XXIII – Dos dias de treinamento.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.

O segundo dia de treino de meu novo pupilo não foi – e nem haveria chances de ter sido – diferente do primeiro: Expliquei-lhe a fundo alguns conceitos, e ele parecia ter memorizado bem o que eu havia dito-lhe no dia anterior. O ansioso e energético Oscar perguntava quando começaríamos a parte prática do treinamento, e eu respondi-lhe, como padrão, que tudo dependeria de seu andamento na teoria.

Não tinha, especificamente, um livro sobre as Artes Ocultas para que dele fosse feito uso, então tudo devia ser explicado oralmente e memorizado, não anotado, por ele. Falava-o sobre a técnica de controlar-se entropia com o próprio pensamento, é claro, no aspecto teórico, que ele pareceu entender com facilidade. Algo, porém, impedia-me de acreditar que ele seria capaz disso.

Ao fim daquela tarde, ele já supostamente sabia todo o aspecto teórico das Artes e poderia partir para os experimentos práticos na próxima semana de treino. Havíamos resolvido não treinar aos domingos porque o transporte público era escasso, e tornava-se difícil a ele que voltasse para sua casa nesse dia. Dispensei-o, e fui preparar meus materiais para a semana seguinte, antes de dormir.

O domingo passou rápido, sendo meu único dia de folga. Coloquei algumas de minhas leituras em dia, fiz minhas duas regulares caminhadas e, ao voltar do porto sob o frio cada vez mais ameno do fim daquele inverno, passou-me pela cabeça se Margarida não haveria tentado comunicar-se comigo.Havíamos entrado em um acordo sobre que, se ela obtivesse qualquer tipo de informação relevante, enviar-me-ia através de carta escrita. Eu não recebia entregas em minha casa por morar em um lugar isolado; ao invés, as correspondências ficavam armazenadas na agência postal mais próxima de onde eu morava.

Pensava sobre elas quando entrei em casa, e abriram caminho para mim dois gatos: aquele cinzento que já havia tornado-se praticamente um mascote em minha casa e mais um de pelagem amarelada. Abasteci seu pote de comida, preparei meu jantar, lavei-me, e após Mefisto avisar-me que no dia seguinte estaria fora de casa, iria terminar seu trabalho de uma vez por todas no arquivo, recolhi-me ao quarto. Se não conseguisse dormir direito, pelo menos teria bastante tempo para descansar meu corpo.

Acordei com maior disposição na segunda-feira, antes que o sol nascesse. Fui ver os primeiros raios do dia apenas no final de minha caminhada. Ao voltar para casa, encontrei Mefisto sentado na varanda, distraído com um dos gatos. Estava esperando-me para não deixar a casa sozinha, e tão logo eu cheguei, ele desejou-me bom dia e seguiu seu caminho. Logo Oscar estaria aí, e eu aproveitei o pouco tempo livre para adiantar alguma coisa para o almoço. Assaria o último pedaço de carne, e eu teria que comprar mais em minha segunda caminhada diária.

Logo Oscar chegou. Passei a manhã inteira e boa parte da tarde explicando-lhe as utilidades dos diferentes materiais – ou pelo menos dos mais básicos – nas Artes Ocultas. No final do dia, antes que ele fosse embora, tracei uma linha no chão com a barra de pigmento e mandei-lhe que carregasse o pigmento com sua energia. Se tivesse realmente entendido a teoria que lhe havia ensinado ontem, conseguiria sem dificuldade passar por esse teste.

Oscar concentrou-se, como eu havia explicado-o, mas pouco efeito conseguiu produzir sobre o pigmento condutor que eu havia posto ao chão. Disse-lhe que o importante era que ele havia entendido o princípio básico, e não que tivesse de fato sido totalmente eficiente em sua primeira atuação, mas no fundo estava frustrado com ele. Mal pude sentir a pequena aura de energia concentrando-se através da substância que riscava por pouco mais de meio metro daquele chão.

Já era quase noite, então interrompemos o treinamento. Pedi-lhe que praticasse em casa, e para isso dei a ele um pequeno pedaço de um bastão de pigmento. No dia seguinte, antes de vir a minha casa, ele deveria também passar na agência postal e pegar qualquer correspondência para mim que lá estivesse. Despediu-se brevemente, parecendo um pouco desanimado, e saiu, com seu usual passo nada imponente.

Pois bem, no dia seguinte o treino manteve-se no mesmo ritmo. Ele mostrou-se mais eficaz na mesma provação do dia anterior, o que fez-me pensar que ele havia de fato treinado em sua casa durante o pouco tempo livre que restara-lhe. Senti-me, pela primeira vez, realmente estimulado em ensinar Oscar.

Ele havia trazido, mais cedo, algumas correspondências, e, exceto a conta de energia elétrica, nenhuma correspondência interessante. Alguns anúncios de emprego e panfletos de imobiliária que sempre eram deixados em minha caixa, que Oscar mostrou-se íntegro ao trazer mesmo sabendo que não seriam de meu interesse, mas que Margarida costumava descartá-los por já saber que eu não dedicar-lhes-ia atenção. A eficiência de meu novo discípulo foi mais uma vez posta em prova.

Em poucos dias, ele já conseguia transferir energia suficiente para que o pigmento emitisse luz, uma tarefa complicada, se considerasse seu nível de capacidade. Introduzi a ele a alquimia, e menos de uma semana havia se passado quando ele começava a entender os princípios básicos dela. Já conseguia colocar materiais em combustão, usando-se dos dois conceitos que havia aprendido, e algumas transformações simples e que não envolviam almas. Tornava, numa pequena escala, barro em pedra, coisa que não achei que ele seria capaz de fazer.

Durante a primeira semana do treinamento de Oscar, Mefisto passava quase os dias inteiros fora de casa, no arquivo, trabalhando incansavelmente para que eu pudesse ler o que estava escrito no antigo documento que ele traduzia. Nas poucas vezes que ambos se esbarravam – ou porque Mefisto chegava cedo ou saía de casa tarde, ou porque as lições de meu pupilo se prolongavam – Oscar assumia uma postura um pouco alterada. Parecia temer Mefisto, mas atribuí isto puramente à aparência intimidadora do Errante.

No fim de tarde do sábado daquela mesma semana, Oscar deixou minha casa, tendo conseguido executar de uma forma meramente satisfatória os conceitos que havia ensinado-lhe. Mefisto desceu de seu quarto enquanto eu jantava, com o manuscrito que havia tomado vários dias de trabalho, e colocou-o sobre a mesa, na minha frente.

– Perdoe minha ineficiência, Fausto. Minhas habilidades de tradução não são muito satisfatórias, menos ainda partindo de uma linguagem arcaica. Mas é o melhor que pude fazer.
– Não tenho dúvidas, meu caro Mefisto, de que é o melhor que conseguiste fazer. E para quem teve que descobrir uma forma de decifrar a linguagem, foste mais eficiente do que eu poderia exigir. Tornarei a ler seu manuscrito.

E assim o fiz, depois de terminar apressadamente meu jantar. Não sabia nem mesmo o porque, mas meu coração batia descompassado. Finalmente elucidaria parte da curiosidade que tornara várias de minhas noites insones.

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