suas tentativas de decifrá-lo?
– Infelizmente não. Estava baseando-me em uma palavra, o nome Nopq, mas pelo visto até mesmo ela é criptografada. Não estou conseguindo quebrar o código de dentro para fora, acredito que precisarei de fontes externas.
– Que tipo de fontes, Mefisto?
– Não sei. Qualquer tipo de livros, dicionários, toda a informação possível de ser obtida sobre códigos antigos já será um grande adendo. Talvez usando livros sobre as Artes eu também consiga rastrear algum tipo de padrão.
– Podemos ir até a biblioteca da cidade na segunda feira. Talvez haja algum documento arcaico lá. E podes utilizar meus arquivos também, talvez haja algo útil por lá.
– Muito bem, meu caro Fausto, haverei de fazê-lo. Mas por enquanto, regozijemo-nos neste agradável passeio, mais tarde considerarei as possibilidades.

E caminhamos até o parque de diversões. Não é como se eu esperasse que estivesse muito divertido lá dentro – pelo menos não era essa minha ideia de diversão – mas pelo menos poderia dar um pouco de descanso a meu amigo, e, não nego, a mim mesmo. Estava precisando deixar minha casa por algum tempo, nem que fosse tão pouco quanto uma tarde.

Pouco fizemos no parque, como já era esperado, além de devorar algumas guloseimas por lá, pequeno luxo que havia tempo eu não dava a mim mesmo, e observar o funcionamento de alguns brinquedos. Eu percebia os olhares tortos de algumas mães e pais de crianças que lá brincavam, mas já entendia que minha aparência provavelmente tornava sua desconfiança uma espécie de auto defesa, então relevei-os.

Logo antes de escurecer resolvemos voltar a casa, ainda teríamos que comprar algo para jantarmos. Compramos alguns pedaços de carne em uma das únicas mercearias que ainda se encontravam abertas àquela hora, e rumamos a casa. Estávamos na direção contrária à do porto, em um ponto que ficava mais ou menos na metade do caminho entre minha casa e o parque de diversões. Em pouco tempo entraríamos na via de acesso ao bairro onde eu morava.

E antes mesmo de chegarmos à via, naquela avenida que apesar de larga encontrava-se absolutamente vazia, vi um homem aproximando-se de nós. Conforme chegava mais perto, reconheci tratar-se do homem de monóculos. Estava determinado a saber qual era seu paradeiro, e o porque dele estar me seguindo, então, quando ele chegou certo o suficiente, parei-o.

– Com licença, meu bom senhor.

Ele virou-se para mim, sem pronunciar uma palavra sequer. Apenas olhava fundo em meus olhos.

– Estou falando com você. Como é seu nome?

Nenhuma resposta de sua parte.

– Fausto, vamos embora. – Mefisto pediu-me calmamente, mas eu estava determinado a não deixá-lo ir embora sem uma explicação.

– Senhor, se não se importares, gostaria que me respondesse. Quase esbarramos um no outro algumas vezes, e já deparei-me contigo por diversas vezes nos últimos dias. Por que me segues?

O homem de monóculos, de um jeito que poderia facilmente tirar-me de minha sanidade, pouco caso fez de minhas perguntas. Bem pelo contrário: Virou-se para o lado oposto e continuou seu caminho num passo um pouco mais rápido que antes. Já me preparava para avançar em sua direção quando fui segurado por meu amigo.

– Deixe-o, meu caro Fausto. Como viste, ele é nada mais que inofensivo, pelo menos nessas condições, a nós.
– Mefisto, quero saber sobre ele. É relevante que eu saiba sobre qualquer que me segue, e tu deverias me ajudar nisto.
– Não precisamos de violência desnecessária, meu bom amigo. Acredito que se por acaso ele atacar-nos primeiro, poderemos revidar, mas garanto que isso não irá acontecer.
– Eu já fui atacado antes, e não fosse pelos gatos que cercam minha casa, estaria morto, ou sabe-se lá o quanto pior teriam sido as consequências.
– Mas agora não estás mais sozinho. Se atacarem-te, eu estarei por perto. Agora deixe-o ir e vamos voltar a casa.

Só então Mefisto soltou meu ombro, que havia segurado para que eu não fosse atrás do homem de monóculo, como era minha vontade. Naquela noite, não me senti seguro o suficiente para dormir tranquilo como havia nas noites precedentes.

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