XXVIII – De mais dias de calmaria.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.

Depois da tarde nos imensos arquivos mantidos por Lúcio, o simpático Catariano, retornei, junto com Mefisto, à minha casa. Ainda no centro da cidade, antes de entrarmos na estrada que levava até o bairro onde eu morava, cruzamos com o homem de monóculo, que eu não havia visto em dias. Passei por ele sem muito importar-me, mas pude reparar que ele manteve sua cabeça baixa. Mefisto não mencionou tê-lo visto em momento algum, então relevei eu também o encontro.

Ao chegarmos em casa, haviam três gatos esperando-me na varanda. Aquele gato acinzentado que já era um visitante comum, um gato preto e também uma gata branca com manchas cinzentas e amareladas por sua pelagem. Miaram tão logo me viram, e tratei de abastecer-lhes com comida e água. Em troca, a gata que eu nunca havia visto pelas redondezas antes acariciou minhas pernas com seu dorso, e em seguida, tornou a comer. Entrei em casa, preparei um jantar para mim e Mefisto, com os escassos recursos que ainda tinha, e logo recolhi-me a meu quarto.

Dormi uma tranquila noite de sono, sabendo que me encontraria com o Pastoreio, o mesmo homem que há décadas atrás eu julgava ter expurgado, e que agora revelara-se o homem mais importante de uma família de caçadores de bruxas. Que, segundo o Errante e contrariando tudo que eu já havia conhecido até então, na verdade eram nossos aliados, pois eram considerados bruxos apenas os usuários subversivos. O fato de ter fortes aliados a meu favor, aliados que haviam provado sua força através do que estava escrito naquele antigo documento que Mefisto tomara uma grande parte de seu tempo para que fosse traduzido, deixava-me dormir mais tranquilo do que normalmente eu esperaria dormir.

No dia seguinte, levantei cedo de manhã, prossegui para minha habitual caminhada, e encontrei uma ou outra mercearia aberta no caminho de volta, tão logo o sol havia raiado pela primeira vez. Comprei um pequeno estoque de carnes, pães, vegetais orgânicos e comida para gatos, que eram parte consideravelmente grande de meus dias. Logo em seguida, Oscar chegou, tão empolgado quanto sempre esteve. Perguntou-me quando treinaríamos novamente no cemitério, sugeri que na segunda feira à noite, e ele prontamente aceitou.

Aproveitei o tempo que tínhamos em minha casa, já que o resto deveria ser feito nos treinamentos de campo, para fortalecer suas habilidades básicas. Vi um excelente progresso de sua parte em questão de agilidade e eficiência de concentração da energia. De repente, Oscar não parecia um mau pupilo, e nesse mesmo dia, vendo-o esforçar-se para carregar o material supercondutor no chão até que ele finalmente emitisse um brilho branco levemente arroxeado, eu decidi levar seu treinamento a sério. Emprestei-lhe uma cópia manuscrita de um tratado sobre os principais conceitos dentro das Artes Ocultas, e disse-lhe que estudasse até a segunda feira, quando pedi que viesse preparado para um dia de treinamento puxado. Dispensei-o do treino no sábado também, já que não teria o que ensiná-lo além de repetir o que já havia aprendido. Assim ele teria tempo para estudar. Talvez eu pudesse improvisar um pequeno quarto na sala de casa e torná-lo residente por lá, se Mefisto concordasse.

O final de semana sem Oscar foi marcado por uma calmaria não usual. Mefisto estava absorto, embora nem tanto quanto estava na semana anterior, em seu projeto, mas ainda assim acompanhou-me em minhas caminhadas no sábado. No domingo pela manhã, ele ainda dormia quando estava por sair, então decidi não atrapalhar seu sono, e prossegui sozinho até o porto. Havia lá um navio de forma estranha, e ao vê-lo, tinha um nome que soava-me muito familiar: Fausto IV. Reconheci-o, além de ser meu homônimo, como sendo um dos navios que havia visto no porto, que partiriam para as mesmas terras almejadas por Margarida.

Voltei para minha casa, onde os gatos já esperavam por seu almoço. Servi-lhes ração como sempre fazia, além de trocar a água da grande tigela que servia-lhes como bebedouro, depois voltei para dentro de minha casa, onde passei o resto do dia dividido entre estudos para os quais pouca atenção era dedicada e conversas cujo tema eram meras especulações sobre a Cruz Fumegante e os Catarianos. Dormi cedo, como sempre.

A calmaria só veio a romper-se no dia seguinte, quando Oscar bateu em minha porta, quase na metade da tarde. Ele vestia-se, além de suas roupas modernas demais para meu gosto, com um capote muito parecido com o meu. Perguntei-lhe qual era a finalidade daquele capote, e ele disse que sentir-se-ia envergonhado estando ao lado de seu mestre sem estar propriamente trajado durante um treinamento de campo. Como eu já disse, o que não faltava em Oscar era dedicação.

Saímos tão logo escureceu em direção a um cemitério. Oscar ainda tinha dificuldades em chamar almas, então trabalhamos com a parte orgânica dos servos. Ele conseguiu emergir, restaurar e controlar seis servos ao mesmo tempo, e, apesar de sua lentidão, havia executado o trabalho com maestria. Eu não tinha nada sobre o que deveria corrigi-lo no treino daquela noite, então continuamos uma jornada intensiva de repetição dos exercícios buscando otimizar seu tempo. Um procedimento que eu adotava com praticamente todos os meus discípulos.

Saímos de lá, o sol já estava praticamente alto. Percebi que Oscar agora conseguia manter sua estamina por mais tempo, pois ele havia usado muito mais energia do que na outra noite em que fomos treinar em um cemitério e nem mesmo caíra desfalecido. Voltávamos conversando sobre, previsivelmente, as Artes Ocultas em geral, e logo ele pegou o caminho dele e eu peguei o meu, de volta à minha casa. Combinamos que nos encontraríamos no dia seguinte para mais tempo de prática em algum outro cemitério.

Ao me aproximar da porta, percebi que dessa vez não havia nenhum gato na porta da frente. Uma ponta de preocupação aflorava-se em minha mente: talvez fosse um sinal agourento, mas não me permiti ser pessimista. Se os dias de calmaria acabassem completamente, eu seria capaz de enfrentar o que quer que os interrompesse. Dormi até a metade daquela ensolarada, apesar de fria, tarde, e quando acordei, Mefisto já havia saído de casa, provavelmente havia muito tempo. Considerei estranho, já que ele costumava avisar-me quando saía durante o dia, mas lembrei-me de que não deveria ser pessimista, então levantei da cama e comecei meus afazeres. Logo depois de escurecer, Mefisto estava de volta a casa.

 

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