XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.

Portanto, a primeira coisa da qual avisei Oscar foi que ele não deveria comparecer ao treinamento na quinta feira daquela mesma semana. Pareceu um pouco decepcionado com esse fato, o que me levou a ter um pouco mais de fé nele, apesar de sua falta de perícia. Parecia que uma parte de mim queria valorizar Oscar como um bom discípulo, ensiná-lo com tanto afinco quanto havia dedicado a Margarida, mas eu acabava sempre convencendo-me de que não valeria a pena.

Afinal, Margarida provara-se imensamente mais capacitada do que ele era, mesmo comparando ambos no início de seus respectivos treinamentos: ela dedicava-se menos do que Oscar, porém era mais eficiente e de natureza mais agradável, como não canso-me de repetir. Ele, por sua vez, era mais dedicado, tanto no treino formal quanto para ser eficiente, mas não era, por natureza, agradável. Esforçado, era a palavra, talvez esforçado até demais.

Mas do sábado para a segunda feira, Oscar havia apresentado um desenvolvimento considerável. Já conseguia executar de uma forma mais do que satisfatória o que eu havia-lhe ensinado na semana anterior. Não havia mais nada que eu poderia ensiná-lo, sem praticarmos num possível campo de batalha. Sugeri que ele chegasse mais tarde do que o habitual na terça feira, e que eu o ensinasse a chamar almas e servos em um dos cemitérios das redondezas durante a noite, oferta que foi prontamente aceita.

Afinal, por mais que seja longo e árduo o caminho para tornar-se um usuário das Artes Ocultas, não se pode dominar a técnica sem conhecê-la. Por isso, costumava apresentar todos os conceitos e técnicas necessárias aos meus discípulos em primeira instância, para depois trabalhar suas fraquezas e insuficiências. O básico, eu já havia ensinado Oscar, e trazer à tona servos e almas de outros planos seria mais fácil em um cemitério do que atrás de casa, sendo que para isso, ele deveria aprender a complicada alquimia previamente.

Ensinei a ele, naquela terça feira em que ele apareceu no horário usual, apesar de eu tê-lo dito que poderia atrasar-se, sobre a convocação e restauração de servos. Pois, ao deixar sua tumba, antes de servir a seu mestre, um servo deve ter um bom motivo para isso, e acima de tudo, um corpo funcional. Não é necessário que todas as funções metabólicas sejam ativadas, mas o raciocínio cognitivo, as funções cardiovasculares e os cinco sentidos devem estar funcionando. Tudo isso era possível de se fazer através do acúmulo de entropia, que agora Oscar já quase dominava.

Quando fomos ao cemitério, ele já sabia também do porque que deve ser oferecido um pouco do sangue do próprio mestre – para garantir, além da obediência do servo, um modelo a ser replicado pela conversão da energia potencial em fluído venoso, o porque do uso de um material supercondutor para o acúmulo de energia, e o que era um corpo selado com prata, que era inutilizável.

Já dentro do cemitério, valendo-me de um esforço de proporções tremendas, consegui terminar a explicação sobre os padrões e círculos traçados no chão: Eles deveriam preencher a maior área de uma maneira fácil e rápida de ser traçada, economizando o raro pigmento (do qual o usuário deveria ter um estoque que durasse até a próxima oportunidade garantida que teria de abastecê-lo) e do modo mais concentrado possível. Excluindo-se estes fatores, a maioria dos usuários das Artes Ocultas traçava círculos que identificavam sua escola, sua família, ou simplesmente a si próprios.

Ensinei a ele um círculo básico, e falei-lhe que traçasse sobre um túmulo vazio. A esse ponto do treinamento, eu esperava que meus pupilos fossem pelo menos um pouco sensíveis à energia potencial a seu redor, e portanto questionassem minha escolha, já que o túmulo indicado não possuiria o mínimo traço de energia. Nesse ponto, eu prontamente indicaria outro túmulo. Oscar traçou o círculo sobre a exata tumba que lhe foi apontada, e concentrou sua energia – de um jeito satisfatório, devo ressaltar para ser justo – sobre o caixão. Quando perguntou-me o que deveria fazer em seguida, eu disse-lhe que deveria escolher outro túmulo, já que aquele encontrava-se vazio.

Parecia envergonhado, talvez ele entendesse que havia cometido um erro primário. Em seguida concentrou-se, fazendo mais esforço do que o que eu considerava ideal, como sempre. Conseguiu localizar uma sepultura com uma boa quantidade de energia potencial, e prosseguiu ao acúmulo de energia, novamente. Demorou um pouco mais do que na vez anterior – mas estamina era algo que deveria ser cultivado, assim como a sensibilidade à energia. Depois de carregar seu círculo, que já emitia uma fraca aura esbranquiçada – o que eu considerava um bom sinal – perguntou-me o que deveria fazer.

Ensinei-lhe a derramar um pouco de seu próprio sangue – a esse ponto ele poderia provocar uma pequena e indolor hemorragia a partir de sua unha usando-se da própria entropia – e a canalizar a energia que havia acumulado, puxando aquele corpo antes inerte até a superfície. Conseguiu concluir a tarefa com êxito, em um tempo considerado na média. Depois disso, ensinei-o a avaliar o estado do corpo, e então reparar as funções essenciais, junto com sua constituição física, já que depois do fim do ciclo de decomposição, pouco restava de um corpo além de sua essência.

Oscar havia restaurado o corpo de maneira satisfatória, estava quase ao nível dos servos que normalmente eu convocava, mas caiu exausto logo depois. Decidi encerrar o treinamento por aquela noite, ele havia se esforçado ao máximo. Parabenizei-o, apesar de pensar que não o faria tão cedo, e dispensei-o pelo dia seguinte, já que já era quase de manhã quando regressamos à minha casa. Mandei que viesse novamente na sexta-feira, logo cedo, quando o explicaria sobre almas, e depois partiríamos para treinar novamente em algum dos cemitérios. Ele concordou de prontidão, apesar de que, julgando por sua disposição, continuaria treinando ininterruptamente.

De minha parte, fui dormir assim que Oscar deixou minha casa. Não pretendia modificar drasticamente minha rotina, então acordei logo após o meio dia e ocupei o resto de meu dia estudando o velho escrito. Se fosse encontrar o arquivista Catariano no dia seguinte, não gostaria de estar desinformado sobre ele, ou sobre sua escola.

 

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