XXV – Do amigo de Mefisto.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.

Acabei por ler aquele documento duas vezes, só assim pude absorver todas as informações sem desacreditar delas. Assim que terminei a leitura, fui ter com Mefisto, que estava em seu quarto, ainda trabalhando em seus circuitos eletrônicos, que agora já tomavam forma dentro da caixa da antiga televisão.

– Mefisto, acabei de ler o texto.
-Que surpresa agradável, Fausto – ele disse, sem tirar os olhos de seu trabalho.
– Tu sabes o que tudo o que lá está escrito implica, meu caro?
– Tomei o documento como uma referência histórica para algo que já sabíamos.
– Que os caçadores de bruxas ainda existem?
– Que as bruxas ainda existem.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que estás do lado errado, Fausto. Estamos. Desde nosso último encontro com os Catarianos, ambos estamos do lado errado.

As palavras do Errante pareciam não fazer sentido nenhum. Cheguei a pensar se ele não teria sido seduzido pelos caçadores de bruxas, que sempre foram sanguinários inimigos dos usuários das Artes Ocultas. Não entendendo a história a fundo por mim mesmo, imaginei que talvez ele soubesse mais do que eu.
– Último encontro? Quer dizer antes do incidente com o pequeno contraventor?
– Sim, brigamos contra descendentes diretos dos Catarianos.
– Eles eram caçadores de bruxas, tivemos que nos defender-nos.
– Segues a linha de pensamento errada, Fausto. Nós dois somos tão caçadores de bruxas como eles.
– Estás dizendo que os Catarianos são nossos aliados. Então por que nos atacaram da última vez?
– Parece que não leste o escrito que mandei-te. Existe outro fator envolvido, lembra-te que restaram vivos sete membros da Cruz Fumegante, e inúmeras gerações proliferaram-se desde então. Ora, Fausto, o diabrete que purificamos não tinha cabelos vermelhos tais quais nunca foram vistos?
– De fato, mas foi ele quem nos atacou. Ele estava atrás de nós, Mefisto.
– É neste ponto que tu se engana, Fausto. Aquele diabrete que purificamos , julgando-o expurgado, hoje é o Quinto Pastoreio dos Catarianos. Quem estava atrás de nós era alguém cuja ascendência remonta aos sete sobreviventes da Cruz Fumegante. O Pastoreio fora seduzido por ele, que o fez acreditar que nós dois devíamos ser caçados ao invés dele.
– Então o garoto que purificamos há quase duzentos anos, o Quinto Pastoreio, ainda vive?
– Sim, Fausto, e receio dizer que também sobreviveu à curva do tempo aquele que o induziu a matar-nos.

Mefisto havia largado completamente seu trabalho com os circuitos, então sugeri que continuássemos a conversa na sala de estar de minha casa. Descemos até ela, e eu preparei um chá quente, pois à mesma proporção que os dias estavam mornos e agradáveis, as noites, sem a radiação reconfortante do sol, eram tão gélidas quanto eram em um inverno rigoroso.

– Mefisto, o que sabes sobre o homem que enganou o Quinto Pastoreio?
– Por enquanto, o que sei é que ele é um ávido, apesar de renegado, usuário das Artes Ocultas. Para termos mais informações sobre ele, teremos que conversar com alguém que conheci enquanto pesquisava nos arquivos da biblioteca.
– Não imagino alguém relevante que frequentaria aquele lugar, não para nossa pesquisa.
– Pois eu encontrei-o. Ele trabalha como arquivista na biblioteca, aparenta menos idade do que realmente possui, e é descendente direto do Pastoreio atual.
– Impressionante! E de que forma vocês dois encontraram-se? Não imagino-o chegando à biblioteca e apresentando-se como um dos Catarianos.
– Bom, ele percebeu que eu havia pego o diário de viagem que utilizei como chave para decifrar seu documento. Perguntou-me qual era meu interesse nele, e eu respondi-lhe, pois com uma cópia do seu escrito em meu caderno, pouco poderia fazer para disfarçá-lo. Ele identificou a escrita como sendo o código usado pelos Catarianos, e perguntou-me como eu possuía aquele documento em minhas mãos.
– A sorte de fato esteve a nosso favor desta vez, meu caro Mefisto. Teremos de conversar com seu amigo sobre este assunto. Se é verdade que a descendência de um dos renegados ainda vive, teremos de fazer o possível para evitá-la.

As notícias que Mefisto trazia, mesmo não podendo ser consideradas boas novas, não deixavam de animar-me um pouco. Afinal, por mais que existisse um inimigo traiçoeiro a ser combatido, eu teria a oportunidade de firmar um laço com alguém que, anos antes, havia provado possuir força suficiente para quase acabar com minha existência. E esse alguém muito possivelmente haveria de ser meu aliado.

Ademais, eu sempre gostei da ideia de que existem mais usuários das Artes no mundo do que eu imagino, de que o mundo não está tornando-se cada vez um lugar isolado dos outros planos, de que ainda sentimo-nos instigados a saber mais além de nossa vil encarnação material. Portanto não me desagradava a ideia do que viria a seguir. Mas ao mesmo tempo, eu sabia que era arriscado -por mais que fosse meu dever – digladiar-me com um dos remanescentes da Cruz Fumegante.

Fui dormir, naquela noite, com um estranho sentimento otimista, bem diferente do que havia sido nas últimas noites. No dia seguinte não treinaria com Oscar, então não importaria se eu não atingisse minhas horas de sono necessárias para manter-me ativo durante o dia. De qualquer jeito, conseguira dormir tranquilamente, acordando no horário de costume para minha caminhada matinal. Eu pensava nas pessoas de cabelo vermelho que havia encontrado nos últimos anos, e imaginava se alguma delas poderia ser um dos Catarianos.

O resto do dia, após o tempo virar em uma chuvarada agressiva, passou igualmente rápido. Li mais uma vez a tradução que o Errante havia feito do manuscrito, para extrair dela o máximo de detalhes que pudesse, e passei boa parte do restante do dia matutando sobre seu conteúdo, junto com o que Mefisto havia dito. Os Catarianos ainda existiam, aqueles que eram considerados um mistério entre os usuários das Artes Ocultas, e estavam próximos de mim.

Mal pude perceber e já estava na hora em que eu costumava jantar. Naquela noite, Mefisto jantou na mesma hora que eu, ocasião rara nos últimos tempos. Aproveitou para avisar-me que sairia, na terça e na quinta feira para conversar com o arquivista, e manifestou sua vontade de que eu fosse junto em algum dia daquela mesma semana.

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