XIX – Do desafio do Errante.

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.
XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.
XV – Da Pesquisa de Mefisto
XVI – Do próximo encontro com Oscar.
XVII – Da Técnica do Expurgo.
XVIII – De meu treinamento.

Ao chegarmos até o terceiro e último cemitério que visitaríamos naquela noite, tive que contentar-me por alguns minutos em assistir o Errante dos Múltiplos Planos desenhando um círculo, o mesmo círculo que havia desenhado antes, no chão deste cemitério. Este, porém, enquadrava praticamente o terreno inteiro do cemitério dentro de sua grande circunferência. Passava por cima de túmulos e pequenas capelas fúnebres, coisa que Mefisto, com seu porte físico relativamente avantajado conseguia levar a cabo sem dificuldade.

Quando finalmente terminou o círculo, olhou rapidamente ao redor e apenas quando teve certeza de que nada se aproximava por nenhuma das direções é que foi prestar atenção em mim. Estava há uns vinte passos de distância, quase no centro do cemitério, e disse-me, sua voz soando tão imponente quanto costumava ser:

– Fausto, ataque-me.
– Perdão? O que dizes? – eu não acreditava em meus ouvidos.
– Ataque-me. Como se sua própria vida dependesse disso.
– Mefisto, não posso atacar-te. Se eu me segurasse na luta, acabaria morrendo. E se tu se segurasse, quem morreria seria tu mesmo. De qualquer jeito não é uma boa ideia.
– Não irei me segurar, mas não haverei de machucar-te também.
– Isso não é necessário, Mefisto.
– É parte do seu treinamento, Fausto. Ataque-me, expurgue minha alma como fizeste há pouco, e tranque meu corpo para que eu nunca mais volte a ele.
– E depois? Ficarás exilado para sempre no plano Superior?
– Não te esqueça que sou o Errante dos Múltiplos Planos. Haverei de voltar. Só não saia deste cemitério sem mim.
– Acho que podemos… – fui interrompido antes de terminar minha fala por uma estridente vibração, que parecia ressoar dentro de meu cérebro, e não adentrá-lo pelo lado de fora.
– Se tu não pretendes tomar a iniciativa, então quem ataca sou eu.

O Errante dos múltiplos planos começava a demonstrar fazer jus à sua fama. Eu mal conseguia organizar meus pensamentos com o tilintar de sua ressonância no fundo de meu cérebro. Resolvi revidar, eu sabia que o único jeito de evitar que sua ressonância causasse-me danos era fazer com que ele a interrompesse.

Consegui, à custa de muita força de vontade, usar o pigmento supercondutor para traçar aquele familiar círculo no chão, a técnica básica das Artes Ocultas. E chamei cerca de trinta almas – tantas quanto consegui invocar – de uma vez ao corpo de Mefisto.

Como eu pensei, as almas não tiveram o mínimo efeito sobre sua constituição, mas foram o suficiente para quebrar sua concentração, e fazer com que sua ressonância parasse quase instantaneamente. Em se tratando das Artes Ocultas, o estado mental de seu usuário influencia diretamente no resultado final de alguma técnica.

Mefisto não perdeu tempo, e assim que percebeu o que eu havia feito, tentou aplicá-lo a mim, mas sua força física permitia-lhe trazer no mínimo dez vezes mais almas a meu corpo. Dessa vez, porém, eu estava preparado, e não foi difícil repeli-las. Andei a passo largo até uma das tumbas, quebrei-a com um pouco de esforço e rapidamente enviei uma alma ao cadáver que estava lá dentro. Ele começou a reconstituir-se rapidamente, seria um bom servo. Abri a sepultura que estava imediatamente do lado, enquanto o servo que havia invocado defendia-me das condenadas almas que Mefisto continuava a trazer.

Logo havia invocado três servos, dos quais um deles eu continuava a reestabelecer fisicamente. Em pouco tempo ele poderia lutar por mim. O primeiro de meus servos caiu sob a barragem de almas que Mefisto estava criando, e logo o segundo, de maior envergadura, tomou seu lugar. Antes de sua derrubada, eu já tinha dois servos capazes de lutar por mim, e foi o que fizeram, atacando Mefisto pela sua esquerda e direita.

Meu movimento pegou-o desprevenido, pois assim que se viu cercado por dois lados ele voltou a emitir sua ressonância, sem conseguir dividi-la entre os dois servos, e assim, sendo atacado por eles. Na brecha de tempo aberta por ele, consegui refugiar-me em uma pequena alameda com cinco ou seis capelas, e já estava trazendo mais servos à vida. Carreguei um deles o suficiente para que segurasse os ataques de Mefisto, e arrastei outros dois comigo, enquanto recuperava-os devagar. Meu vigor físico não seria suficiente por mais muito tempo, eu deveria acabar logo com isso.

Subi até o alto de uma capela, atrás da grande cruz que enfeitava seu telhado e observei. Três de meus servos estavam a postos, e ainda consegui resgatar mais um que jazia na capela que servia-me de abrigo. Neste, eu tentava colocar a maior quantidade de energia possível, trazendo o máximo que conseguisse de sua encarnação. Mefisto havia derrubado um de meus servos enquanto aguentava os golpes ferozes porém descoordenados do outro. Assim que o primeiro caiu, logo ele derrubou o segundo usando-se apenas de sua ressonância.

Mandei que os outros três o atacassem, e tendo eles saído de direções distintas, ficaria difícil que Mefisto soubesse onde eu estava. Ele agora parecia pronto para o que poderia vir, e o próprio Errante dos Múltiplos Planos era alguém de cuja capacidade física não se podia duvidar. Ele traçou rapidamente um círculo de conjuração no chão e trouxe à sua mão uma grande espada de cabo longo. Parecia saber do único jeito possível de se interromper a ação de servos meio mortos, e dilacerou rapidamente seus membros. meus servos estavam caídos no chão, coléricos e agonizantes, sem poder mover-se.

– Fausto, meu caro, ainda consegues manter um bom ritmo de luta, mas precisa de ainda mais se quiseres alcançar-me! – Mefisto gritava sem saber exatamente para onde devia projetar sua voz – Espero que estejas prestando atenção a isso!

Mefisto começou a emitir uma aura inicialmente pálida e quase incolor, que depois foi assumindo matizes azuladas. Estendeu seus braços em direções opostas, e de repente sua aura foi projetada ao longo do cemitério. Em alguns dos pontos, a centelha parecia manter-se viva através de correntes de energia que saíam diretamente dele.

– Agora veja o que a Nobreza pode fazer, Fausto. Estas chamas fátuas queimarão qualquer vestígio de corpos e almas que poderiam ser aproveitadas por ti. Quem sabe assim tu haverá de enfrentar-me cabeça a cabeça!

E dizendo isso, parecia ter alimentado todas as chamas ao mesmo tempo, pois as centelhas azuladas agora eram labaredas, que projetavam-se para dentro e fora dos túmulos e capelas funerárias. O servo que eu havia restaurado estava já em vida e pulsante, então não foi afetado pelas chamas fátuas de Mefisto. Assim que a última das labaredas se apagou e o cemitério foi reduzido a um breu ao qual meus olhos, depois de testemunhar a luminosidade azulada das chamas de Mefisto, não haviam ainda se adaptado, conseguia ouvir a respiração pesada e ofegante de meu companheiro. Assim que pude vê-lo, percebi que estava frágil: provavelmente as chamas fátuas haviam drenado boa parte de sua energia.

Eu não teria outra chance. Usei-me do que Mefisto havia chamado de projeção astral, e enviei boa parte de minha própria energia ao meu servo. Ele teria de enfrentar-me em duas instâncias. Agora, o que eu não sabia da projeção astral é que simplesmente não era necessário dar ordens a meu servo. Era como se ambos seguíssemos um plano milimetricamente traçado, porém não havia sido traçado plano nenhum.

Portanto, assim que me aproximei de Mefisto correndo tão rápido quanto minha idade me permitia e imobilizei seus braços por sua retaguarda, meu servo já estava à sua frente e já sabia o que fazer. Presenciei pela primeira vez como espectador um expurgo sendo levado a cabo, e ainda pude ouvir Mefisto congratulando-me com um grunhido antes de sua alma deixar seu corpo de uma vez por todas.

Assim que os braços de Mefisto deixaram de oferecer resistência à minha paralisia, soltei seu corpo, que caiu inerte no chão. Meu servo também parecia estar prestes a tombar, então desliguei-me dele e deixei que descansasse. Peguei a liga de prata de minha bolsa de apetrechos, que ainda estava em meu ombro, e usei para desenhar em seu antebraço esquerdo o signo que inibia sua alma de retornar àquele corpo.

Pensei em limpar o cemitério, enterrando de volta os servos que havia despertado, mas lembrei de Mefisto pedindo-me que não deixasse o lugar sem ele, e, cedendo também a meu cansaço, sentei aí mesmo, ao lado de seu cadáver, e esperei que voltasse.

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