XVIII – De meu treinamento.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.
XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.
XV – Da Pesquisa de Mefisto
XVI – Do próximo encontro com Oscar.
XVII – Da Técnica do Expurgo.

Pouco demoramos para chegar ao primeiro cemitério: Andamos até e avenida na qual a rua de minha casa começava, e caminhamos até a próxima rua na direção contrária à do centro da cidade. O que estava na nossa frente era um cemitério antigo, parecia estar abandonado há algumas décadas, pois pestes e vinhas cresciam pelo chão e sobre as tumbas.

Mefisto começou a falar-me o que ele sabia sobre o expurgo, e não era muito mais do que aquilo que eu já havia lido anteriormente nos papéis amarelados. Confirmando que eu já sabia as condições de uso desse recurso, ele pegou de minha bolsa um dos bastões de pigmento concentrados, e começou a traçar um círculo que me era muito familiar sobre a terra.

– Aqui está, Fausto, um círculo de conjuração. Espero que o tempo não tenha enferrujado-te, e ainda consiga conjurar e invocar almas.
– Ora… – Respondi à sua pergunta provocativa já preparando meus aparatos. Usei-me de dois cristais resplandecentes daquele minério que era cuidadosamente polido e lapidado por nós mesmos, estendi minha mão sobre o círculo traçado no chão, e procurei concentrar-me na onipresente entropia do universo. Em poucos segundos, conseguia sentir sua concentração ao redor de mim. Ínfimas quantidades nas regiões onde, estimava, seriam os túmulos, uma quantidade maior na direção de Mefisto, e nenhuma sobre o círculo que ele havia desenhado.

Talvez mais lentamente do que o ideal, e com certeza mais lentamente do que em meus tempos áureos, começava a projetar alguma entropia agitando as partículas de terra sob mim. Era um movimento quase imperceptível, mas o material colorido do qual eram feitos os bastões que eu usava para marcar o chão conseguia absorver e canalizar boa parte dela. Sentia a cinética convertendo-se em potencial, e quando uma boa quantidade havia-se juntado, acredito que pouco mais de um minuto havia passado, concentrei-me na forma humana.

Aquela energia potencial juntada, que agora emitia um pálido brilho lilás a partir do material de cor escarlate, logo começava a converter-se em matéria. Carbono, fósforo, cálcio, matéria viva. E poucos segundos foram necessários para que ela se convertesse em uma forma humanoide, pouco menos robusta do que eu mesmo. Não estava perfeita, admito, mas naquelas condições, eu não conseguiria fazer o meu melhor.

– O velho Fausto, em seu corpo envelhecido, ainda se prova capaz. Agora, a invocação. Apressa-te, não podemos demorar muito por aqui.

Eu estava preparado para o rigor do exigente Errante, e uma vez que o corpo estivesse pronto, eu precisava apenas invocar uma alma. Invocar uma alma era a parte fácil: não era muito diferente de chamar uma pessoa. Eu estava pronto para qualquer uma que aparecesse, então simplesmente abri um portão para os planos superiores, valendo-me do mesmo círculo riscado por Mefisto no chão. Não demorou muito para que uma alma qualquer entrasse no corpo, e ela parecia confusa sobre o que estava acontecendo.

– Eu sabia que poderia estimá-lo o quanto quisesse, caro Fausto, e não estaria exagerando. Agora vamos levá-lo daqui até o próximo cemitério.

Andávamos pela remota e escura estrada, e pouco demoramos para chegar até o outro cemitério, ainda na direção contrária à minha casa. No caminho, a criatura ensaiava algumas palavras, mas parecia ter perdido o dom da fala há tempo demais para que recuperasse-o repentinamente.

Entramos no segundo cemitério, este parecia ter um aspecto um pouco mais atual. Haviam várias pequenas capelas, e muitas tinham apenas uma ou duas gavetas com a indicação de que nelas havia um esquife. Tinha também um pequeno capão de mato nas redondezas.

– Agora, Fausto, expurgue-o para o Grande plano superior!

Eu não tinha certeza de que conseguiria fazer isso, mas precisava tentar. Fui até o pequeno corpo humanoide que hospedava aquela alma antes vagante, e em pouco tempo arranquei-a do corpo, tão fácil como havia sido para mim invocá-lo. Agora deveria movê-la até o plano Superior. Havia um código de ética entre os estudantes das Artes: todas as almas utilizadas em treinamentos ou experiências deveriam ser banidas para planos acima de onde haviam sido encontradas.

Tinha lido, talvez até mais do que o necessário, sobre expurgos, então já sabia, teoricamente, como realizá-lo. Eu deveria ascender – metafisicamente falando – até sentir-me gravitado em direção ao Plano. Deveria deixar a alma na área de gravitação e concentrar o resto de minhas forças para projetar-me de volta ao plano onde anteriormente estava.

O expurgo apresentava riscos para mim, também, por isso absorvi toda a entropia que pude antes de atirar-me com aquela alma desencarnada em direção ao plano superior. Superior e inferior são denominações meramente poéticas: os planos entrópicos colocam-se antes de uma forma horizontal alinhada. Quando finalmente senti que algo puxava todas as minhas energias em sua direção, deixei a pobre alma lá. Pegar meu caminho de volta foi duro, senti parte de minha energia sendo simplesmente arrancada de mim, e quando consegui recompor-me para o plano onde estava meu corpo, estava exausto.

O Errante dos Múltiplos planos olhava para mim, com um misto de orgulho e surpresa. Eu me sentia cansado, mas acho que poderia fazer aquilo mais uma vez, se tentasse.

– Me admira que ainda estejas em pé, Fausto. Não é raro que usuários desta técnica acabem no chão após usá-la. Esse é um dos motivos pelo qual há tanta relutância sobre ela.
– Então por que usá-lo, Mefisto? Há um risco de que eu também seja expurgado, já que eu mal pude escapar da gravitação do plano superior.
– Existe uma segunda forma de expurgo, Fausto. Pense na lógica da expurgação: usa-se de sua alma para conduzir a outra até o plano. Há um jeito de fazê-lo sem arriscar seu próprio corpo, através de uma das técnicas mais básicas das Artes Nobres.
– Artes Nobres? – à menção delas, pareceu-me óbvio demais o raciocínio de Mefisto – deves estar falando da projeção astral. Mas como posso fazer isso? Um reles ocultista não pode aventurar-se no território das Nobres Artes, Mefisto!
– E tu não és tão pouco quanto um reles ocultista, Fausto. Os únicos expurgadores dos quais ouviu-se falar estavam acima de grande parte da Nobreza. E tu conseguiste fazê-lo sem esgotar-te a ponto de perder a consciência.

Pela primeira vez eu via a estrita relação entre as Artes Nobres e as Artes Ocultas. Saber que algo tão simples quanto emitir minha energia de alma era considerada uma projeção astral deixara-me mais disposto ainda a aprender o resto. Mas Mefisto lembrou-me que ainda não tínhamos acabado com meu treinamento, e seguimos para o próximo cemitério. Esse ficava um pouco mais distante, e eu sentia-me cada vez mais ansioso para alcançá-lo.

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