XVI – Do próximo encontro com Oscar.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.
XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.
XV – Da Pesquisa de Mefisto

Pouco diferente do habitual, Oscar tocou a velha campainha de minha residência. Não passava muito do meio dia quando ele chegou, o que me causou um lampejo de animação, seja porque eu estava colocando uma certa esperança no livro que Oscar estava escrevendo, ou mesmo por meu estado de espírito daquele momento estar radiante.

Como da última vez, ele entrou em casa sem muita cerimônia, abancou-se em um de meus empoeirados sofás e ligou seu computador. Antes de começar a analisar seu trabalho, resolvi voltar ao tópico que havia sido deixado pendente na semana anterior, na esperança de que ele já houvesse solucionado tal pendenga.

– Então, Oscar, como conversávamos na semana passada, qual é a ideia geral que desejas passar através do livro?
– Eu pensei sobre isso, e acho que o que mais quero dizer é que a morte não é pra sempre.
– Certo, partir disso já é um bom começo. E qual será o modo com que você vai abordar o assunto? Cômico? Trágico?
– Pretendo utilizar os dois recursos, para não transformar ele num livro chato, ou coisa assim.
– Muito bem. E o que escreveste até agora?
– Na verdade, eu estou primeiro preocupado em desenvolver um personagem interessante o suficiente. O que você sabe sobre necromantes?

Senti um ímpeto de responder aquela pergunta honestamente, mas controlei-o. O melhor que eu poderia fazer era me fingir de desentendido, ou apresentar-lhe dados de senso comum. Poderia contribuir de forma bem mais construtiva com ele, mas não gostaria de ser fisgado a revelar sobre as Artes, não para alguém como ele. Eu acreditava que ele pouco entenderia, e acabaria espalhando qualquer coisa que eu gostaria que não fosse dita, ou que fosse dita o mínimo possível.

– Necromantes… Pouco se sabe sobre necromantes, além de que muito provavelmente o que exista sejam apenas charlatões.
– Mas existe algum tipo de lenda que fala sobre eles, não? – ele perguntou, num tom quase decepcionado.
– De fato, existem. Os próprios xamãs são, de certa forma um tipo de necromante. Eles basicamente se… comunicam com demônios e seres do mundo inferior, e possuem uma insaciável vontade, quase necessidade de tirar a vida de tudo que enxergam. Não são vistos durante o dia, geralmente saem à noite, e até hoje são perseguidos por caçadores de bruxas.
– Até hoje? Eles existem, então?
– Não, não, foi modo de dizer, Oscar. Mas tu podes tomar uma liberdade poética e inventar alguns parâmetros para teus necromantes.
– Como assim?
– Livros não precisam condizer totalmente com a realidade para serem convincentes. Depende de como cada aspecto é trabalhado. E falando nisso, como anda sua história? Gostaria de saber o enredo dela.
– Bom, eu escrevi três versões do que pretendo que seja o primeiro capítulo dela, gostaria de ler?

Aceitei a oferta do garoto, e antes de começar a leitura, fui até minha estante que ficava na sala, com os livros menos obscuros, e dei-lhe um exemplar de Fausto, de Goethe. Talvez fosse ajudá-lo a escrever de uma forma um pouco mais desenvolta, além de possivelmente dar-lhe alguma luz sobre a figura do necromante, e como abordá-la.

Voltei ao sofá, peguei o computador das mãos dele, e comecei a ler. Três versões, cada uma com pouco mais de duas páginas, haviam sido escritas por ele. Sua escrita, devo admitir, estava bem mais meticulosa do que anteriormente era, ele parecia realmente ter-se dedicado ao serviço desta vez.

As três eram basicamente a mesma coisa: Uma curta descrição física do personagem principal, junto com o lugar onde ele se encontrava. Nada muito original, devo admitir, mas o modo como eram descritos os elementos e situado o personagem era praticamente impecável. Em verdade, acredito que dificilmente eu teria maior êxito do que o garoto naquelas descrições.

Apontava-lhe algumas críticas pontuais, baseando-me nos rascunhos que ele me mostrava, quando casualmente olhei para fora de casa através da grande janela e percebi que já havia escurecido. Achei melhor encerrar sua sessão por aí mesmo, antes que Mefisto chegasse e criasse possíveis indagações por parte de meu cliente. Perguntei a ele como e quando seria pago, e ele respondeu prontamente com um pequeno maço de cinco notas, dizendo-me que seria apenas a primeira parte.

Feito isso, ajudei-o a arrumar suas coisas, e conduzi-o até a porta. Disse que voltaria na quinta-feira seguinte, quando eu esperava que ele me trouxesse uma quantidade maior de material em que eu pudesse trabalhar. Não estava gostando nem um pouco da experiência de auxiliá-lo durante a criação de sua história, e não apenas editá-la quando já estivesse escrita, mas o jovem Oscar, como já ressaltei antes, era promissor. Então relevava qualquer coisa relativa à estafa que me proporcionava toda a função de auxiliar seu processo de criação, e pensava apenas na possibilidade de lançar um possível bom escritor que aliviasse a desgraça que é o mercado editorial popular dos últimos tempos.

Pus-me então, após contar o dinheiro e calcular mais ou menos o quanto ele haveria de durar-me (praticamente um mês de mantimentos, e isso era ótimo), a preparar o jantar. Logo Mefisto voltaria, e provavelmente estaria faminto. Temperei um grande pedaço de carne de frango e pus no forno. Depois, voltei à sala e peguei na mão novamente o tratado sobre expurgo. Pretendia sair para treinar o método na próxima sexta-feira ou sábado, sendo que no final de semana a biblioteca era fechada totalmente e o Errante poderia me acompanhar em minha pequena expedição.

Quando Mefisto regressou, contrariando minha expectativa, ele não demonstrava o mínimo sinal de fome. Me cumprimentou brevemente e logo sentou-se no sofá, voltando a concentrar-se em sua leitura. Fiz meu jantar, não sem antes avisá-lo de que estava servido, e saí para procurar os instrumentos que precisaria para os expurgos que precisava treinar.

Não foi difícil encontrá-los, sendo que eu havia deixado-os no mesmo lugar de sempre, escondidos sob um fundo falso em meu porão, após ter trazido Mefisto de volta à vida. Interrompi brevemente a leitura de Mefisto para perguntá-lo sobre sua disponibilidade ao fim da semana, e ele concordou em treinar comigo em algum dos cemitérios próximos na noite seguinte. Dirigi-me a meu quarto, então. Depois da excruciante tarde com Oscar, eu precisava de descanso para aproveitar ao máximo o dia e a noite seguintes.

 

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