XXIV – Do que dizia o antigo escrito.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.

Tomei a liberdade de, ao invés de transcrever o antigo escrito, apresentar os fatos importantes de acordo com minha própria leitura deles. Acredito que a escrita, juntamente com a grafia antiga do documento, tornam o texto de difícil compreensão.

O texto não tem nenhum tipo de datação clara, mas pelo que lá é descrito, calculo que tenha ocorrido em meados da idade média. Fala de um vilarejo relativamente grande, que ficava em um território que à época era fronteiriço. Vários conflitos que deixavam este vilarejo, cujo nome aparentemente foi rasurado todas as vezes que é nomeado, entre fogo cruzado ocorreram à época descrita. Isso tornou-o ao mesmo tempo trincheira, campo de batalha, rota de fuga, e abrigo para os mais diversos combatentes.

Condizia essa época com o auge das Artes Ocultas. O ponto onde os estudos estavam significativamente avançados, e ao mesmo tempo, havia um grande contingente de seus praticantes. Radicado no vilarejo, havia um infame e importante culto obscuro que se intitulava Cruz Fumegante. Tenham em mente, leitores, que consideramos um culto obscuro qualquer escola iniciada por algum dos Usuários que deturpa, ignora ou dobra a seu favor códigos de ética existentes nas Artes Ocultas.

A Cruz Fumegante foi iniciada por aquele que conhecemos como Melquior, ou Melchior, embora seu nome verdadeiro tenha sido esquecido através dos séculos. Melquior aderira a uma prática pouco comum entre os Usuários: Ele proclamava publicamente os feitos e ideais de sua escola, sua ânsia pelo que era demoníaco, por transviar qualquer coisa que fosse de seu equilíbrio. Podem imaginar, leitores, o que se fez dele em uma época onde todo o esotérico era temido, em uma época que, de forma ainda mais grave do que é hoje, as Artes Ocultas eram vistas com imenso preconceito.

Melquior era fácil de ser encontrado, porém, poucos o confrontavam. Usava-se de almas malignas para atingir seus objetivos, e todos os que tentaram machucá-lo, com ou sem sucesso, fadaram a si mesmos e à sua prole à desgraça. No escrito, são contadas histórias sobre três bravos guerreiros que o desafiaram: Um deles, corajoso jovem, de nome também rasurado, desafiou-o a um duelo honrado. O ardiloso Melquior selou sua alma a seu corpo e fraturou suas vértebras, tornando-o um inválido que passava os dias sentado à mesa de sua casa, catatônico.

Seu segundo desafiante foi um afeto do primeiro, que ao ver seu amigo amaldiçoado a viver para sempre em um corpo debilitado, correu insano pelas ruas da cidade até, horas depois, esbarrar em uma reunião da Cruz Fumegante. Ele atacou inconsequentemente àqueles que se reuniam no lugar, e conseguiu cortar a cabeça de dois deles com sua espada, antes de ser parado pelo impávido Melquior. Vendo dois de seus poucos soldados abatidos, ele mandou que as cabeças de dois membros da família do desafiante fossem levadas até o culto, ordem que foi prontamente atendida. Depois, espetou as duas cabeças em estacas no chão e o fez permanecer sobre as brasas da fogueira que iluminavam a reunião até que morresse desidratado, com os rostos de seus dois irmãos encarando-o.

Devo contar, neste ponto da história, que no mesmo vilarejo de nome desconhecido, havia uma escola cujos métodos até hoje são desconhecidos. Seu grupo de seniores, que destacava-se por, na época, manter quatro mulheres entre as sete principais lideranças, era conhecido por tomar decisões sensatas e fornecer conhecimentos importantes sobre agricultura, astronomia e medicina para o resto do vilarejo. Na época, a escola possuía, além dos sete seniores, no mínimo seis afiliados. Não se sabia sobre o parentesco deles, mas todos possuíam cabelos do mais brilhante matiz de vermelho.

Se a Cruz Fumegante era mal vista pelos cidadãos do vilarejo, os Catarianos, como denominavam-se, não possuíam uma melhor reputação. Lembrem-se que estamos na idade média, onde qualquer ritual que não transpirasse a religiosidade predominante era visto como herege. Boatos sobre promiscuidade, relações incestuosas e “bruxarias” fariam os Catarianos serem vistos como seres tão repugnantes quanto os adeptos de Melquior, não fosse por um detalhe: ambos eram inimigos declarados.

O terceiro a desafiar Melchior foi o Pastoreio dos Catarianos. Pastoreio, acredita-se, era o título dado à autoridade maior daquela escola. Tornava-se o próprio nome de quem o assumia. O que deu a vantagem ao Pastoreio foi que, enquanto Melquior gabava-se de suas infâmias, que chegavam ao conhecimento dos Catarianos, o Pastoreio optava por manter-se o mais silencioso possível. A história defende que quando a sede da Cruz Fumegante foi atacada pelo Pastoreio sozinho, em um gesto de bravura, Melquior desconhecia a existência dos Catarianos.

O Pastoreio provou-se superior à Cruz Fumegante inteira, pois rendeu todos os seus membros e queimou Melquior vivo, depois aprisionando sua alma no plano inferior. Julga-se que esse foi o primeiro dos expurgos documentados, embora não há comprovação do envolvimento dos Catarianos com as Artes Ocultas.

Porém, o ato de bravura do Pastoreio não foi perdoado pelo restante da Cruz Fumegante. Diz-se que três de seus integrantes foram mortos por ele, antes de ser subjugado pelos sobreviventes, cada vez mais enfurecidos pela morte de seu líder e de seus companheiros. Os sete escolares de Melquior que ainda estavam vivos, depois de matar o Pastoreio a sangue frio, amaldiçoaram os Catarianos.

Um a um, os sete seniores Catarianos pereceram de maneiras tortuosas. Os seis estudantes se viram obrigados a afastar-se do vilarejo para que a maldição não caísse sobre eles. Neste ponto, a história ramifica-se: Nada é dito sobre quatro dos Catarianos restantes. A história aborda o destino de dois deles: o garoto que era o mais novo, precoce e também imprudente entre eles, tendo quinze anos à época; e a moça, respeitada por todos os Catarianos como de uma bondade inesgotável e de grande senso de dever, à época com cerca de vinte anos de idade.

Fugiram para o mesmo destino, diferentes dos outros quatro, e, sendo os dois aqueles que mais estavam avançados no aprendizado do legado dos Catarianos, decidiram reconstruir sua escola, angariando estudantes de forma nômade. De sua união, foram gerados quatro filhos, todos eles de cabelo carmesim, ainda mais reluzente do que o de seus pais. E logo, além de seus filhos, o garoto, que assumiu o nome de Pastoreio, e a moça que não é nomeada, possuíam uma escola de cinco seguidores. Seu objetivo era de purificar a vileza daqueles que haviam desestruturado os Catarianos.

O resto do manuscrito tratava-se de informações relevantes sobre os descendentes do segundo Pastoreio, bem como pistas sobre os sete sobreviventes da ordem da Cruz Fumegante, e alguns trechos pareciam ter sido escritos, apesar de mantida a grafia arcaica, em tempos mais recentes. Julgo que seja necessário dizer apenas que os descendentes do Segundo Pastoreio (como ele é nomeado para que seja diferenciado daquele que matou Melquior) tornaram-se um influente clã de caçadores de bruxos, que atingiu seu ápice antes do fim da idade média, e até hoje ativos, gozam de um grande poder e influência. Havia também uma lista de possíveis alvos de sua caça. Dos mais de duzentos nomes que compunham a lista, cerca de cento e sessenta estavam assinalados com uma cruz a seu lado.

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