XX- Do retorno do Errante

by F. Pergher

I – De ver navios.
II – Da primeira impressão.
III – Do segundo contato com Oscar, e os dias que se seguiram.
IV – Do encontro com Oscar.
V – De quando fui atacado, pela primeira vez em incontáveis anos.
VI – Do reencontro com meu velho amigo, em circunstâncias que poderiam ser melhores.
VII – Do reencontro de meu velho amigo com o mundo exterior.
VIII – Da descoberta do Errante.
IX – Dos dias de calmaria.
X – Do segundo encontro com Oscar.
XI – Da arte perdida da expurgação.
XII – Da vinda de Oscar até minha casa.
XIII – De minha confrontação com o homem do monóculo.
XIV – Da ida de Mefisto ao centro da cidade.
XV – Da Pesquisa de Mefisto
XVI – Do próximo encontro com Oscar.
XVII – Da Técnica do Expurgo.
XVIII – De meu treinamento.
XIX – Do desafio do Errante.

Estava ansioso, talvez até mesmo preocupado, mesmo sabendo que qualquer tipo de preocupação quanto a meu amigo seria simplesmente subestimá-lo. Comecei a reorganizar o cemitério, tomei o cuidado de reorganizar os membros certos de cada um dos cadáveres, e colocar cada um em sua lápide, mesmo não tendo muita certeza. Havia um saco de cimento e um grande tacho de madeira em um dos cantos do muro do cemitério, como a maioria dos coveiros deixam para realizar reparos. Misturei um pouco de argamassa e me pus a vedar do melhor jeito que pude as tumbas violadas.

Pude terminar meu serviço calmamente, a esse ponto sabia já haver passado a hora mais escura da noite. O círculo pigmentado ao redor do cemitério – que sempre usávamos como forma de conexão com outros planos ou conversão de matéria em energia – já começava a desaparecer devagar, tanto em brilho quanto na própria terra. Uma das características daquele misterioso pigmento, além de ser supercondutor, é que ele empalidece e some em pouco tempo quando em contato com elementos diferentes.

Escalei a mesma capela na qual havia subido antes, muito mais calmamente dessa vez. Posicionei-me confortavelmente, apoiando minhas costas na grande cruz que ficava sobre sua cobertura, e não aguentava mais manter-me em vigília. Quase adormeci algumas vezes, e na última delas, fui acordado por um ruído áspero de pedras atritando-se entre si. Olhei ao redor, procurando a fonte do barulho, e não pude reconhecê-la logo de cara, já que meus olhos pouco estavam acostumados à escuridão.

Consegui reconhecer de onde vinha o cada vez mais forte ruído somente após ele parar, e somente por conta de minha visão periférica. Detectei um movimento à minha esquerda, e via uma mão levantando-se de um dos túmulos naquela direção. Preocupado como estava, apesar de sentir-me regozijado pelo resultado do treinamento, já me preparava para trazer à tona mais um de meus servos.

A criatura, de longe, não parecia representar um risco muito alto a mim, mesmo já tendo levantado de seu túmulo e estar caminhando em minha direção. Eu sabia que em geral, tudo era menos intimidador de longe do que de perto, mas ainda assim estava em guarda alta, e já me encolhia atrás da cruz, para ter o elemento surpresa a meu favor. Apenas voltei a respirar compassadamente quando soube que, sem dúvidas, quem estava à minha frente era o próprio Errante.

– Desculpe minha demora, Fausto, cheguei lá mais fraco do que imaginava que teria chegado.
-Vejo que não chegaste aqui no auge de tua própria força também – eu reparei em sua estatura pequena e parecendo cansada
– Sou o Errante dos Múltiplos Planos, eu haveria de voltar. Era só uma questão de tempo.
– E eu nunca duvidei disso. Deixei seu corpo perto daquele túmulo, queres ir buscá-lo?
– Acha que consegues transferir minha alma para ele, Fausto? Eu agradecer-te-ia, pois duvido que este aguentaria um dia ou dois de caminhada.
– Ainda tenho um pouco de estamina, meu caro Mefisto. A idade pode acabar com meu vigor, mas ainda mantenho algumas habilidades intactas.
– Bem, vamos nos apressar, antes que o pigmento evapore totalmente.

Desci em um salto do topo da capela, e só então, em pé a seu lado, pude ver a pequenez do corpo em que Mefisto renascera. Se ele, em uma suposição, erguesse-se na ponta dos pés, mal poderia alcançar a altura de meu peito. Mandei que me seguisse, e logo estava aonde havia abrigado o corpo dele, devidamente selado.

Mefisto então remexeu no casaco de seu próprio cadáver e tirou de lá dentro uma espécie de esponja e um pequeno frasco de vidro. Derramou todo o conteúdo do frasco sobre o antebraço de seu corpo antigo e esfregou-o vigorosamente. O material começou a sair conforme ele esfregava-o tediosamente.

– Acho que isso é o último sinal de que nosso treinamento foi um sucesso, meu caro. Não tivesse sido eu, garanto que sua vítima não mais voltaria a pisar em nosso plano.
– Fico feliz com esse resultado, Mefisto. E admiro sua coragem de submeter-se a ser uma cobaia dele.
– Tu poderias expurgar quantas almas quisesse, Fausto, e não saberia da dificuldade de um expurgador, a menos que o fizesse em batalha. Teu estilo de luta não deixa a desejar em nada o Fausto de antigamente.

Antes que eu pudesse respondê-lo, ele subitamente recolheu a esponja, guardou-a cuidadosamente no bolso do capote, e disse-me que já poderia enviar sua alma de volta a seu corpo. Eu sempre havia pensado que os signos selassem permanentemente um corpo, mas aparentemente o selo era tão duradouro quanto o material que era usado para fazê-lo. Não entrarei em detalhes sobre o processo de transferência de sua alma para seu corpo original, sendo que é o procedimento mais básico das Artes Ocultas, mas pouco tempo depois ele já havia voltado a ser o imponente Mefisto de quase dois metros de altura.

Voltamos a casa caminhando lentamente, pois eu não conseguia acompanhar seu ritmo, e tão logo cheguei em casa, sem ao menos tirar meus calçados, deitei em minha cama e adormeci, talvez mais profundamente do que já havia adormecido durante minha vida.

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