XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.

Passamos o domingo todo como o resto dos dias: caminhadas, refeições e trabalho. Eu estava lendo alguns romances, campeões de venda, e cada vez mais me sentia desestimulado a continuar nesta atividade. Mediocridade literária desanima-me no mundo moderno, e, infelizmente, é uma realidade.

Na noite de domingo, quando estávamos prestes a nos recolhermos, Mefisto bateu à porta do meu quarto. Pediu se eu me importaria em acompanhá-lo até o centro da cidade no dia seguinte, e aceitei na hora. Sairíamos à tarde, e eu pretendia apresentar a ele a biblioteca e alguns antiquários, que poderiam ter aqueles livros antigos que ele tanto precisaria.

Para minha surpresa, nossa primeira parada foi numa loja de eletrônicos de segunda mão. Ele procurou vários aparelhos de rádio analógicos, televisões de tubo e outros tipos de aparelho que não imaginava que alguém neste mundo ainda fosse fazer questão de possuir. Levou também algumas apostilas de cursos técnicos, de estilo faça você mesmo sobre eletrônica.

Confesso que considerei tudo muito estranho vindo de alguém que tinha passado anos e anos praticamente fora do mundo, mas não o questionei, afinal, era ninguém menos que o Errante dos Múltiplos Planos, eu acreditava que ele saberia o que estava fazendo. Com seu porte físico avantajado, não teve dificuldade em levar as duas grandes caixas recheadas de velhos aparelhos eletrônicos.

Depois da loja, mostrei a ele onde ficava a biblioteca. Estávamos de frente a um prédio de tamanho médio, uma instalação clássica ricamente ornada, com várias pilastras ao seu redor. O prédio parecia uma refazenda de algo mais antigo, e precisávamos subir uma grande escadaria, tão larga quanto sua fachada, para atingir a porta. Ao entrarmos lá, a bibliotecária demonstrou estar levemente assustada com o porte físico de meu amigo, ainda mais pelo fato dele estar carregando duas caixas que provavelmente se não o tivesse visto com elas debaixo dos braços, acreditaria ser humanamente impossível que fossem carregadas. Perguntamos se havia alguma referência sobre linguagens antigas, e ela indicou-nos a sessão de pesquisa da biblioteca.

Seu acervo era um pouco maior que o de minha casa, e por vivermos em uma época onde a mídia impressa ficava cada vez mais obsoleta, quase todos os livros lá existentes eram antigos. Nenhum, porém, abordava estudos linguísticos. Meu amigo questionou-a sobre existir algum tipo de armazém, ou arquivo onde era preservado o acervo mais tradicional, e ela pediu que aguardássemos por um momento.

Eu me distraía olhando algumas revistas que estavam expostas em uma sessão devidamente catalogada da estante mais próxima à porta e Mefisto se distraía espiando dentro de suas caixas quando a atendente voltou à biblioteca com uma chave na mão.

– Senhores? Nós possuímos um acervo histórico, mas inicialmente apenas funcionários podem entrar lá. Me digam o que vocês querem que eu posso consultar o acervo.
– Senhorita – Mefisto adiantou-se – infelizmente, não posso dizer-te o que quero, pois nem mesmo eu tenho certeza do que procuro. Não há possibilidade nenhuma de que eu tenha acesso a seu acervo, que tenho certeza ser riquíssimo?
– Bem, algumas exceções já foram abertas, mas somente para pesquisadores ou historiadores. Se você não sabe o que procura, pode me dizer por que está procurando?
– Ele está comigo – eu falei – Fáris Wolfgang, editor independente.
– Senhor Fáris! Já ouvi falar de você, podem entrar então. Estão em algum tipo de pesquisa?
– Sim – respondi – estamos reinterpretando documentos antigos, e gostaríamos de novas fontes sobre linguística e etimologia.
– Garanto que é um nobre trabalho. Venham por aqui.

Ela nos conduziu, através de uma porta, para um corredor estreito, que terminava numa razoavelmente longa escadaria em caracol. Tudo parecia bem cuidado, apesar de ser deveras antiquado.

– Vocês estão descendo até a primeira instalação desta biblioteca. Tudo aqui é, tirando uma e outra pequena reforma, exatamente como foi construído há mais de duzentos anos. Esta biblioteca foi desleixada pelas autoridades por três décadas, e depois que um novo governo assumiu, há pouco mais de vinte anos, achou que a biblioteca antiga estava ultrapassada, mas ao mesmo tempo, lá dentro existia a memória de quase dois séculos. Decidiram construir a nova biblioteca, que é onde estávamos antes, e manter uma espécie de arquivo, com acesso restrito e aspectos como umidade e iluminação do ambiente controlados para conservar melhor as obras. Infelizmente, ou felizmente para nosso arquivo, pouca gente se interessa por velharias.
– Bom, acabaste de encontrar dois interessados – eu disse, com um sorriso.
– É um prazer. Agora, antes de abrir a porta, peço que vocês calcem as luvas e as mangas plásticas, e usem essa máscara e essa touca, para evitar danos aos livros e possivelmente reações alérgicas de sua parte.

O lugar era muito mais interessante que a biblioteca acima. Depois do rigoroso esquema de segurança, passamos pela porta de ferro cuidadosamente destrancada pela bibliotecária, e deparamo-nos com um grande salão de chão acarpetado. Próximas à entrada haviam algumas grandes mesas de estudo, com direito a astrolábio e a uma representação do globo terrestre. mais adiante, haviam as estantes. E como haviam estantes.

Livros de toda a sorte, desde grandes obras de romancistas até diários de viagem de confecção única. Gostaria de ter tido mais tempo para explorar o lugar, mas infelizmente logo tivemos de deixá-lo, pois o sol já estava perto de se pôr e ainda nem estávamos a caminho de minha casa. Deixamos o lugar após pouco mais de quinze minutos, onde mal tive tempo de me ambientar ao ar seco e clima ameno do salão enquanto Mefisto procurava na seção de cartilhas instrucionais algo relativo à linguagem misteriosa manuscrita no documento que havia em minha casa.

Deixamos a biblioteca comigo assinando um termo de responsabilidade sobre quaisquer danos que viessem acontecer ao arquivo enquanto Mefisto estava lá dentro, e a promessa, de sua parte, que voltaria para estudar com mais calma aqueles vastos arquivos. Rumamos à nossa casa, onde chegamos após ter escurecido. Mefisto queria voltar até lá no dia seguinte, disse lembrar o caminho, e eu concordei com a ideia. Não me atrevi a pedir explicações sobre sua aquisição de eletrônicos, muito menos sobre onde ele havia encontrado dinheiro para tal, mas provavelmente de nada me resolveria: seus pensamentos estariam em outro lugar agora.

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