XV – Da pesquisa de Mefisto

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.
XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.

Na terça feira, logo pela manhã, Mefisto saiu de casa com seu enorme caderno de anotações, já preenchido até a metade. Iria até o acervo antigo da biblioteca, e disse que preferiria fazê-lo sozinho. Concordei que fosse, já que ele era o próprio Errante dos Múltiplos Planos, não haveria de perder-se em uma pequena cidade provinciana.

Eu continuava imerso em minha leitura, andava lendo o tratado sobre expurgo várias vezes ao dia, e tentava concentrar-me nele.Em pouco tempo, começaria a treinar esta técnica em algum cemitério das redondezas. O arrabalde da cidade onde eu vivia não era totalmente urbanizado, e era usado para abrigar alguns pequenos cemitérios, provavelmente memórias de sua colonização. Em alguma das noites, iria a eles treinar com Mefisto.

Quando percebi que pensamentos inquietantes estavam prestes a dominar minha mente, resolvi recolher-me e dormir um pouco. Eu estava cansado, e não havia muito por fazer antes da hora de minha caminhada rotineira. Logo antes das cinco horas, porém, Mefisto entrou em casa, e o som da porta se abrindo acabou por acordar-me. Havia um semblante feliz no seu corpo, e para ele estar sorrindo daquele jeito, imaginei que sua pesquisa no dia de hoje havia sido frutífera. Ele andou até a sala e sentou-se, ainda parecendo irradiante.

– Mefisto, como foi sua pesquisa?
– Foi tão boa quanto poderia ser, meu caro Fausto. Existem vários escritos antigos – alguns ainda em pergaminhos – sobre linguística naquele lugar. Apenas não aprofundei-me no assunto por lá por não ter uma cópia do texto. Mas tenho certeza que vi alguns caracteres no lugar. Acredito que logo saberemos do que se trata o texto.
– Isso são ótimas notícias, amigo! Trouxeste algum dos antigos textos para casa?
– Infelizmente não deixaram-me retirar escritos do acervo, o que é justo, visto seus esforços para sua conservação. Mas permitiram que eu passasse meu tempo por lá se levasse uma cópia de meu texto, acredito que haverei de transcrevê-lo entre hoje e amanhã.
– Não haverei de atrapalhar seu serviço então, meu caro. Vou partir para minha caminhada por conta própria, há mantimentos na geladeira, caso esteja com fome.

Mas eu duvidava que meu amigo fosse ser acometido pela fome enquanto estivesse absorto na transcrição do texto. Caminhei até o porto, e antes que pudesse chegar a ele, a noite já havia baixado sobre a pacata cidadezinha onde eu vivia. Voltei em um passo um pouco mais acelerado, e em um ponto da caminhada, logo depois que eu havia deixado o porto que apresentava pouquíssima atividade por esses dias, tive quase certeza de ter visto o homem de monóculo vindo em minha direção.

Lembrei do que disse Mefisto em nosso último encontro: ele era simplesmente inofensivo. Então passei reto, olhando fixo para ele, ver qual seria sua reação. Eu não me considero – e nessa época, menos ainda – um homem frio, mas não me sentia de forma alguma intimidado por ele. Considerava-o meramente um outro pedestre, alguém que simplesmente dividia o espaço da rua comigo. Ele ergueu sua cabeça, e ao avistar sua fronte eu tive certeza por um instante de que aquele homem não me machucaria em momento nenhum. Ele possuía um olhar sereno, eu poderia até mesmo dizer reconfortante.

Me senti legitimamente feliz pelo resto da caminhada. Não aliviado, embora talvez fosse a causa de minha alegria, mas simplesmente feliz. Como me sentira já havia muito tempo. Ao chegar na frente de casa, haviam dois gatos: o cinzento, esperando ração ao lado do comedouro que havia-lhes instalado lá por perto, e um preto sentado sobre a calha da velha casa. Entrei, reabasteci de comida o pote do gato, e voltei para dentro. Não passei muito tempo na sala, logo fui dormir, com uma sensação de leveza percorrendo meu corpo.

No dia seguinte, aconteceram algumas coisas não relevantes e uma mais importante. Eu, além de seguir minha rotina usual, terminei de ler o grande livro que havia comprado, e sentia cada vez menos vontade de continuar acompanhando o mercado literário. Ou pelo menos de não acreditar em listas de campeões de vendas.

A parte realmente interessante do dia iniciou-se quando Mefisto entrou em casa, pisando firme.

– Fausto! Consegui encontrar a sorte de alfabeto que é utilizada neste documento.
– Fizeste isso de forma rápida em absoluto, Mefisto. E qual é a linguagem em que foi escrito nosso enigma?
– É uma forma de código antiga, porém eficaz. O texto está escrito em um idioma latino, adaptado em caracteres sânscritos estilizados. Guiando-me pelos caracteres sânscritos, eu chegaria tão perto quanto um amontoado de fonemas irrisórios.
– E como descobriste a relação entre os escritos sânscritos e o alfabeto latino?
– No verso de uma das folhas, a que eu acredito ser a última, do nosso escrito, há uma lista dos caracteres sânscritos utilizados em nosso manuscrito. Acontece que eu consegui encontrar um outro documento, um diário de viagens, que utilizava os mesmos vinte e seis caracteres.
– Mas isso não explica como conseguiste traduzir o alfabeto.
– Algumas palavras referenciavam notas de rodapé, que continham a tradução da palavra sânscrita em caracteres latinos.
– E você traduziu um documento de mais de trinta páginas baseado em notas de rodapé?
– Durou-me a tarde inteira, mas agora tenho uma chave completa para finalmente descobrir do que trata seu velho manuscrito, Fausto.

Eu já tinha visto a genialidade e determinação do Errante em ação, mas não pude deixar de surpreender-me com sua capacidade de desenvolver uma solução eficiente para o problema.

– Trabalharás em casa a partir de agora então, Mefisto?
– Não, Fausto, tenho mais algumas coisas que preciso averiguar naquele arquivo. Acho que passarei a próxima semana por lá, de manhã à noite. Tenho certeza que conseguirei traduzir o escrito, mas tem outra coisa que desejo investigar naquele lugar.

Concordei com meu amigo, mas precisaria de uma concentração muito forte para controlar minha ânsia de saber o que aquelas velhas e amareladas folhas de papel guardavam a meu interesse. Fui dormir e acordei no horário habitual na manhã seguinte, mas percebi que Mefisto já havia deixado a casa.

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