XXII – Do início do treinamento de Oscar.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.

Consegui, antes que Oscar chegasse, cumprir minha previsível caminhada e ainda arrumar um pouco a sala de casa. Imaginava que ele fosse chegar mais cedo do que realmente chegou, e assim que chegou, entrou do mesmo jeito que costumava entrar nos dias anteriores, mal saudando-me. Parecia estar com vontade de aprender, isso deixava-me estimulado, também, a ensiná-lo.

Expliquei a ele sobre meu método de treinamento, e que antes de partirmos para o treino em questão, eu ensinaria a ele os conceitos teóricos das Artes Ocultas. Corpo, alma, o que definia cada um deles, entropia, exílio, planos e outros requisitos básicos para ocultistas. O garoto me olhava com tanto interesse quanto o fazia durante a revisão de suas histórias, e parecia entender rapidamente os conceitos. Disse a ele que preferiria que ele não os registrasse por escrito, já que as Artes Ocultas ainda são baseadas em tutores, e não escritos tutoriais, e ele concordou de imediato.

Ao final da manhã, ele já sabia do que se tratavam todos os elementos básicos que usaria durante seu treinamento. Mostrei-lhe minha casa, exceto o porão, e combinamos alguns detalhes de sua estadia, como a hora em que ele haveria de chegar, sair e o que seria exigido dele. Eu não costumava exigir algum tipo de resultado teórico, acho que as Artes Ocultas já estão consolidadas o suficiente. Apenas me preocupava com tornar meus pupilos em bons usuários. Oscar pareceu um pouco frustrado quando eu disse que não poderia oferecer-lhe hospedagem, pois Mefisto já ocupava o quarto. Ele teria que voltar mais cedo à sua casa por causa disso, e eu não via problema nenhum nisso, pelo contrário.

O fato é que apesar do jovem mostrar-se interessado, além de pontual, eu não colocava nenhuma fé nele. Considerava-o, na verdade, um tanto quanto incapaz. Eu iria ensiná-lo sem nenhum tipo de restrição, tratá-lo tal como tratei Margarida, mas duvidava que ele seria capaz de algo além de ocupar meu tempo.

Não comecei nenhuma lição no mesmo dia, já que tínhamos pouco tempo. Falei-lhe que não se preocupasse com nenhum tipo de material ou custo além de sua própria locomoção, assim como costumava fazer com todos os outros, e tão logo ele deixou a porta de casa, subi ao quarto de Mefisto. Ele estava ainda absorto em seus aparelhos eletrônicos, o que antes era uma televisão servia como uma espécie de caixa provisória à instalação.

– Olá, Fausto, como está com seu novo discípulo? – pela primeira vez, ele levantou os olhos de seu trabalho para saudar-me antes que eu o fizesse.
– Bom, o garoto é esforçado, mas com certeza inofensivo. Na verdade, duvido muito que não seja inofensivo mesmo para nossos inimigos.
– Achas mesmo? Acredito, Fausto, que ele será tão bom quanto o treinares para ser.
– Não sei, ele emana uma aura diferente do que minha última aprendiz. Ela parecia promissora desde que a havia visto pela primeira vez. Aquele garoto simplesmente passa-me a impressão de que não seria capaz de progredir nem mesmo se fosse ensinado por cinco dos melhores ocultistas que o mundo já viu.
– Isso não significa muita coisa. Deixando isso de lado, acredito que deves treiná-lo incondicionalmente. Se minha teoria estiver correta, e espero que não esteja, precisaremos de tanta força quanto pudermos angariar.
– Seu prognóstico é tão ruim assim, Mefisto?

Ele largou suas ferramentas no chão e levantou-se do lugar onde ocupava antes. Foi até o banheiro lavar suas mãos, e enquanto ele estava fora do quarto, aproveitei para observar o que ele havia feito com os circuitos da sucata eletrônica. Ele havia entendido em poucos dias, talvez poucas horas, o que eu nem em uma era inteira, na mais otimista das previsões, poderia pensar em aprender. Voltou ao quarto, de mãos limpas e segurando o manuscrito, juntamente com o caderno que usava para traduzi-lo em suas mãos.

– Fausto, falta somente esta quantidade de páginas para que eu consiga terminar de uma vez de traduzir este texto, – ele apontou com o dedo uma pequena pilha de não mais de dez páginas – depois poderás tirar tuas próprias conclusões sobre o assunto. Mas devo avisar-te que não saberemos com o que estaremos lidando. Por isso é bom que nos precavemos.
– E por isso estás dedicando-se tanto ao seu projeto eletrônico?
– Exatamente. E também deves tu dedicar-se ao treinamento de Oscar. Ele é um reforço para nosso lado.

Naquela noite, depois de várias imperturbadas, exceto por bons agouros e expectativas, demorei a dormir um sono intranquilo. Mal acordei a tempo de executar minha caminhada antes da chegada de Oscar na manhã seguinte.

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