XVII – Da técnica do expurgo.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.
XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.
XV – Da Pesquisa de Mefisto
XVI – Do próximo encontro com Oscar.

Como havia sido no dia anterior, quando acordei na manhã de sexta feira o Errante já havia deixado a casa. Comi alguma coisa como um rápido desjejum e logo saí para minha primeira caminhada no dia. Com o sol já alto, voltei a pisar em casa, onde três dos meus pequenos amigos felinos esperavam-me, famintos ou carentes. Acariciei seus pescoços e voltei para dentro de casa, de onde retornaria com o pequeno prato deles recheado de comida.

Os pobres animaizinhos pareciam não ter visto comida nenhuma nos últimos meses, pois tão logo eu coloquei o prato deles no mesmo lugar de sempre, entre os dois vasos de flor, saltaram ávidos sobre ele, como se fosse a última refeição de suas vidas. Fui para dentro de casa, aproveitei para estudar mais um pouco o Tratado sobre Expurgos, e depois fui ter certeza de que todos os apetrechos de que precisaria mais tarde estavam a postos. Eles de fato estavam, e eu não precisava de muitos materiais físicos para executá-lo.

Para que uma alma fosse expurgada, primeiro se deveria garantir que o corpo não voltará para nosso plano, no intermediário. Para isso, usa-se um símbolo desenhado com uma substância derivada da prata em algum ponto do corpo que abriga a alma a ser expurgada. Pode-se fazer isso depois, mas para alguns adversários, uma brecha de cinco segundos é suficiente para que ele reapodere-se de seu corpo.

Uma vez que o corpo estiver devidamente selado, se extrai sua alma. É mais simples do que parece, para usuários das Artes. O que não é simples é a parte seguinte: deve-se usar sua própria força de alma para empurrar a alma de quem vai ser expurgado através dos planos, seja para os superiores ou inferiores. Mas em praticamente todos os planos, a vítima está passível de voltar. O mero transporte compulsório entre planos chama-se exílio.

A diferença é que o expurgo vai empurrar a alma indesejada até um dos dois planos extremos: O Grande superior ou o Grande inferior. Passar a eternidade em qualquer um dos dois é igualmente torturante.

Porém, obviamente um movimento tão poderoso implica altos riscos. Além de baixar a guarda de seu usuário, já que praticamente toda a sua força estará concentrada em empurrar a alma inimiga, ele não pode ser revertido depois de executado. Se algo der errado e acontecer algum expurgo por engano, a vítima estará morta em nosso plano e em todos os outros, com exceção daquele ao qual foi enviada. Por esses motivos, é um recurso proibido na maioria das situações.

Ao invés dele, costumamos usar a purificação. A purificação se trata de uma espécie de exílio, e funciona de forma a ampliar a essência da alma da vítima, exilando a parte possivelmente obscura. Também é um procedimento arriscado, pois muitas vezes a essência compõe uma ínfima parte do que é a matéria de alma, e tirar dela o que chamamos de impureza pode enfraquecer a pessoa e deixá-la vulnerável à ponto de vida ou morte.

Por isso a técnica da purificação é utilizada apenas quando o alvo em questão teria capacidade para lidar com ela. Já o expurgo foi banido completamente. O que acontece é que não se pode controlar um ritual meramente proibindo seu ensino. Então o banimento trata-se simplesmente da ocultação de referências técnicas, e de desencorajar sua utilização em códigos de ética. Obviamente, algum usuário ou estudante das Artes com ideais ou interesses malignos não estaria interessado em códigos de ética. Acreditava que seria importante que eu soubesse sobre o expurgo, para não ter um recurso a menos em caso de conflito. Confesso que estava me tornando um tanto paranoico após o incidente com o homem de monóculo.

Eu ainda tinha a prata em minha mochila de instrumentos, e não preciso entrar em detalhes sobre os motivos da prata ser um elemento chave nas Artes Ocultas principalmente, que lidam diretamente com a passagem. De qualquer jeito, o material mais importante eu tinha lá, junto com uma lata de pigmento vermelho altamente pressurizado, para poder riscar no chão. As artes ocultas, como vocês devem imaginar, confia muito nas inscrições como forma de conjuração, e se feita com os materiais certos, pode conduzir energias extracorpóreas tão bem quanto o próprio corpo ou matéria de alma de um de nós.

Pois bem, arrumei meus instrumentos e ainda tinha a tarde inteira pela frente, antes de iniciar meu treinamento à noite. Peguei um livro, e depois de uma tentativa frustrada, desisti de ler. Minha mente estava inquieta demais para tal atividade, achei melhor simplesmente manter-me ocupado em algum serviço manual.

Saí de dentro de casa, procurando algo que pudesse consertar, e logo deparei-me com a calha de casa. Os gatos que por aí passavam eventualmente tinham maltratado-a a ponto de estar quase caindo. Peguei uma escada que estava do lado da casa, alguns pregos e um martelo e me pus a pregá-la de volta na borda do telhado. Terminei em relativamente pouco tempo, antes ainda que o dia virasse noite.

Entrei em casa e lavei-me, depois aproveitei o tempo que ainda tinha antes da chegada de Mefisto para olhar um mapa que eu mesmo havia cartografado, em todo meu amadorismo, assinalando os principais pontos que tangiam a meu interesse na região: antiquários, templos religiosos e cemitérios, e escolhi três deles que ficavam mais próximos à minha casa. Como eu acredito já ter mencionado, vivia em um bairro afastado, que antes de ser valorizado como residencial, era um arrabalde onde estavam instalados cemitérios e propriedades rurais.

Quando Mefisto chegou, pouco tivemos que fazer além de jantar e combinar, de forma rápida, como seria o treinamento. Provavelmente passaríamos a noite toda fora de casa, e não poderíamos executar o expurgo mais de uma vez em cada cemitério. Em caso de problemas, sermos caçados por algum tipo de autoridade, ou coisa do gênero, tomaríamos rumos diferentes e nos encontraríamos em frente à biblioteca. Eu finalmente podia voltar a usar um de meus capotes, e me surpreendi mais uma vez com a praticidade de seus bolsos.

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