XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.

by F. Pergher

Capítulos I-XX

Lembro-me de ter acordado quando o sol já estava alto. Eu ainda não me sentia completamente revigorado, mas estava melhor do que estivera antes de ter dormido. Desci as escadas, esperando ver Mefisto imerso em seu trabalho de traduzir os escritos antigos, mas ao invés disso ele estava sentado no chão, mexendo nos eletrônicos que havia comprado dias atrás e que até então mantinham-se intactos.

– Pensei que não fosse mais se levantar daquela cama – ele disse, sem perder o foco em seu trabalho.
– Eu acho que só precisava de um bom descanso, meu amigo. O que fazes aí?
– Logo conversaremos sobre isso, Fausto. Deixe-me apenas terminar algumas soldas aqui.

Fui até a cozinha, sabendo que provavelmente Mefisto não gostaria de ser incomodado enquanto estivesse absorto em seus experimentos. Tomava meu café da manhã, estava com um imenso apetite, e tive a sorte de ter comprado algumas frutas de época, que devorei alegremente. Não demorou muito até que eu ouvisse o chiado quente da solda silenciando, e Mefisto entrando na cozinha. Ele puxou uma cadeira e sentou de frente para mim, depois de também pegar uma das frutas da fruteira.

– Fausto, estou com certo receio em relação a algo que vi no cemitério.
– Algo? – perguntei, tentando relembrar o que poderia ter despertado o interesse de meu amigo, sendo que eu não havia visto nada anormal em nenhum dos três cemitérios que frequentamos na noite anterior.
– Meus fogos fátuos não deveriam ter queimado tão ávidos quanto os convoquei, Fausto.
– E o que isso significa?
– O fogo fátuo queima a partir de matéria orgânica ou energia de alma que exalam os cadáveres. Se eles queimaram àquele nível, quer dizer que havia ainda matéria orgânica, matéria viva no cemitério.
– Então, alguém passou por lá não muito antes de nós, certo?
– Essa é uma das possibilidades, caro Fausto.
– Existem outras?
– Outra. Ou é isso, ou alguém está conservando energias para algum propósito que ainda não conhecemos. E por isso estou tão interessado por estes aparelhos eletrônicos.
– E qual é a relação entre as duas coisas?
– A entropia prolifera-se em forma de ondas, e seus eletrônicos captam certos tipos de ondas. Estou tentando modificar esses circuitos de uma forma que recebam ondas de frequências diferentes, já que, como você sabe, a frequência é o principal diferencial entre as ondas.
– Onde aprendeste isso em tão pouco tempo, Mefisto? – eu sabia que o Errante possuía uma inteligência fora do comum, mas não imaginava que fosse dominar um conceito tão complexo para alguém de sua realidade em um tempo relativamente ínfimo.
– Bem, em um dos dias da semana passada, eu fui até uma oficina de eletrônicos, antes de voltar à biblioteca. Encontrei um jovem simpático que teve a paciência para iniciar-me no assunto, e esses circuitos são simplórios o suficientes para que eu trabalhe com eles.
– Tu não deixas de surpreender-me, Mefisto. Mas acreditas que haja motivo para preocupar-nos a tal nível?
– Em nossos tempos, Fausto, não podemos deixar de nos prevenirmos. Voltarei a meu trabalho agora, recomendo que tu descanses por mais algum tempo, esforçaste-te muito ontem.

Não precisei ser mandado duas vezes, e recolhi-me durante a tarde inteira, acordando apenas para caminhar. Mas não conseguia tirar as palavras de Mefisto de minha cabeça, gostaria de saber melhor o que era capaz de preocupar meu amigo àquele nível, ou o quanto de seu súbito interesse por eletrônica não tratava-se meramente de sua insaciável curiosidade.

Nada pude saber, porém, enquanto ele não terminava seu trabalho. O Errante era reservado, no fim das contas, e só falava quando julgava necessário. Por isso, a parte dos próximos dias que ele passou em casa foram absolutamente tediosas: eu caminhava, alimentava os gatos que por aí habitavam, matava algum tempo lendo os outros fiascos literários que havia comprado não sei por que. Mefisto deixou seu lugar na sala por duas tardes, naquela semana: Na segunda e na quarta feira, tendo passado o resto do tempo revisando o manuscrito que eu estava cada vez mais ansioso por ler. Quase não conversávamos.

Escusado dizer que a quinta-feira chegou mais rápido do que eu esperava que chegaria. Quando dei por mim, a campainha havia tocado e Oscar estava na porta. Eu mal havia terminado de arrumar a cozinha após meu almoço. Recebi Oscar, que entrou do jeito que sempre entrava, e logo começou a me mostrar seu segundo capítulo, que escrevera de uma forma surpreendentemente rápida. Eu havia terminado de revisá-lo, e fazia minhas críticas pontuais – como sempre mais ao seu enredo do que à sua escrita – e estranhei um pouco o fato de que Oscar apenas anotava o que eu dizia, sem manifestar-se muito, como costumava fazer.

Assim que terminei a revisão do capítulo, ele devolveu-me o livro que eu lhe havia emprestado, desligou seu computador, sentou-se de uma forma aparentemente mais confortável no sofá, olhou-me reto nos olhos e começou a falar

– Senhor Fáris, desculpe a petulância, mas tenho uma pergunta, não, um pedido pra te fazer.
– Pois não, Oscar? – confesso que achei sua mudança de tom um pouco estranha.
– Você pode me ensinar sobre as Artes Ocultas?
– O que está dizendo? – eu me assustei um pouco com a pergunta, talvez não com ela em si, mas com o fato de que Oscar estava mencionando as Artes.
– É isso mesmo, Fáris. Ou melhor, Fausto. Mas tudo bem se não quiser, seu segredo está seguro comigo.
– Não dei uma resposta ainda, meu caro. Apenas gostaria que respondesse com sinceridade, como chegaste a mim?
– Não foi nada fácil, senhor. Eu li o Tratado sobre Ocultismo na Contemporaneidade, e lá dizia que nesta região existiu um grande usuário que ganhava sua vida como livreiro, há muito tempo atrás. Dizia também que muitos necromantes vivem mais do que pessoas normais. Coincidentemente, tenho minha história que de qualquer jeito precisava ser editorada.
– Então vieste até mim sabendo do que eu era?
– Não, eu vim até você com uma suspeita. E confesso que se dependesse de seu disfarce, não teria nem ao menos suspeitado. Mas de todos os editores da região, você é o último que eu visito, e simplesmente não tinha a opção de ser algum dos outros, sabe?
– E caso eu não fosse Fausto e você tivesse feito-me esse pedido?
– Eu não faria ele antes de ter certeza. Sei que discrição é uma parte fundamental das Artes Ocultas. Por isso apresentei minha história gradualmente, e fiz tanta questão de conhecer sua residência.

Oscar, naquela curta conversa, já se provara minucioso e discreto, duas características importantes a qualquer usuário das Artes Ocultas. Eu não queria discípulos depois de Margarida, tinha a impressão que nenhum discípulo poderia ser tão prolífico quando ela, mas estava considerando a ideia. Sempre fora relutante quanto a aprendizes. Quem elucidou minha dúvida foi Mefisto, que desceu a escada já falando, sem perder um passo:

– Bom Deus, Fausto, parece que o garoto enrascou-te!
– Viste, meu caro Mefisto? Não se pode vencer todas.

Ele sorria, mais simpático e talvez esforçando-se para ser mais agradável do que normalmente era.

– Isso não nos deixa escolha, mestre. – Mefisto não costumava chamar-me assim, e eu não gostava também de nenhum tipo de hierarquização. DIrigiu-se então a Oscar. – Olá, jovem Oscar. Sou Mefisto, servo de Fausto, às suas ordens.

Ele pareceu intimidar-se um pouco com a aparência de Mefisto, e mal pode balbuciar uma saudação. Mefisto apoiava a ideia, e Oscar já se havia provado apto para iniciar o treinamento, então mandei que aparecesse em minha casa no dia seguinte, o mais cedo que pudesse, para começarmos sua iniciação às Artes. Eu não sabia o que esperar, mas estava gostando da ideia de ter alguém para ensinar, ainda mais se a preocupação de Mefisto provasse-se fundamentada.

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