XXVII – Do encontro com o Catariano.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.

Na quinta feira pela manhã, o segundo dia em que não ensinaria Oscar, saímos cedo, eu e Mefisto. Percorremos o mesmo caminho de sua primeira viagem até a biblioteca, e chegamos lá pouco antes de sua abertura. Acabamos decidindo por comer alguma coisa em uma das cafeterias que haviam aí por perto. Entramos na que tinha o melhor aspecto, e ela em muito superava a qualidade, ou pelo menos a primeira impressão, do café em que eu entrara com meu pupilo.

Agora, não sei se é pela sensação de segurança que ele constantemente transmitia a mim, mas eu sentia-me com mais vontade de deixar minha casa enquanto Mefisto estivesse por perto. Além da própria honra que era a mim, ter a oportunidade de aprender (e possivelmente ensinar) sobre o mundo atual ao Errante dos Múltiplos Planos. Acabava por ser uma espécie de simbiose.

Tomei minha habitual xícara de chocolate, enquanto Mefisto devorava um pastel folheado, que havia escolhido porque, segundo ele, parecia alimentar o suficiente para o resto do dia. Eu quase não vira o Errante comendo, e ele provavelmente não precisava para manter-se em pé. Fazia por questão de mera experiência. Eu não conseguira, durante meu simplório desjejum, parar de pensar na cada vez mais próxima reunião com aquele que possivelmente elucidaria várias de minhas dúvidas histórias. Saímos do café perto das nove horas, e a biblioteca já estava aberta.

Fomos conduzidos pela mesma secretária até a sala do arquivo, e depois de passarmos pelos mesmos padrões de segurança cumpridos da última vez que havíamos entrado, pudemos finalmente acessar a grande biblioteca, de atmosfera artificialmente seca e amena. Saudava-nos um arquivista velho, de estatura média, porém mais esguio do que robusto. Seus cabelos eram quase uniformemente brancos, exceto por pequenos indícios de que fora vermelho próximos à raiz dos fios de cabelo. Por baixo do guarda-pó que usava, era possível ver que se encontrava vestido em roupas de corte fino.

Levantou-se da cadeira para ir em nosso encontro através do grande salão assim que viu Mefisto caminhando em sua direção.

– Bom dia, rapazes! Chegaram cedo, acredito que há muita informação que queiram saber.

Sua voz soava cordial, apesar de rouca, quase chiada. Falava como alguém que apesar de ter vivido muito, ainda era capaz de adaptar-se. Habilidade essa que eu, lamentos à parte ainda não consegui aprender, e não tenho perspectiva nenhuma de que conseguirei.

– Olá, Lúcio. Trago meu amigo, que já havia mencionado antes.
– Ah, esse é o velho Fausto, com todo o respeito. Prazer, meu nome é Lúcio, e como você já sabe, nós Catarianos não usamos sobrenomes exceto pelo nome de nosso clã
– Estamos em igual situação, meu caro. Me chamo Fausto, e também não me recordo de ter adotado sobrenome algum.
– Não me surpreende, em todas as ocasiões que ouvi meus antepassados mencionarem teu nome, nunca lembro de ouvir algum título honorário ou nome de família.
– Dizes que já ouvira falar de mim, exceto por Mefisto?
– Oh, sim senhor. É impossível não ter ouvido, se me permite dizer. Caso o senhor tivesse morrido em nosso último conflito, meus irmãos não deixariam que sua alma descansasse, ou mesmo que fosse esquecido.

Um hábito comum a todos os Catarianos, e que soava mais presunçoso do que realmente era, era o de referir-se a todos os outros Catarianos como irmãos. Aquele homem à minha frente era único: mesmo tendo uma idade avançada comparada ao povo que eu costumava ver pela cidade, portava-se como a geração mais jovem, talvez fosse mais ativo do que o próprio Oscar.

– Ouvi falar que o senhor possui informações sobre esse mesmo conflito, e informações que me interessariam.
– E se as possuo, meu caro Fausto. Talvez uma batalha que poderia ter derramado sangue inocente, não fosse por sua benevolência, não tenha passado de um mal entendido. Talvez, por outro lado, haja mais um fator envolvido.
– E as hipóteses sobre a origem deste fator não são nada otimistas, correto?
– Correto. Mas deixemos isso para outra ocasião, acredito que o Quinto Pastoreio faça questão de conversar pessoalmente com vocês dois. Por hora, como posso servi-los, senhores? Espero que gostem deste arquivo, eu cuido dele praticamente sozinho.
– E fazes um excelente trabalho, caro Lúcio. Acredito que, se já sabes de mim, também saberá de minha proficiência com as Artes Ocultas. Tens algum outro documento desta biblioteca que acreditas que me interessaria?
– Hum, essa pergunta é difícil, Fausto. Só tenho alguns tratados básicos sobre as Artes, e coisas do gênero, não sei se seriam tão relevantes para você.
– Poderia dar uma olhada neles mais tarde.
– Acredito, Lúcio, que, por estarmos reunidos nós três, deveríamos combinar uma data conveniente a todos nós para conversarmos com o Pastoreio – Mefisto disse, após um breve silêncio.
– É uma boa ideia, senhor Mefisto. Como vocês sabem, ou devem imaginar, o Pastoreio é um homem humilde, e irá encontrar-se com vocês dois quando desejarem, basta avisá-lo com alguma antecedência, coisa da qual posso encarregar-me.
– Acredito que daqui a uma semana, na próxima quinta feira, seja um horário conveniente. Poderei desmarcar alguns compromissos, e ter o dia inteiro livre. E para você, Mefisto?
– Acompanhar-te-ei quando bem desejares, caro Fausto.
– Então vou avisar o Pastoreio logo que chegar em casa, senhores. Aproveitem sua estadia por aqui, não são todos que conseguem permissão para estar em nosso grande arquivo.

E pelo resto do dia, com um curto intervalo para que almoçássemos, vasculhamos aquele grande cânone, que continha manuscritos quase tão antigos quanto a existência das Artes em si. Consegui fazer algumas leituras particularmente interessantes, principalmente sobre a vida e os hábitos dos primeiros Catarianos, e sobre a Cruz Fumegante em suas raízes. Seriam informações úteis, principalmente se as notícias que o Pastoreio trouxesse não fossem excepcionalmente boas.

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